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Introdução do autor:

João Luís é oceanólogo, escritor, entusiasta e aquarista desde sempre.

Grupo Sarlo – 15 de Fevereiro de 2016

 

Aquarismo Responsável

Parte III: espécies exóticas invasoras de água salgada.

 

 

Para não ficar parecendo que apenas organismos de água doce causam problemas, não poderia deixar de falar sobre aqueles que vivem nos mares e oceanos. Desta vez, a base inspiradora foi outra publicação do Ministério do Meio Ambiente-MMA, chamada “Informe sobre as Espécies Exóticas Invasoras Marinhas no Brasil”, do ano de 2009.

 

Chegam as férias, vamos para a praia, olhamos aquele marzão e pensamos que tudo está bem: longe do chefe, dívidas engavetadas e trocadas pelo cheiro da maresia, petiscos e refrescos. Como bons aquaristas, investigadores entusiastas, sabemos que “não ver o problema de cara, não significa que ele não exista”. A costa brasileira tem 8.698km de extensão, ocupando uma inimaginável amplitude latitudinal, desde os 4° Norte até 34° Sul. Números que nos dão a noção da tarefa hercúlea que é monitorar e fiscalizar tudo isso. “Problema do governo! Deixa eu curtir as férias!” Curtir as férias, ok; achar que o problema pode ser repassado à frente, não rola. Lembram-se do que falávamos nos artigos anteriores sobre aquarismo responsável? Aquele que nos inclui e que somos corresponsáveis? Pois então, o problema da invasão – marinha ou de água doce – é de todos nós, uma vez que a perda de espécies por invasão é a segunda maior causa, perdendo apenas para a destruição do habitat.

 

Isso já sabemos, mas para continuar falando das espécies invasoras, vou completar o entendimento dos efeitos que podem dar a uma espécie o status de “invasora” – que é aquela que agrega nocividade ao novo ambiente que ocupa. Para tanto, colocarei mais três condições. Além da competição indireta por recursos ou predação, que já vimos, cabe também considerar que elas podem entrar no ambiente na forma de um parasita (doenças), produzindo toxinas a ponto de prejudicar outros indivíduos (incluindo os humanos) e acarretando perdas econômicas significativas (ex: incrustação em tubulações ou redução dos rendimentos da pesca).

 

 

Os invasores de nossos mares

 

Visto isso, o que temos para hoje? Se você respondeu “peixe”, errou (por enquanto). Na publicação do MMA, para peixes que tenham currículo no aquarismo, apenas duas foram citadas, sendo que nenhuma é considerada invasora: Heniochus acuminatus (uma das espécies de peixe-borboleta), vista em Búzios-RJ, e Acanthurus monroviae (uma das espécies de peixe-cirurgião), vista em Laje de Santos-SP e Cabo Frio-RJ. A conclusão que podemos chegar é que eles estão no ambiente, mas não têm acarretado danos a ele. Eu me pergunto se são mesmo apenas estes ou se os estudos são insuficientes, se estão dispersos pelas universidades ou ainda não foram capazes de montar um diagnóstico mais preciso (sempre que eu leio algo termino com muitas perguntas).

 

Outros nomes conhecidos, porém, surgem na publicação. A macroalga Caulerpa (Caulerpa scalpelliformis), oriunda das águas Indo-Pacíficas, foi encontrada do Piauí à Bahia, Espírito Santo e Rio de Janeiro, sendo considerada invasora. O coral mole Chromonephthea braziliensis – bem, pelo nome tive que ir atrás de mais informação, pois pra mim “braziliensis” no nome científico era indicativo de que a espécie era daqui…mas não, tem confirmação de que ela é do Indo-Pacífico, com populações estabelecidas no nosso país. Ela pode atuar maleficamente devido a emissão de químicos que prejudicam tanto peixes como outros organismos, como a espécie nativa de gorgônia Phyllogorgia dilatata. Ainda nos corais são citadas duas espécies de Tubastraea: T. coccinea, vinda das ilhas Fiji, e avistada em Ilha Grande-RJ, mas também em Santa Catarina e São Paulo, e T. tagusensis, de Galápagos, com distribuição similar a sua congênere.

 

Muitas outras constam da publicação, mas não têm o apelo da “aquariofilia” para ganhar destaque aqui. Apenas para efeitos de curiosidade, constam algumas espécies de plâncton (poucas consideradas invasoras e muitas ainda apenas ditas “estabelecidas”), muitas destas têm as formas de propagação vinculadas à maricultura ou à água de lastro de navios. Poliquetas, moluscos, crustáceos (incluindo decápodes) e cnidários minúsculos, completam o elenco, pois muitos vêm dentro da água de lastro.

