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Introdução do autor:

João Luís é oceanólogo, escritor, entusiasta e aquarista desde sempre.

Grupo Sarlo – Novembro de 2017

 

A ideia do artigo se deu em virtude de uma confusão na qual, por vezes, ouve-se que botias e synos (derivado de Synodontis) são consideradas tipos de coridoras ou cascudos. As pessoas veem um peixinho gordinho no fundo do aquário, fuçando o substrato, e já associam…mas neste caso não são a mesma coisa. Os synos até são aparentados com o gênero Corydoras e os cascudos, pois todos descendem da ordem dos Siluriformes (peixes-gato), porém, as botias são Cypriniformes…que é a ordem das carpas. Vamos organizar essa bagunça…

Botias

Lembra dos dojôs? Aquelas “minhocas” que falamos noutro artigo? Então, ele tem primos e eles não se parecem nada nada com eles. Na família Cobitidae estão inclusas também as botias, sendo que a mais conhecida e admirada é, sem dúvida, a Botia-Palhaço (Chromobotia macracanthus).

De forma geral as botias são peixes extremamente sociáveis, ou seja, têm enorme prazer em compartilhar o espaço do aquário com indivíduos de sua espécie (a partir de 4 exemplares) ou, ao menos, de gênero taxonômico similar. É dito, inclusive, que quando mantidos isolados de outros congêneres, as botias podem se tornar agressivas com os demais peixes – veremos um pouquinho sobre isso mais à frente.

Antes que me crucifiquem é bom alertar que no início dos anos 2000, começaram a surgir textos científicos questionando a existência da subfamília Botiinae (onde estão as Botias) dentro da família Cobitidae, reclassificando-a como uma família propriamente dita (Botiidae), de acordo com análises genéticas. Em 2009, no Journal of Fish Biology de número 75, Chen et al. validou a família num artigo e isso tem sido levando em consideração. Todavia, como sempre opto pelo mais tradicional e seguro, preferi ficar com a referência da Fishbase.org para este artigo, ou seja, Família Cobitidae, subfamília Botiinae.

Independentemente de como sejam classificadas, botias são grandes aquisições para os aquários. Para elas basta haver vegetação, abundância de rochas que formem cavernas (com pelo menos 2 esconderijos por indivíduo) e substrato macio (grânulos com arestas abastadas, tipo areia de filtro de piscina) para não machucar os barbilhões táteis.

Quanto aos peixes que vemos nas lojas, sem querer esgotar aqui a totalidade de diferentes táxons, existem sete principais gêneros de botias: Botia, Yasuhikotakia, Ambastaia, Chromobotia, Syncrossus, Leptobotia e Sinibotia. Dentre eles resolvi destacar espécies com as quais nossos olhos estão mais acostumados…vamos ver quem são essas maravilhas!

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Chromobotia macracanthus (Botia-Palhaço)

Trata-se da mais conhecida dentre as botias. Embora os padrões de coloração possam ter variações consideráveis, o comum é a presença de três faixas escuras verticais, sobre um corpo amarelo-alaranjado. Especialmente quando jovem, é um peixe belíssimo de se ver, porém, um dos “males” desta espécie é o tamanho que atinge: 20 cm em média. Há que se registrar que são relatados peixes de 35-40 cm na natureza.

Não é raro encontrá-la em aquários de Ciclídeos Africanos, pois o range de pH que vivem varia entre 5,0 e 8,0, assim como dureza em torno dos 20, além das características gerais que já adiantei para as botias (rochas). Não é que eu desaconselhe o peixe para CAs, mas sou dos “biótopos” e sei que existem peixes mais adequados para ocupar este nicho. Estas botias são de Sumatra e Bornéu, sendo que seu habitat natural possui água cor de chá, colorida pela vegetação ao redor; são típicas de um ambiente cujas variações “seca-cheia” são acentuadas, nem sempre permanecendo em água alcalina e dura (pelo contrário). Em termos de temperatura, ficam numa variação entre 25 e 30°C, o que indica a necessidade de aquecedor no aquário.

