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Introdução do autor:

 
João Luís é oceanólogo, escritor, entusiasta e aquarista desde sempre.

Grupo Sarlo – 15 de Fevereiro de 2016

Dando continuidades às ideias apresentadas no artigo anterior, trago aqui um ponto de vista que intenta transformar o aquarismo num polo de motivações para as crianças estudarem brincando. Criar o gosto nelas por aprender.

 

De modo geral, os processos educacionais tradicionais tendem a ser muito informativos e pouco formativos. Captou? Tipo, recebemos doses cavalares de informações durante nosso processo de desenvolvimento e, geralmente, vemos pouca praticidade, sem aplicações imediatas, sentimos que aquilo serve para muito pouco ou mesmo para nada. Tanto é verdade que as escolas que saem um pouquinho da mesmice destacam-se e passam a ser diferenciadas, com alunos motivados e de cognição ascendente.

 

Uma criança estimulada vê o infinito como seu limite e ela precisará de você envolvido, pois não será somente o conhecimento que se passa que a incitará, mas sua empolgação e a dedicação destinadas à prática. Criatividade é uma ferramenta muito útil neste processo, assim, o que se lê aqui pode ser adaptado à realidade da casa ou ao intuito dos pais.

 

Os conceitos neste hobby não estão separados como na escola, onde você aprende a matemática com um professor, faz um intervalo e vai para a aula de português. No aquarismo, tudo está funcionando ao mesmo tempo, pois os processos são dinâmicos. Será necessário ministrar a informação baseando-se na idade que a criança possui, lembra? Mais lúdica quando de menos idade e mais complexa se for maior. O importante é perceber se a criança é “tocada” pela simbologia adotada, ver se ela está respondendo aos estímulos.

 

Televisão é importante, internet também…games, futebol e tomar sol…cada um em sua dose, para não expor a criança ao excesso nem aliená-la com a exclusão total. O contato com a natureza, por sua vez, está cada dia mais distante da vida na cidade e ele pode ser reconectado com o aquarismo. Na minha opinião, crianças precisam crescer reconhecendo o mundo natural ao seu redor, respeitando-o.

 

O que podemos fazer nesse sentido? E que matérias são essas que o aquarismo engloba? Antes de mais nada saiba que, independentemente do aquário que você montar com seu filho (ou filha, claro!), será um mundo novo e completo. Vamos ver algumas ideias para inspirá-lo na sua jornada…

 

 

Escolinha do Professor Acará-Bandeira

 

Na sala de aula do aquarismo falamos de tudo, assunto aqui não falta. Alguns temas são óbvios, outros, porém, podem ser dali abordados. Aqui abaixo discriminei alguns temas maiores, os quais podem ser aprofundados e moldados conforme o intuito escolhido e a idade da criança.

 

Biologia

. Provavelmente o mais rico dos temas, por estarmos tratando de seres vivos no aquário. Esta é a matéria da explosão da vida…vida, ciclos, crescimento, relações intra e interespecíficas, reprodução, doenças e tantos outros temas podem ser aqui encontrados.

 

Peixes de fundo, de superfície, de meia água, coloridos, de formato engraçado, grandes, pequenos, numa composição com plantas que boiam, verdes, roxas e vermelhas, com flores dentro e fora da água. O estímulo visual de um aquário saudável e bem montado é melhor que SmartTV 4K. Conduzir uma criança para este mundo só tem a render muitas emoções.

 

Reprodução, uma experiência da continuidade da magia da vida. Um bom exemplo seria mostrar peixes ovovivíparos, onde o filhotinho nasce “direto” da barriga da mãe (na verdade há um ovo dentro do corpo, mas só vemos o peixinho saindo), pode ser uma ótima forma de abordar o tema com crianças de diversas idades sobre o mistério do nascimento. A dica é, se este for o tema a ser levado à frente, é aconselhável que haja como acessório do aquário principal um aquário “maternidade” ou, ao menos, uma criadeira, para que possa haver a chance de vingar os filhotes nascidos. Se estiverem num aquário com outros, há chances de que sejam comidos, algo que a maioria das crianças se impressionaria (predação ou canibalismo, pra mim, seriam temas abordados com crianças maiores ou pré-adolescentes).

 

Fotossíntese das plantas. Se o aquário for um daqueles plantados, que segue as regras, a criança terá a oportunidade de entender que é um processo similar ao de uma horta, com a utilização de substrato nutritivo, uso de iluminação para “imitar” o sol e talvez até acompanhar a aplicação de nutrientes suplementares . Observar o crescimento das plantas, fazer podas e até mesmo ver as bolhinhas advindas do processo em si (acontece quando temos inserção de CO2)…e por que não partir daí pra umas seções de fotos e, quem sabe, participar de uma competição de aquapaisagismo?