 

 

O campeão dos campeões

 

Mas e aí? Acabou? Poucas espécies invasoras vindas do aquarismo, impactos negativos mal evidenciados ou mesmo não relatados….isso não indica algo bom? Os mares brasileiros estão blindados contra a invasão alienígena! Vamos passar para o próximo artigo! E vocês acham que eu iria me dar por vencido?

 

Um dos casos mais emblemáticos de invasão dos mares, por peixes de aquário, precede a tal publicação de 2009. Trata de um membro da família Scorpaenidae (peixes-escorpiões), muito conhecido e adorado: apresento-lhes o lionfish ou Peixe-Leão (Pterois spp.). Este peixe, originário do Indo-Pacífico, tem registros de invasão desde o início da década de 80 na costa sudeste dos Estados Unidos, Caribe e Golfo do México, infestando hoje uma ampla região.

 

Para começar a falar sobre o “rei marinho dos peixes invasores”, começo desfazendo a menção no singular, pois, para o caso desta invasão no oceano Atlântico, o ataque divide o crédito entre duas espécies distintas, embora muito parecidas aos olhos não treinados: Pterois volitans (red lionfish) e Pterois miles(devil firefish). Todavia, o gênero em si reúne pelo menos 10 espécies, das quais apenas as 2 discriminadas serão o alvo daqui pra diante.

 

Não falamos aqui em relatos esparsos e difusos, feitos por pessoas que apenas já viram o peixe nos mares, mas sim de informação reunida e difundida por autoridades em oceanos, como a norte-americana NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration), bem como por meio de iniciativas pessoais e de organizações não-governamentais. Destaca-se daí o portal web “Invasive Lionfish Web Portal” (em inglês). Nele o interessado encontra desde fotos, passando por agendas para eventos educativos, técnicas de dissecação para te ensinar a estudar o bicho mais a fundo, livro de receitas para preparar o lionfish pra comer, onde denunciar avistamentos…ou seja, tudo que se precisa.  Se você não lê em inglês, não fique triste, ainda dá pra aproveitar algo, pois já na página inicial você poderá contemplar um mapa/gráfico que mostra a evolução da invasão de 1985 a 2014, o que mostra a chegada do bicho em águas vizinhas às brasileiras, na Venezuela. É assustadora a velocidade!

 

Os estudos feitos por essas pessoas e entidades visam descobrir detalhes dos hábitos do peixe-leão, como e quanto ele se reproduz, para tentar encontrar suas fraquezas e refrear sua invasão e explosão populacional. Imagens da National Geographic sobre essa invasão são surpreendentes e desalentadoras; há um vídeo que mostra um pesquisador da Flórida fazendo coletas manuais num “mar” de centenas de indivíduos.

 

No combate a essa invasão, somam-se iniciativas governamentais que envolvem ensinar mergulhadores a arpoar peixes-leão em segurança, retirar restrições de limite de captura para essa espécie (pode capturar à vontade!) e rolou até um Dia da Consciência e Remoção do Peixe-Leão…para encorajar as pessoas a removê-lo pelo menos duas vezes ao ano. Detalhe: já é sabido que a coleta manual não é suficiente para acabar com o problema!

 

 

A “tilápia” marinha

 

Tal magnitude de esforços se dá porque a situação saiu do controle, especialmente nos últimos 15 anos, gerando consideráveis impactos negativos na região afetada. Como é possível um peixe tão lindo causar um dano assim? Não deixem seus olhos iludirem você! Temos um Chuck Norris a caminho!

 

Quantos peixes são capazes de predar outro ser que é rodeado de espinhos venenosos? Quem come um peixe venenoso e sobrevive? Poucos, certamente. E num ambiente novo, que não evoluiu junto com o invasor? Menos ainda. Os espinhos venenosos do peixe-leão estão localizados tanto na dadeira dorsal, quanto na pélvica e na anal. Na dúvida sobre qual o nome da nadadeira: não toque! Pra falar a verdade, não toque! O veneno que este peixe possui é uma combinação de proteína, toxina neuromuscular e um neurotransmissor (acetilcolina). Diz-se que a dor aguda causada por uma “ferroada” do peixe-leão perdura por dias a fio, causando vermelhidão na área de contato, sudorese, problemas respiratórios, calafrios, cãibras, náuseas e até mesmo paralisia e convulsões. No caso de acidente, procure ajuda médica imediatamente!