Ambastaia sidthimunki (Botia-Anã)

Esta aqui cobre justamente a desvantagem que a sua antecessora possui: o tamanho. Minúscula para uma botia, a Botia-Anã alcança apenas 5,5 cm. Na minha “modesta” (trocadilhos à caminho) opinião não está entre as mais bonitas, parecendo-se com a “mocinha” (Characidium fasciatum, um caracídeo brasileiro)…mas é só o que eu acho sobre um aspecto de “primeira impressão”.

Ela advém da bacia do rio Mekong, entre os países Tailândia, Laos, Mianmar e Camboja, conferindo-lhe uma gama imensa de parâmetros de água: pH de 6,0 a 8,0, dureza de 5 a 20 e temperatura mais estável de 26 e 28°C. São ultra-pacíficas, ainda assim peixes de longas nadadeiras não são os colegas ideais para este aquário; são bem ativas durante o dia e gostam de cardumes maiores (10 indivíduos é o recomendado).

Botia striata (Botia-Zebra)

Três botias até agora e três diferentes localidades. A Botia-Zebra vem da Índia, e mesmo sendo extensa a área de distribuição, o pH fica entre 6,0 e 8,0, água mole e temperatura de 23 a 26°C. Parece-me bem apropriada a utilização de regulador de pH para espécies como esta, onde há layout de rio no aquário (troncos, folhas e vegetação, que quando se decompõe baixa o pH) e ela pede condições próximas ao neutro.

Além de possuir um padrão de cor exclusivo, esta botia não passa dos 9 cm de comprimento, o que a torna atraente para boa parte dos aquários. As recomendações sobre mistura de peixes e layout do aquário é a soma do que foi dito para as duas anteriores, inclusive no número maior de peixes no grupo.

Yasuhikotakia modesta (Botia de Cauda Vermelha)

“Modesta” nada, esta amiguinha aqui encabeça um grupo conhecido como “complexo modesta” que contrapõe aquilo que eu havia dito sobre as botias serem “sociáveis”. Há relatos da territorialidade dos peixes sob o gênero Yasuhikotakia, o qual devido ao fato de eu não conseguir pronunciar, preferi dar o codinome de “Nervosinha”. Assim, saiba que, caso você adquiria um das botias nervosinhas, elas não são recomendadas para misturas com peixes de nadadeiras longas e nado lento. Sei que já foi feito um alerta sobre isso com espécies consideradas mais “gente boa”, mas aqui o risco é maior…tanto é que sequer se recomenda mistura com os gêneros Botia ou Ambastaia.

Dentro dessa competição ininterrupta entre as botias de cauda vermelha foi evidenciada uma característica interessante: o grupo modesta faz estalidos audíveis, por meio de dentes faringianos, quando estão disputando algo, especialmente comida. Os estudiosos entendem isso como uma forma de comunicação para expressar dominância, evitando que os peixes se engalfinhem em brigas, economizando energia e evitando fatalidades advindas de ferimentos de luta. Distribuem-se por vários países asiáticos (Tailândia, Laos, Vietnã e Camboja), de acordo com variações sazonais, onde realizam migrações para reproduzir “rio acima”. A despeito disso os parâmetros mantêm-se similares ao que vimos até aqui: pH entre 6,0 e 8,0, água mole e temperatura entre 26 e 30°C, sendo que esta espécie possui a mesma “desvantagem” da Botia-Palhaço: o tamanho (cerca de 25 cm).

As nervosinhas são, em sua maioria, mais noturnas que as demais botias, escondendo-se durante o dia.

Acabou? Não, tem os synos ainda…deixa eu correr…

Synos (gênero Synodontis)

Quanto aos synos, já aos 45 do segundo tempo, nem que eu quisesse daria pra falar de forma completa, pois são várias dezenas de espécies dentro do gênero Synodontis. De qualquer forma, o objetivo aqui é mesmo mostrar que existem “peixes-gato” próprios para aquários de águas duras e alcalinas… É por isso que eu estava tentando dizer que existem “peixes de fundo” mais apropriados para aquários de Ciclídeos Africanos do que as botias, onde você pode usar sem dó os sais próprios para CAs que você comprou (claro, na dosagem recomendada pelo fabricante).

