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Introdução do autor:

João Luís é oceanólogo, escritor, entusiasta e aquarista desde sempre.

Grupo Sarlo – 15 de Fevereiro de 2016

 

 

Felícia é uma menina doce e feliz, de 4 anos de idade, que adora dar comida para os peixinhos que seu pai lhe deu há pouco…tipo, há pouco mesmo, ele comprou ontem o aquário e os peixinhos na loja da esquina, montou tudo facilmente e hoje acordou mais cedo, aproveitando para tirar alguns dos peixinhos que morreram (voltou a dormir depois). Durante o café da manhã, um brunch, pois é domingo e os guerreiros merecem descansar, enquanto ouvia a menina falar incessantemente dos peixes, pensava no seu dia. Desperto pelo chamado do relógio, olhou amorosamente para Felícia e disse: “Filha, agora é contigo! Comprei o que você queria, agora é você quem cuida!” – com um beijo terno ele se despede da inocente criança, pega a cerveja (para arrematar a refeição matinal) e inicia seu transe de macho alfa, plantando-se diante da TV para curtir a NFL.

 

Felícia entra em seu quartinho, acompanhada de sua bonequinha de pano, Emília, e após uma discussão com ela, entende seu ponto de vista e a deixa mergulhar no aquário. Sem fôlego a bonequinha volta para a superfície e diz arfante: “os peixes estão com fome, podemos dar a outra metade do pote de comida para eles crescerem mais rápido.”…e Felícia atende a vontade de sua amiga. Enquanto virava o resto do pote, sentiu frio nas mãos encharcadas e, sagazmente, lembrou seu pai dizendo “este é o aquecedor do aquário filha, para quando os peixes tiverem frio”. Seus olhos curiosos acompanham o fio e veem que está fora da tomada…suas ágeis e molhadas mãos iniciam novo procedimento, que agora é até perigoso…basta! Estes dois parágrafos estão sendo escritos da maneira mais esdrúxula possível, apenas para serem desconstruídos ao longo do texto, pois eles deturpam tudo que o aquarismo para crianças pode vir a ser.

 

 

Aquários servem para crianças?

 

Sim, é a resposta direta, mas jamais devem ser deixados sem supervisão. Quanto mais nova a criança, mais próximos os pais devem estar e diferentes são as formas de abordagem. E como seria isso? Nas próximas linhas, teço algumas ideias sobre o contato das crianças com o aquário, não como especialista em pedagogia, mas sim como entusiasta do aquarismo…bora lá ver como ficou…

 

Crianças são, naturalmente, envoltas por uma aura de deslumbramento e magia, sendo que aos poucos vão deixando a fantasia para trás e se dando conta do mundo material ao redor, seus mistérios e aventuras. Podemos, por meio do aquarismo, ser vetores desse maravilhamento. Trilhar um caminho desses ao lado de uma criança gera num adulto, no mínimo, uma sensação de agradecimento por poder fazer parte de um mundinho tão especial e verdadeiro como o de uma criança. Já na pequena peça de ser humano, chegam sentimentos de fortalecimento dos elos familiares, como confiança, compromisso, respeito, admiração e tantos outros. Ter em casa um aquário com a finalidade de estar do lado do seu filho, dedicar tempo, fazer junto, tocar, conversar, ouvir, aprender…são, incomparavelmente, mais valorosos que 12h ininterruptas de videogame – cabe lembrar que não são atividades que se excluem, você pode ter e curtir os dois.

 

 

Etapas

 

Obviamente não serei eu quem irá determinar o que você fará com seu filho diante de um aquário, vamos apenas elucubrar a respeito. Claro que tudo dependerá do seu próprio conhecimento sobre o hobby, se é iniciante ou se já é veterano, e também a idade da molecada. Bem, se fosse eu, como pensaria em transmitir o gosto do aquarismo para o meu filho?

