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Introdução do autor:

João Luís é oceanólogo, escritor, entusiasta e aquarista desde sempre.

Grupo Sarlo – 10 de Novembro de 2016

 

 

Aquarismo Responsável

Parte I: espécies exóticas invasoras de água doce.

 

 

Aquecimento global, poluição do ar, das águas, do solo, desmatamento…são muitos os assuntos que nos remetem (como cidadãos) à consciência ambiental, não importando onde estejamos incluídos, em qualquer ocupação ou emprego. Meio ambiente desequilibrado reflete na vida humana em desequilíbrio; meio ambiente em risco, também põe em risco a vida humana. Não estamos desligados desse contato, ou de seus reflexos, por estarmos vivendo em nossas casas e apartamentos. Assim, como aquaristas, não estamos eximidos de nosso papel ambiental. Por que esse pensamento?

 

Você destina corretamente as lâmpadas do aquário quando elas já não têm mais serventia? As baterias usadas em seus aparelhos, para onde vão? E os potes de ração, lãs de filtro, podas de plantas, substrato do aquário? E sobre as espécies de peixe utilizadas, quando você decidiu não mais tê-las por alguma razão, qual o destino dado a elas? Se para todas as perguntas você possui respostas que têm como intuito preservar o meio ambiente, então, você está no caminho do Aquarismo Responsável – um termo que considero mais próximo das pessoas do que “Sustentável”, pelo simples fato de atribuir a responsabilidade a alguém que tem autoridade sobre a atividade que conduz; de dar às pessoas a capacidade de se enxergar no contexto tratado. Se você ainda nunca pensou nisso, como sugestão, diria que seria interessante enveredar por esse caminho de reflexão, uma vez que nosso hobby, se malconduzido, pode contribuir para gerar impactos nada inocentes ao meio ambiente.

 

Aos que manjam um pouquinho de Direito, aos curiosos e também aos que nada sabem, lembro do famoso artigo 225 da Constituição Federal, que nos traz a noção de que o meio ambiente equilibrado é “essencial à sadia qualidade de vida”, e também nos dá o dever de cuidar dele. Pensando no nosso papel de aquarista, no âmbito da proteção ambiental, comecei a pensar este artigo.

 

 

Impactos

 

O nascimento da ideia para esta série de artigos adveio quando bati os olhos numa publicação de 2016 do Ministério do Meio Ambiente – MMA: o livro “Espécies Exóticas Invasoras de Águas Continentais no Brasil”; na capa ilustrada, vi peixes que sempre tive em meus aquários, o que me fez dar atenção ao trabalho.

 

Já na introdução do livro está dito que a segunda maior causa de perda de biodiversidade em todo o mundo – Brasil, inclusive – se deve à invasão de espécies exóticas nos ecossistemas. Para entender o termo “exótico”, tire da cabeça a ideia de “excêntrico, extravagante e seus sinônimos” e pense em “estrangeiro, exógeno, alienígena”. A isso, inclua ainda a capacidade de se estabelecer e reproduzir com extrema habilidade, prejudicando as espécies nativas e produzindo impactos negativos ao ambiente natural.

 

Não necessariamente o impacto advém diretamente sobre as espécies nativas, em muitos casos ele pode advir de forma indireta. Qual a diferença? Imagine um bagre, originário de algum rio de outro continente, inserido em rios brasileiros. Sabemos que ele é corpulento, brigão, forte e piscívoro. Quando colocado noutro ecossistema, onde os nativos não estão acostumados a tal comportamento, ao ver um peixe menor “dando sopa”, provavelmente ele não terá dificuldades em comê-lo. Predação seria um impacto direto do invasor sobre o sistema invadido, neste caso, sobre as espécies nativas.

 

Por outro lado, imagine peixinhos dóceis que se reproduzem rapidamente, com fases de maturação dos reprodutores bem precoces: milhares de alevinos e juvenis no rio ou lago brasileiro procurando por comida; eles começam a consumir a comida outrora destinada às espécies nativas. Essa competição pelo mesmo recurso alimentar é uma forma de impacto indireto sobre as comunidades nativas, sendo que vencerá a mais apta.

 

Ocorre que os ecossistemas, ao longo dos milhares anos de evolução, chegaram a um ponto de estabelecer os grandes e micropredadores, os forrageadores, os herbívoros e tantos outras coisas mais. Quando uma espécie estrangeira chega, ela não traz consigo o “pacote ecossistêmico nativo” junto com ela, ou seja, os dispositivos ecológicos que controlavam seus hábitos e comportamento no ambiente natural, ficaram lá em seu berço de origem. Caso ela seja uma espécie cuja genética e predisposição sejam aptas a sobrepor características dos novos ecossistemas, temos aí um potencial risco de invasão; tilápias africanas estão entre os melhores exemplos de colonização de novos ambientes.

