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Introdução do autor:

João Luís é oceanólogo, escritor, entusiasta e aquarista desde sempre.

Grupo Sarlo – Fevereiro de 2018

 

Pois bem…Estamos de volta com os ciprinídeos, pois a família está longe de acabar; nem se eu dedicasse um bocado de artigos a eles não conseguiria terminar. Mas tudo bem, pois a ideia não é esgotar o assunto e sim aguçar a curiosidade, o questionamento e fazer as pessoas irem atrás de mais coisa, mais informação.

Neste artigo aqui falaremos apenas dos Barbos. Embora tenha escrito “apenas”, isso engloba centenas de espécies; para se ter uma ideia contabilizei 318 espécies elencadas dentro do gênero Puntius, no site da Fishbase.org (pesquisa feita em fevereiro/18).

E por falar no gênero Puntius, você tem ideia de como estão divididos os barbos? A história é antiga e vai longe, mas vou dar uma resumidinha aqui pra situar. Eu, aquarista há alguns aninhos, ainda tenho a mania de escrever ou falar “Barbus” quando quero me referir a estes peixes aqui, pois era uma denominação científica, ainda mais antiga, que englobava todas espécies da categoria, responsável pelo apelido “barbos” para tais peixes. Só para curiosidade: barbus, do latim, significa barbilhão.

“Peraí, o Johnny falou ‘ainda mais antiga’? Quer dizer que Puntius também é antigo?” Quase isso…para algumas espécies já poderíamos dizer que sim. Explico. Lá pelo início desta década que vivemos, houve uma substancial revisão taxonômica no gênero Puntius, que já havia atualizado o antigo, arcaico, gênero Barbus, designado a diversas espécies. Isso se deu porque viu-se que Puntiusestava abrigando um imenso contingente de espécies de linhagens completamente distintas, ou seja, com diferentes ancestrais…estavam juntos apenas por apresentarem certas semelhanças morfológicas. E daí o bicho pegou.

Hoje em dia, os barbos estão organizados nos seguintes gêneros (negritei os que vou tratar mais à frente): Balantiocheilos, Barbodes, Barbonymus, Barbus, Chagunius, Dawkinsia, Desmopuntius, Devario, Discherodontus, Discherodontus, Dravidia, Eechathalakenda, Enteromius, Haludaria, Hypselobarbus, Kalimantania, Luciobarbus, Mystacoleucus, Neolissochilus, Oliotius, Oreichthys, Pethia, Poropuntius, Puntioplites, PuntigrusPuntius, Sahyadria, Spinibarbus, Squalidus, Striuntius, Systomus, Tor…desculpem se esqueci algum, mas eu tive que “pescar” nome a nome no site da Fishbase. São peixes situados em inúmeras regiões da imensidão da Ásia e até mesmo na África, como é o caso, por exemplo, do Enteromius camptacanthus (antigo Puntius camptacanthus, originário de Camarões). Além disso, nem todas seriam, propriamente, espécies ornamentais de aquário, uma vez que muitas são tidas como itens alimentares na Ásia, atingindo tamanhos superiores a 50cm.

A ideia de fazer um artigo exclusivo de barbos se deu, primeiro, por sua enorme diversidade e também devido as minhas lembranças. Lembro-me saudosamente dos meus primeiros aquários, nos quais sempre havia um barbo, mais manso ou mais tinhoso, causando-me as mais diversas sensações (de amor a desespero). Selecionei, claro, os que mais gosto e já usei os nomes científicos válidos, para vermos como ficou essa nova organização.

 

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Os Barbos mais conhecidos

Barbo Cereja (Puntius titteya)

Este pequeno peixe (entre 4 e 5 cm) já foi do gênero CapoetaBarbus e agora é Puntius…baita crise de identidade, coitado! Ainda assim é gente boníssima! Amor à primeira vista, desde quando eu o vi! É um peixe extremamente pacífico e de cardume, ou seja, adquira um mínimo de 6 indivíduos, o que costuma contribuir para que mostrem melhor desenvoltura: machos gostam de disputar fêmeas e isso auxilia no desenvolvimento das cores. Nesta espécie os machos são menores, mais magros e adquirem a coloração “cereja” na maturidade.

O Barbo Cereja é endêmico do Sri Lanka, Ásia, vindo das bacias dos rios Kelani e Nilwala, numa área que costuma ser de leitos rasos e de fluxo lento, cercados por mata na margem, que sombreia a água (plantas flutuantes no aquário são bem-vindas!). Por falar nela, sua temperatura varia entre 22 e 27°C e o pH entre 6,0 e 8,0.