 

Até os 2 anos a criança ainda está aprendendo pela ação direta, a experimentação prática e não simbólica. O isso significa? Ela preferiria, por exemplo, sentir a água na mão do que ver os peixes nadarem, ou esfarelar a ração com os dedos, do que ver os peixes comerem. A sugestão seria deixar a criança participar de forma indireta, tateando um pote de ração ainda lacrado (pra não ter perigo de abrir, derramar, levar à boca etc.), manusear a caixinha de papel no qual vem a bomba e o aquecedor, ter um livro infantil à mão, deixá-la no seu colo e ir contando histórias e associando as imagens do livro com o que tem atrás do vidro.

 

Quando os pequenos adquirem a fala é que se torna possível acessar a função simbólica, trazendo para perto a compreensão do mundo e parte de sua complexidade. Nessa fase, entre os 3 e os 7 anos, as crianças estão interagindo ao imitar gestos e palavras das pessoas mais próximas. Aqueles questionamentos infindáveis sobre tudo e a lógica pura, já que estão se esforçando para compreender a vida ao redor. Ao mesmo tempo em que vejo de deva ser uma das fases mais gostosas de repassar a eles nossos gostos, visões e conhecimentos, fornecendo a eles novas descobertas e experiências, ainda não são capazes de serem “deixados a sós” com o aquário. A supervisão constante se mantém, pois estão naquela fase egocêntrica, sem a capacidade de se colocar no lugar do outro – não teriam distinção, por exemplo, sobre “estar fazendo bem ou mal” a um peixe, nem a condição de manusear aparelhos e produtos sem acompanhamento. A explicação do mundo do aquário, para crianças nesta faixa etária, deve ser clara, lúdica e buscando aspectos intrigantes que possam prender a atenção; não adianta muni-las de informações técnicas e complexas demais. Exemplos? Mostrar que o peixe faz o nº2 depois de comer (todo mundo é assim!), que o guppy macho é quem veste a roupa mais colorida, que o limpa-vidro beija o vidro e as pedras para procurar uma “saladinha” pra comer.

 

Lá pelos 8 anos, até uns 12, ela passa a ter uma noção mais completa de realidade. A lógica delas já não é mais tão engraçada, mas sim sistematizadas e capazes de englobar novos aspectos e a desenvolver situações mais complexas. Aqui já podem ser compreendidos os ciclos da vida, como as situações da vida e da morte, reprodução dos seres vivos (plantas e bichos), os tipos de alimentação dos peixes e também começam a poder coordenar procedimentos simples como dar comida três vezes ao dia numa certa quantidade, ver a temperatura no termômetro para deduzir uma ação a ser tomada (ligar ou desligar o termostato?), ajudar a ministrar condicionadores na água…quem sabe já não será ele que dirá “pai, está na hora de trocar a água do aquário”…quem sabe?

 

O que eu seria sempre chato: medicamentos e contato direto com a rede elétrica. Pra mim é “não”! Não é aconselhável e, sinceramente, não tem porquê – nessa campanha educativa – ele ser responsável por dirigir isso. Neste caso, uma criança estaria aprendendo o “não pode”.

 

 

Filho, vamos montar um aquário aqui pra casa?

 

Pai, você precisará de: 1) uma loja confiável, com gabarito e reconhecimento no meio aquarístico; 2) equipamentos e produtos de qualidade; 3) controle e disciplina.

 

O móvel para se colocar um aquário em cima não pode ter a superfície frágil ao ponto de quebrar ou sequer envergar, pois isso seria suficiente para trincar o aquário. O recomendável é comprar um móvel próprio ou ter um reforçado, com “vigas” que sustentem a superfície de contato com o aquário. Lembro que ele não deve ser colocado em áreas onde pegue sol direto ou corredores…por falar em corredores, mas num outro sentido, certifique-se que não fique numa área que as crianças usem para correr desembestadas.

 

O volume do aquário importa, claro, uma vez que é ele quem ditará a quantidade de peixes. Outra coisa, aquários grandes são mais estáveis do que os pequenos, devido ao volume de água suportar melhor adversidades repentinas, como queda de temperatura ou mudança abrupta de algum parâmetro. Não assuste com o trabalho de ter que “lavar o aquário”, hoje em dia fazemos trocas parciais de água, raspagem de alga dos vidros e limpeza dos filtros, sem ter que desmontar o aquário inteiro.