 

É certo reconhecer que nem todas as espécies estrangeiras sobrevivem no novo ambiente. Dentre os motivos, destaca-se a resiliência do local, que é a capacidade do ambiente em reagir e readquirir sua “forma” original após o impacto. Um exemplo interessante é a comparação da inserção da Perca do Nilo (Lates niloticus) nos lagos Victoria e Tanganyika, lagos africanos vizinhos. No primeiro, um corpo d’água largamente antropizado (= forte impacto da civilização humana), a perca castigou a diversidade, enquanto que no segundo, a disseminação do invasor não se firmou. O Tanganyika, menos impactado pelo homem, tem seus nichos tão bem ocupados e estáveis, que não sobra muito espaço para quem vem sem “visto de permanência”.

 

Assim, cabe aqui amenizar o fato de que a introdução de um peixe de aquário, por si só, num lago ou rio não seria o único e exclusivo motivo de uma invasão propriamente dita. Além disso, ainda destaco que nem sempre as introduções de peixes ornamentais são intencionais ou provocadas por aquaristas. Uma enchente que cobre um tanque de cultivo caracteriza uma introdução não intencional; um programa de governo para controle de pragas (ex: larvas de mosquito) é intencional, mas não promovida por aquaristas. Em resumo, um peixe ornamental no meio ambiente, a princípio, não incrimina nenhum de nós.

 

 

Espécies Invasoras

 

Antes de mais nada, não é fácil dizer com certeza se uma espécie ornamental está acarretando (ou não) risco ao ambiente. Isso porque a maioria dos estudos feitos no Brasil são voltados para outras áreas e não sobre as espécies ornamentais. Dessa forma, neste artigo, abarcaremos apenas espécies comuns de aquário, que resolvi pinçar da publicação do MMA, para termos ideia do que está presente em nosso meio ambiente. Destaquei apenas aquelas advindas originalmente de outros países, e que hoje podem refletir potencial ou real impacto sobre os ecossistemas aos quais estão inseridas.

Lembro que o fato de não ter estudos apontando os danos ao meio ambiente, não descredencia as espécies de assumirem um papel danoso aos ecossistemas. Assim, eu dividiria as espécies que destaquei de duas formas: as que têm currículo (em outros países) e as que ainda estão construindo um.

 

Para as espécies veteranas eu começaria destacando um velho conhecido nosso: o japonês ou kinguio (Carassius auratus), que sozinho reúne potenciais como predar peixes nativos, seus ovos e larvas, assim como atingir a biomassa de algas. Além disso, são conhecidos como sujões, podendo propiciar blooms de algas. Quem tem, por vezes, precisa adicionar aqueles buffers para controlar níveis de amônia e pH, porém, no ambiente não tem isso.

 

Ainda no hall dos famosos, destacaria personagens inseridos no ambiente para controle de pragas, via programas governamentais, os quais gostaram tanto que resolveram ficar:molinésias(Poecilia sphenops, P. velifera. e P. latipina), para as quais existem suspeitas (evidências não atestadas cientificamente) de que possam impactar negativamente a diversidade de espécies com o incremento populacional, a exemplo do que faz sua congênere Poecilia reticulata (guppy), esta sim com relatos de ocupação de nicho. Betta splendens, aquele peixinho que se costuma colocar numa solitária, que tratamos o melhor que podemos, com comida de primeira e condicionadores de água, possui registros de excelente predador de invertebrados (especialmente fêmeas). Este peixe e outros, como o plati (Xiphophorus maculatuse X. variatus) e o espada (X. hellerii), têm apontamentos fora do Brasil sobre perda de diversidade e diminuição de invertebrados, tamanho é seu apetite.

 

Dentre os calouros, elenquei espécies muito comuns em nossos aquários, todavia, sem estudos apontando impactos no Brasil: Amatitlania nigrofasciata (convict, prisioneiro ou acará do Congo) e Pelvicachromis pulcher (Kribensis), representando os ciclídeos que dispensaram nossos minuciosos cuidados com a água; Colisa e Tricogaster (Trichogaster lalius, T. chuna, T. pectoralis, T. trichopterus, T. leerii), Beijador (Helostoma temminkii), Peixe-do-Paraíso (Macropodus opercularis), Barbo Conchônio (Puntius conchonius), Barbo Rubi (P. nigrofasciatus), Bardo Dourado (P. sachsii), Barbo Sumatra (P. tetrazona), Barbo Cereja (P. titteya), Paulistinha (Danio rerio), Tanictis (Tanichthys albonubes) e Dojô (Misgurnus anguillicaudatus). Quantas espécies não? Certamente um destes já passou por um de nossos aquários comunitários, o qual penávamos para manter um pH adequado para englobar mais de uma espécie. Hoje em dia pode ser que estejam com planos de ampliar seus horizontes pelo Brasil a fora.