Na natureza este barbo costuma comer desde algas verdes filamentosas e detritos, até o filé mignon dos rios, que são insetos, vermes, crustáceos e outras guloseimas encontradas no plâncton.

 

Barbo Rosado (Pethia conchonius)

Eu não sou o aquarista mais fã de peixes-véu, mas de alguns eu gosto e foi justamente um Barbo Rosado véu que me fez ter esse peixe no aquário; naturalmente têm nadadeiras normais, mas eu gostei da versão “cabelão ao vento”.

Se falei que o outro tinha crise de identidade, este aqui é ainda pior, pois as sinonímias se multiplicam: Cyprinus, Barbus, Puntius Systomus já foram os gêneros a que pertenceu, antes de virar Pethia. E você se achava indeciso, hein?!

Originário dos países asiáticos Afeganistão, Paquistão, Índia, Nepal e Bangladesh, é o maior dos barbos que eu trouxe aqui, podendo alcançar mais de 10cm. Grande também é sua capacidade de se adequar ao ambiente, ele habita desde rios de fluxo rápido até lagos e mesmo pântanos; talvez por características assim é que tenha invadido o meio ambiente de países como Colômbia, México e Austrália. Ainda assim, recomenda-se temperatura entre 18 e 24°C e pH entre 6,0 e 8,0.

É um peixe comportado e compatível, em temperamento, para aquário comunitário. Bom de boca, tem um amplo cardápio alimentar: detritos, algas, insetos, vermes e crustáceos. O “rosado” do peixe é acentuado nos machos, especialmente na época de reprodução, embora eles sejam menores e mais magros.

 

 

Barbo Rubi ou Nigrofasciato (Pethia nigrofasciata)

Este magnífico barbo rubro-negro coabita a mesma área de distribuição do Barbo Cereja, no Sri Lanka. Assim é válido reafirmar os parâmetros de água (temp. 22 a 27°C e o pH 6,0 a 8,0), a configuração do habitat para tê-lo no aquário e até mesmo a dieta.

As belas cores rubi e negro, tal qual falado para as espécies acima, são mais pronunciadas nos machos e em época de reprodução. As fêmeas maduras lembram até mesmo a espécie que veremos a seguir, o Sumatrano, mostrando barras verticais escuras sobre um corpo amarelado.

O tamanho gira em torno dos 5,5 e 6cm e, na minha opinião (que não é unânime), são menos simpáticos que os outros barbos aqui abordados. São peixes de cardume muito ativos e por vezes podem estressar ou machucar espécies menos extrovertidas, se é que me entendem. Ainda assim, seriam peixes bem cotados para aquários comunitários, desde que estudados os companheiros.

 

 

Sumatrano (Puntigrus tetrazona)

O nome Puntigrus deriva da mistura de “Puntius” e “tigrus”, termo este que faz menção justamente a um dos nomes populares pelo qual este barbo é conhecido: “tigre” (devido às suas barras verticais). Na bagunça dos nomes, Sumatrano já foi Capoeta, Barbus, Puntius e Systomus…aí você pensa “hum, entendi…houve uma bagunça imensa com esses quatro nomes do gênero, então, ‘tetrazona’ seria…‘tetra’, do latim, significando ‘quatro’ + ‘zona’, que seria ‘bagunça’…”. Bem, sinto dizer que não…você está parcialmente certo, pois “tetra” é realmente “quatro”, mas “zona” faz menção às barras verticais (que são quatro) e não à bagunça feita pelos taxonomistas. Vamos adiante.

O gênero reúne espécies muito parecidas com Puntigrus tetrazona, como o P. anchisporus, P. pulcher, P. navjotsodhii ou P. partipentazona, os quais habitam distintas regiões da Ásia. Dá pra dar um nó na cabeça da gente com as semelhanças.

Se você ainda se pergunta o porquê do nome Sumatrano, esclareço que ele advém da região donde o peixe é originário: Sumatra. Estes barbos são parecidos em aspecto, tamanho (uns 6,5 – 7cm) e hábitos com o Barbo Rubi, embora sejam consideravelmente mais belicosos, recomendando, pra começar, aquários maiores; diferenças entre macho e fêmeas são menos evidentes, salvo a questão do tamanho e volume, que são maiores nelas. É bom dizer que eles ficam menos agressivos quando em cardumes maiores (a partir de 8 indivíduos) e em aquários com espécies compatíveis (que aguentem o tranco). Mesmo não sendo conterrâneos com os três outros barbos do artigo, possuem parâmetros de água próximos aos demais: temp. 20 a 26°C e o pH 6,0 a 8,0. Como dieta, primam pela proteína animal; são considerados predadores de invertebrados aquáticos.