 

Substrato (“pedrinhas” do fundo). Coloridas eu não indicaria, pois a maioria que conheço vem de fontes duvidosas e soltam tinta. Se o vendedor (daquela loja realmente confiável) disser que é própria e garantir, bem, aí é com ele…eu indicaria o seixo de rio, buscando ver se a loja tem num formato uniforme, o que facilita a limpeza por sifonamento

 

Plantas naturais. Pra mim, se bem cuidadas, são um charme sem igual, todavia, elas resultarão em manutenção extra. Assim, se você quer apenas conhecer o mundo do aquarismo e mostrá-lo para os seus filhos (sobrinhos, netos e agregados), pode começar com plantas artificiais de alta qualidade – isso é igual a peças mais fiéis em cor e formato e que não possuem rebarbas que podem machucar os peixes.

 

Enfeites. Se optar por isso, não compre qualquer um, considerando apenas o preço. São vendidos produtos que soltam tinta e intoxicam os animais…é o típico “barato que sai caro”. Existem marcas especializadas, prefira-as!

 

Equipamento. Um bom filtro  é essencial. Pode ser tanto um externo como um Filtro Biológico Modular acoplado a uma bomba confiável . O que importará, ao final, é que você consiga dimensionar a filtragem ao aporte de matéria orgânica (comida, fezes etc.). Indispensável também são aquecedor  + termostato…deixar só o primeiro funcionando implica em mais trabalho, visando controlar a temperatura, e maiores chances de matar peixes com o superaquecimento. O termostato controla o aquecedor.

 

Peixes. Espécies pacíficas. Se você não é do ramo ainda, nada de inventar com aquários de ciclídeos africanos, por exemplo, comece devagar.

 

Comportamento…das pessoas. Peixes não são objetos, como o são bolas de tênis ou peças de Lego, são seres vivos. Se a ideia do aquário e conectar a criança ao mundo, à vida que explode por toda parte, então, façamos de maneira nobre. Trate-os como um pet que recebem de seu cuidador toda a atenção e respeito. Bater no vidro do aquário: nem pensar! Ficar enfiando a mão ou a redinha para perseguir os animais, tampouco. Lançar objetos dentro, não, não, ponha uma tampa! O hobby é um momento de contemplação e aprendizagem, por que não treinar isso?

 

A importância de você se dirigir a uma loja de renome lhe assegura um bom aconselhamento para cada um dos itens aqui tratados, conforme o seu desejo. Além disso, eles 

não lhe venderão

 os peixes no mesmo momento da compra do aquário, pois, antes, explicarão a importância da maturação da água, preparando-a para a chegada dos peixes.

 

 

Jingle Bells, Jingle Bells…

 

Natal chegando e você está sem ideias de presente para os seus filhos? Não quer dar o mesmo que todos os seus vizinhos darão? Reflita então. Temos aqui uma chance de que pais e filhos fiquem juntos para aprender juntos, no caso de todos serem marinheiros de primeira viagem. Num dia a dia tão alucinante, no qual não temos tempo para nada, nem para nossa família, encontrar um motivo para agregar o pessoal ao redor de um mesmo assunto não seria um bom motivo?

 

Na parte II vamos tentar falar um pouquinho sobre as “matérias” ligadas ao aquarismo que podemos desenvolver ou, no mínimo, aguçar na curiosidade da criança…

Sobre o Autor

João Luís (Johnny Bravo) é brasiliense, daqueles que não se conformou só com o lago Paranoá e foi estudar Oceanologia pela FURG/RS, ingressou no mundo do aquarismo como palestrante e autor de textos há 10 anos, onde cambou para o lado dos Ciclídeos Africanos. Articulista das melhores revistas do ramo, escreveu matérias de capa para a Revista AquaMagazine e Aqualon. Nascido em 1975, é aquarista há 40 anos, pois da água veio e nela gosta de estar. E, hoje integra o time de escritores especializados do Grupo Sarlo.