Assim como os cascudos (Loricariidae) e coridoras (Callichthyidae) têm suas respectivas famílias, os synos também a têm: Mochokidae. De forma geral, eles não são como tais parentes, com suas boquinhas delicadas, uma vez que os Synodontis têm bocas largas, dando-lhes a chance de manter um amplo espectro alimentar; comem crustáceos, insetos, anelídeos, peixes…o que carrega consigo a recomendação de não o misturar com peixes que caibam em sua boca.

Imagino que alguns já saibam, mas não custa registrar: estes peixes são também conhecidos como “peixe-gato invertido”…Não, não é “divertido”, nem eu escrevi errado. Não são todos, apenas algumas espécies e elas têm esse nome porque curtem nadar de cabeça pra baixo, ver a vida em outra perspectiva, entende? Além desta peculiaridade, saiba que, similar ao que fazem as botias de cauda vermelha, os synos emitem barulhos audíveis como o de badalos….mentira, inventei só porque não consigo deixar de fazer trocadilhos (“synos” – “badalos”, sacou? OK…foco). Eles fazem ruídos sim, todavia, parecem com chiados ou rangidos; são expressões de incômodo. Acho particularmente interessante o fato de que famílias tão distintas (Mochokidae e Cobitidae), de ordens diferentes (Siluriformes e Cypriniformes), possuam peixes com maneiras similares de demonstrar desagrados. É a genialidade da natureza!

Vamos conhecer alguns dos synos:

Synodontis petricola (syno anão)

Aqui está, possivelmente, o mais pacífico dos synos…e não só isso, o S. petricola é também um dos menores (uns 12cm). Ele é mais do que indicado para aquários de CAs do Tanganyika, pois literalmente divide o habitat natural com tais peixes…ele é endêmico daquele lago. Mas não se engane com este rostinho bonito! Atrás da pacificidade deste peixe encontra-se um comportamento rotulado como “parasitismo reprodutivo”.

Tal como o pássaro chamado Cuco, que põe seus ovos no ninho de outro pássaro para que os pais adotivos se virem para cuidar do filhote, o S. petricola ajusta sua reprodução com a de ciclídeos que fazem incubação bucal. No frenesi reprodutivo do casal de CAs o syno mistura seus ovos com os de ciclídeo, os quais são capturados pela zelosa mamãe CA. Os ovos do syno eclodem antes dos de CAs e os alevinos invasores passam a devorar seus “irmãos de boca”.

Existe outra espécie, endêmica do Tangayika, que também tem esse jeito Cuco de ser: S. multipunctatus.

“E para os outros lagos gigantes do Rift Africano?” Também existem. Quiseram os deuses dos CAs que os demais lagos também possuíssem synos próprios. No Malawi temos o S. njassae (nome dado em homenagem ao lago Niassa ou Malawi), que pode chegar a 19cm, e para o Victoria…adivinha? S. victoriae…o detalhe é que este, embora receba a homenagem no nome, ocorre em outros lagos nas vizinhanças; ele só vem em tamanho XG (35cm).

Das espécies que nadam de cabeça para baixo…sim, porque nenhuma destas é relatada com tal comportamento…são destacados o S. contractus e S. nigriventris – ambas não são dos lagos alcalinos, habitando águas mais próximas do pH neutro e moles; chegam, respectivamente a uns 8 cm e 10 cm.

Como você pode ver há um Synodontis pra cada tipo de aquário.

Bem, você já deve estar olhando o relógio e o texto não acaba, né? Pois então, this is the end…chegamos ao fim de mais um artigo que traz o intuito de mostrar o quão vasto e complexo é o universo do aquarismo…Espero que tenha gostado! Vejo você no próximo! Até lá!

Sobre o Autor

João Luís (Johnny Bravo) é brasiliense, daqueles que não se conformou só com o lago Paranoá e foi estudar Oceanologia pela FURG/RS, ingressou no mundo do aquarismo como palestrante e autor de textos há 10 anos, onde cambou para o lado dos Ciclídeos Africanos. Articulista das melhores revistas do ramo, escreveu matérias de capa para a Revista AquaMagazine e Aqualon. Nascido em 1975, é aquarista há 40 anos, pois da água veio e nela gosta de estar. E, hoje integra o time de escritores especializados do Grupo Sarlo.