 

Lendo-se apenas isto já amedronta. Possivelmente se este fosse o único contraponto ou desafio que o peixe-leão apresentasse, muito provavelmente ele não seria o invasor que é.

 

Não obstante a esse importante detalhe, o peixe é voraz, um predador ativo que se alimenta de uma vasta gama de itens alimentares, de crustáceos a peixes – dentre estes, filhotes de garoupa e lagosta, que representam um importante recurso para a pesca esportiva e comercial, assim como peixes de recife, pequenos gobies (família Gobiidae) e labros (família Labridae). É relatado que um único peixe-leão que venha a residir num recife de coral pode reduzir o recrutamento (número de indivíduos que atinge certo tamanho e volta a compor o estoque natural) em até 79%. O que faz gelar os ossos é que estamos falando de centenas de milhares invasores.

 

São tão vorazes que, atualmente, está sendo detectado o canibalismo. Isso não é bom? Se considerar que cada peixe-leão a menos é uma coisa boa, então, isso seria um lado positivo. Todavia, as hipóteses dos pesquisadores vão para outro lado: é possível que o comportamento estranho do peixe-leão esteja surgindo devido à depleção dos recursos naturais, ou em outras palavras, já não há mais o que comer.

 

E como eles se espalham? Se você acompanha as notícias na TV poderá se lembrar de que sempre há, na região do Caribe e Golfo do México, furacões…certo? Então, isto mais as fortes correntes marítimas são os principais vetores de dispersão do lionfish. Aí que tem aquário marinho  pensa: se ele muda da condição de água A para a B, deve sofrer um bocado com salinidade, teores de cálcio  e variação de pH , sendo que a maioria deve morrer. Pensamento ok, mas acontece que nosso protagonista aqui tolera, inclusive, água salobra, o que põe em risco não só os recifes de coral, mas também os mangues e estuários. Além disso, o peixe anda contradizendo os limites de profundidade aos quais se acreditava que ele não superava: hoje já encontrado abaixo dos 30m.

 

Além de não ter predador, ser bom de boca e aguentar diversas condições de água…o que mais ele precisaria para se tornar um excelente invasor? Ter um cartão de crédito aceito em todos os países! Não. Reproduzir como um coelho…melhor até: seu potencial é produzir até 30 mil ovos a cada 4 dias! Com essa disponibilidade toda não há como as fêmeas não terem seus ovos fertilizados por um macho que esteja de passagem.

 

 

Ladeira abaixo…

 

A preocupação dos danos que este peixe causa e virá a causar é crescente. Lembro, no entanto, que a culpa não é só dele ou de aquaristas que resolveram soltar os seus lionfishes no mar. Os recifes de corais, que hoje enfrentam o problema, precisam lutar também, ao mesmo tempo, contra as mudanças climáticas, a poluição, pesca predatória e tantas outras condições de estresse. Como pode a resiliência de um habitat funcionar assim? Quem lembrar do exemplo da Perca do Nilo no lago Victoria, perceberá que quando o ambiente não está saudável fica mais fácil de uma espécie invasora prevalecer.

 

Soltar peixes do aquário no mar, como visto, pode resultar numa catástrofe ambiental. É como se fosse acender um fósforo e lançá-lo no tanque de combustível…na analogia, o fósforo seria o organismo exótico e o tanque, o ambiente (degradado e com todas as condições propícias para a invasão). Mesmo que ainda não acusadas por algum relatório oficial, é bom sempre ter em mente que as espécies exóticas não devem ser liberadas no meio ambiente, sejam elas de planta ou de bicho. O apoio que o ambiente necessita precisa vir de todos os lados, inclusive do nosso, o de aquarista responsável.

 

Ser pró-ambiente não significa somente torcer para que as autoridades deem conta do recado, com criação de novas normas, efetividade da fiscalização e aplicação de multas. “Responsabilidade” é também colocar-se no contexto, fazer sua parte. Sim aos lionfishes nos aquários! Não aos lionfishes nos nossos mares!

 

Agradeço pela leitura e até o próximo!

Sobre o Autor

João Luís (Johnny Bravo) é brasiliense, daqueles que não se conformou só com o lago Paranoá e foi estudar Oceanologia pela FURG/RS, ingressou no mundo do aquarismo como palestrante e autor de textos há 10 anos, onde cambou para o lado dos Ciclídeos Africanos. Articulista das melhores revistas do ramo, escreveu matérias de capa para a Revista AquaMagazine e Aqualon. Nascido em 1975, é aquarista há 40 anos, pois da água veio e nela gosta de estar. E, hoje integra o time de escritores especializados do Grupo Sarlo.