 

Ciclo alimentar. Interessante abordar, uma vez que a criança perceberá que o peixe de aquário não é um objeto de decoração apenas, mas sim uma criatura viva como ela mesma. Por que não conciliar as horas de refeição dos peixes e das crianças? Mostrar o “nº2” saindo após eles terem comido e relacionar com a própria fisiologia da criança? E que uma vez sujo o aquário, será necessário limpá-lo, senão todos adoecem. Dependendo da idade, poder-se-ia abordar a função dos filtros e das bactérias nitrificantes, correlacionando-as com as estações de tratamento da água. Friso que o ciclo do nitrogênio é um dos mais importantes sistemas naturais em funcionamento no aquário, devendo estar sempre saudável.

 

Os temas são todos expansíveis, sendo que Ecologia e Meio Ambiente podem entrar em qualquer uma das vertentes da biologia…e outros, como poderemos deduzir.

 

Matemática

. “Filho, nesta garrafa pet de refrigerante cabem 2 litros de água. Quantas delas você acha que são necessárias para encher nosso aquário?”…lápis e papel na mão? Valendo um chocolate! Diga-me os volumes real e bruto de um aquário plantado (o cara usa 10cm de substrato fértil para enraizar as plantas) de 60(C)x30(L)x40(A) cm. Travou? Qual a diferença de bruto e real? Vamos lá…bruto seria o volume de água máximo que caberia no aquário, caso não houvesse nada mais nele; a conta é multiplicar as medidas 60x30x40 cm = 72.000 cm3 (centímetros cúbicos), o que é igual a 72 dm3 (decímetros cúbicos) ou 72 litros. Se o aquarista do exemplo tem 10 cm de substrato, quer dizer que nesse volume, ao invés de água temos areia/pedra, ou seja, o volume real (a água que o peixinho tem pra nadar) é cerca de 54 litros (60x30x10 cm = 18 litros; volume real = 72 – 18).

 

Este é um caso simples, sem complicações, para termos ideia. É esse o volume que consideramos na aplicação de medicamentos, condicionadores, sais etc., inclusive, para sabermos quantos peixes cabem. “Ué, tem fórmula pra isso?” Há quem faça cálculos para tal. Considerando espécies pacíficas, cujo temperamento permite a mistura em aquários comunitários, podemos calcular 1cm de peixe para cada litro de água. Observações: o “cm de peixe” deve considerar o tamanho máximo que um adulto daquela espécie atinge e os “litros de água” se referem ao volume real.

 

Expandindo a matemática, ainda podem ser abordados outros aspectos como Economia, trazendo a criança para participar e planejar os custos (ver a diferença na conta de luz depois do aquário e o próprio consumo das lâmpadas, escolhendo qual o melhor meio de iluminação; avaliar custo-benefício quanto à aquisição de produtos de grandes marcas e aqueles “tabajara” e por aí vai).

 

Química

. Não há como escapar dela! Tal como um cientista em seu laboratório você precisa sempre estar medindo parâmetros da água, como teores de NO2–, NO3–, NH3– ou presença de HCO3– ou CO3–2… “eita, o Johnny nem viu que o teclado dele começou a codificar as palavras”. Nã-nã-ni-nã-não…foco aqui! Isso é química pura. Pelas representações químicas dos elementos eu me referia a nitrito (NO2–), nitrato (NO3–), amônia (NH3), bicarbonato (HCO3–) e carbonato (CO3–2). Compostos como os discriminados influenciam no dia a dia, podendo atuar no crescimento de algas, intoxicação de peixes, manutenção do pH e tantas outras coisas.

 

Quando você faz o teste de pH (uma escala logarítmica que vai de 0 a 14), você está medindo a quantidade de íons de hidrogênio (H+) em solução, que por sua vez é um parâmetro influenciado pela existência e concentração de bicarbonato e carbonato. Outra relação, já mencionada, que posso destacar é referente a “ciclagem”, que tanto ouvimos, especialmente quando o assunto é aquário novo. Trata-se do processo bioquímico em que a amônia e o amônio estão sendo transformados em nitrato e nitrito (resumão grosseiro). Entender isso é saber como funciona o ciclo do nitrogênio (N) na água, assunto este que se mescla às bactérias nitrificantes. Ou seja, um assunto puxa o outro.