Esses foram apenas quatro das centenas de espécies existentes de barbos. Certamente você conhece outras bem comuns, como o Barbo Ouro, mas o espaço é limitado e tenho que fazer escolhas…Aproveitando que a temática é justamente essa, por acaso, você já pensou num aquário só de barbos? Você já pensou em ter um? Sim? Quais as espécies você colocaria? Não sabe em que tipos de aquário se encaixariam? Deixa eu colocar umas ideias.

 

O aquário de Barbos

Acredito que uma das primeiras coisas que podemos reparar é que praticamente todas as espécies citadas estão em faixas de pH próximas ao neutro, o que os candidata para viver em aquários comunitários; claro que observando certas limitações como vimos no caso do Sumatrano. Não é à toa que muitos de nós já tiveram algum barbo no aquário ou que eles sejam maciçamente reproduzidos pelos criadores comerciais, eles participam de um apreço comum dos aquaristas e a demanda é alta.

Além disso, pensando nos barbos isoladamente, costumam ser resistentes, permitindo aos iniciantes conhecerem o gosto pelo aquarismo. Entenda “resistência” não como um animal que aguenta qualquer coisa, inclusive maus-tratos, mas que tem pouca exigência quanto, por exemplo, ao tipo de filtro que se usa. Considerando os diminutos tamanhos dos peixes aqui tratados, creio que uma maneira saudável de dimensionar um aquário só de barbos seria: 1) partir de uma tamanho mínimo de aquário de 60x30x40 (volume total de 72 litros); 2) considerar 1cm de peixe (tamanho adulto) por litro (real) de água, ou seja, nos 60 litros de água desse aquário (já descontei o volume ocupado por substrato, decoração e aquela margem de segurança pros peixes não saltarem para fora), poderiam haver 10 peixes que cheguem a 6cm. Num exemplo concreto e CONSERVADOR seriam 5 Sumatranos (35cm na soma total) + 4 Rubis (24cm total). São espécies compatíveis, com variedades de cor pra não ficar monótono e numa quantidade que um simples (e bom/confiável) filtro externo  pode manter a qualidade de água.

E, por fim, como terceira sugestão e na minha modesta opinião, acredito que até mesmo em aquários plantados eles sirvam bem. Pense comigo utilizando o que vimos sobre o Barbo Cereja (ou o Rubi): “preferem água pouco movimentadas, curtem uma saladinha de filamentosas verdes e pH Neutro”…Ora! Se rememorarmos o que já conversamos sobre aquários plantados, podemos facilmente pensar que este pequeno e vermelho peixe (imaginou o contraste contra o verde das plantas?) se encaixa perfeitamente! Ponha uma densidade baixa de indivíduos, para não prejudicar a fertilização  que tenha sido feita – preferencialmente menor que a aconselhada no parágrafo anterior – e uma única bomba de baixa vazão , ligada a um FBM sem mídias filtrantes que retirem nutrientes da água. A baixa circulação coopera com permanência do CO2 (que deve ser injetado para melhorar a produção fotossintética).

 

Lendo essas coisas parece até fácil ter barbos em aquário…e é! Na minha opinião, barbos podem ser colocados em inúmeros tipos de aquário, basta apenas saber um pouco sobre a espécie desejada e ver como acomodá-los no ambiente…tem sempre um esperando para ser introduzido no tipo de aquário montado.

Sem querer tomar mais seu tempo, fico por aqui, agradecendo sua leitura e esperando-o no próximo artigo. Até lá!

Sobre o Autor

João Luís (Johnny Bravo) é brasiliense, daqueles que não se conformou só com o lago Paranoá e foi estudar Oceanologia pela FURG/RS, ingressou no mundo do aquarismo como palestrante e autor de textos há 10 anos, onde cambou para o lado dos Ciclídeos Africanos. Articulista das melhores revistas do ramo, escreveu matérias de capa para a Revista AquaMagazine e Aqualon. Nascido em 1975, é aquarista há 40 anos, pois da água veio e nela gosta de estar. E, hoje integra o time de escritores especializados do Grupo Sarlo.