 

Cabe ainda mencionar que as introduções não se restringem aos peixes. O gastrópode Melanoides tuberculatus, comum nos aquários, tem na aquariofilia o principal meio de disseminação (não intencional), pois os ovos, juvenis e adultos podem ter sido lançados no ambiente juntamente com o substrato dispensado. Os impactos observados a este organismo se referem à diminuição das populações de outros gastrópodes, como Biompkalaria glabrata e Pomacea lineata. E as plantas? Sim elas estão invadindo. A rabo-de-raposa ou pinheirinho (Ceratophyllum demersum) e elódea (Egeria densa, E. najas), estão registradas e atuam na perda de biodiversidade, pela excelente capacidade competitiva que afeta outras plantas submersas e pela anoxia noturna, matando peixes e outros organismos.

 

 

Soluções

 

Para não parecer ruim, prevalecendo uma imagem cinza ou duvidosa sobre o hobby, de cara já podemos perceber que os problemas elencados, no que se refere à introdução de espécies exóticas em nossos ecossistemas, são fáceis de se resolver. Fáceis? Em parte, sim, uma vez que está conosco a responsabilidade de decidir fazer o certo, quando, por exemplo, um peixe passa pelas nossas mãos.

 

Boa parte dos peixes de aquário, por si só, não são (necessariamente) um risco ao meio ambiente. Vimos que há um conjunto de fatores que contribuem para o sucesso de uma invasão, sendo que as diversas contribuições humanas, somadas, facilitam tais processos negativos. Pensando por este caminho, podemos ter conosco que “se eu não soltar este peixe na natureza, não haverá risco de eu contribuir com a invasão de ambientes aquáticos” – pensamento simplório, mas de valor efetivo.

 

Hoje dispomos de tecnologia que nos interliga – fóruns, facilidade de contato, informação – e isso nos embasa e empodera para tomar decisões melhores. Se por algum motivo “eu não quero mais este peixe”: a) posso conversar com o lojista que me vendeu para ver se ele recebe de volta o exemplar; b) posso entrar num fórum de aquarismo e oferecer o peixe para que alguém venha pegá-lo; c) posso ler mais sobre a espécie e, quem sabe, passar a gostar dela depois de ter descoberto coisas legais. São muitas opções; as únicas que não valem são a que causariam sofrimento ao animal ou a soltura em ambiente natural.

 

Eu cresci como aquarista num meio de pessoas que não tratam o peixe como um objeto de adorno, mas sim um animal de estimação. Gente que fica triste quando o peixe morre ou adoece, que quase entra em depressão quando o aquário desanda, ou seja, pessoas que se importam, que se sentem responsáveis pelo bem-estar do aquário. São coisas dessa natureza que tento repassar a frente…e é bom saber que no hobby temos cada vez mais gente assim.

 

Como costumo frisar nos meus artigos, o aquarismo é um hobby multifacetado, onde temos a oportunidade de aprender biologia, ecologia, matemática, química e outras matérias, de forma prazerosa. É um espaço em que trazemos a natureza para dentro de casa, para aprender com ela, respeitá-la. Desejo ainda ver filhos e netos (bisnetos etc.) terem a oportunidade de desfrutar da natureza íntegra, saudável, como preconiza a Constituição. Se eu puder contribuir para esse “projeto”, farei!

 

I have a dream! Obrigado por terem lido mais este artigo, até o próximo!

Sobre o Autor

João Luís (Johnny Bravo) é brasiliense, daqueles que não se conformou só com o lago Paranoá e foi estudar Oceanologia pela FURG/RS, ingressou no mundo do aquarismo como palestrante e autor de textos há 10 anos, onde cambou para o lado dos Ciclídeos Africanos. Articulista das melhores revistas do ramo, escreveu matérias de capa para a Revista AquaMagazine e Aqualon. Nascido em 1975, é aquarista há 40 anos, pois da água veio e nela gosta de estar. E, hoje integra o time de escritores especializados do Grupo Sarlo.