 

De posse dos testes corretos (e de boa qualidade) você será capaz de mostrar à criança as condições da casa dos peixinhos. E se tudo começar a dar errado, com valores absurdos e inexplicáveis? Calma! Atitude na frente das crianças é tudo! Utilize a magia dos condicionadores. Pico de amônia? Procure por um neutralizador de emergência. O pH está absurdamente baixo? Retire matéria orgânica em decomposição e adicione algum produto com íons de bicarbonato. Para cada questão há uma solução, bastando apenas consultar as fontes certas.

 

Misturando biologia com química, a criança pergunta: “Como o peixe respira debaixo d’água? Ele não afoga sem oxigênio?” Você responde: “Os peixes respiram justamente o oxigênio, só que dissolvido na água! Dá pra ver aquela tampinha mexendo ali (opérculo (a óssea que protege as guelras)…debaixo estão os órgãos de respiração (guelras).” Se mais velha, pode-se ir além, falando que a circulação de água otimiza a troca gasosa, adicionando oxigênio a ela…assim, quando seu filho perguntar “pra que serve a bombinha? você pode relacionar o aparelho à entrada de “ar” para ele respirar.

 

Geografia

. E como não? Peixes, plantas e outros organismos, os quais vemos nas lojas de aquário, vêm de todo mundo. O Acará-Bandeira, um ciclídeo, vem do mais volumoso rio do mundo, rio Amazonas, o qual nasce na Cordilheira do Andes, no Perú, passando pelo Colômbia, até chegar ao mar, no Brasil, entre os Estados do Amapá e Pará. E o Betta? Outro peixe muito popular, vindo do sudeste asiático, ao longo da bacia do rio Mekong, que passa por países como Laos, Camboja, Vietnã e, principalmente, Tailândia, onde habitam águas doces rasas e calmas de fundos lamosos, incluindo os arrozais. Com um mapa na mão você pode viajar o mundo inteiro com seus filhos e partir para outros assuntos interessantes, globalizando o entendimento.

 

Português

. Sim, claro! Não há como se aprofundar em nenhum tema sem leitura. Há no mercado livros em língua portuguesa com conteúdo relevante e a sugestão é adquirir algum que seja mais conceituado, para dúvidas eventuais. E se o seu filho já frequenta aulas de inglês, adianto que há muito conteúdo e sites excelentes nesta língua estrangeira.

 

Socialização

. Não é uma matéria, mas é uma qualidade muito apropriada a se desenvolver num ser humano, para que ele aprenda a lidar com o outro, treinar a comunicação e as relações. Nunca pensou no seu filho mostrando o aquário para os amigos da escola e ensinando a eles que não pode bater no vidro? Que o peixe cor de prata é na verdade um acará-bandeira que vem do maior rio brasileiro, o Amazonas, e que ele forma um casal com seu cônjuge cuidando da cria contra qualquer invasor? Pois pense…deve dar um orgulho impagável…

 

O aquarismo não é um hobby de um dia só, não se resume num livro apenas e muitas das respostas não são exatas, dependem da contextualização. Trocas de experiência sempre foram um dos sucessos do aquarismo, o empirismo embasou muitas das soluções encontradas hoje em dia. Nos dias atuais, há tecnologia de ponta, pesquisas e largo conhecimento disponível para complementar o ambiente do hobby. Além disso tudo, pessoas reunidas ao redor de um objetivo comum podem criar laços de amizade, cooperativos ou mesmo comerciais.

 

Eu acredito muito nesse universo, pois nele vi muito daquilo que falo…mesmo sabendo que não se trata de um conto de fadas. É um hobby com muitos lados positivos, plenamente apto a ser apresentado às crianças. Elas repetem gestos e palavras daqueles que estão próximos, refletem para a sociedade aquilo que as estimula, ou seja, se bem conduzidas – como dentro do aquarismo – poderão reluzir como pequenas luzes, distintas e mais coloridas.

 

Lembro que estas são apenas ideias sobre como o hobby pode ser abordado, quando em contato com crianças. Há muito mais que pode ser explorado, cabendo a sua criatividade, conhecimento e disposição conceber. Agradeço por mais esta leitura e até o próximo artigo!

Sobre o Autor

João Luís (Johnny Bravo) é brasiliense, daqueles que não se conformou só com o lago Paranoá e foi estudar Oceanologia pela FURG/RS, ingressou no mundo do aquarismo como palestrante e autor de textos há 10 anos, onde cambou para o lado dos Ciclídeos Africanos. Articulista das melhores revistas do ramo, escreveu matérias de capa para a Revista AquaMagazine e Aqualon. Nascido em 1975, é aquarista há 40 anos, pois da água veio e nela gosta de estar. E, hoje integra o time de escritores especializados do Grupo Sarlo.