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Abril de 2018

 

Muitos de nós aquaristas os conhecem, ou mesmo preferem, o nome “plecos” para designar os cascudos; dentre muitos outros nomes, você ainda pode conhecê-lo como bodó ou acari. Por vezes eu os vejo sendo chamados de “catfishes” (do inglês literal peixes-gato, por causa dos “bigodes”, os quais são barbilhões longos), mas eu não sou fã da denominação, uma vez que, para mim, essa categoria informal se encaixa melhor aos bagres, mandis e outros similares. Explico. É fato que tanto os bagres quanto os cascudos pertencem à Ordem Siluriformes e é por isso que todos são englobados na denominação “catfish”, já que este nome é o nome vulgar para a Ordem taxonômica. Como características externas gerais – não necessariamente taxativas – os Siluriformes possuem a parte externa do corpo sem escamas, nua mesmo ou coberta por placas ósseas, e normalmente com até quatro pares de barbilhões na cabeça (os bigodes): um nasal, um maxilar e dois no queixo. Ora…nós, que conhecemos peixes, sabemos que os bagres possuem aqueles longos barbilhões, que podemos fazer analogia aos gatos, mas cascudos e gatos, o que tem a ver? Por terem as bocas voltadas para baixo (posição ventral), servindo como ventosas para os prender em pedras e troncos, muitas vezes temos dificuldade de identificar os barbilhões…aí fica difícil de compará-los com gatos. Pra mim, cascudo é cascudo e pronto! (galera, isso é apenas uma analogia pessoal, pra reflexão e abstração; oficialmente são todos peixes-gato!).

O que mais poderíamos dizer sobre os cascudos? Eles são as versões armaduradas da Ordem, tipo os antigos templários. O pior que não é brincadeira, a família Loricariidae, a qual pertencem os cascudos mais comuns de aquário, são os peixes-gato de armadura. Isso porque, na quase totalidade das espécies da família, ao invés de escamas, os peixes possuem placas ósseas cobrindo o corpo. As escamas comuns, por objetivo primordial, possuem a função de proteção, já as placas ósseas são mais espessas, favorecendo o peixe contra choques mecânicos. Se outros têm armaduras (escamas), os loricarídeos têm as mais fortes (placas ósseas). Esta é a característica que confere o nome ao peixe; eles não têm escamas, têm “casca”, ou seja, os cascudos são os Siluriformes com placas ósseas, nem que sejam só algumas. Observação: devido à palavra “cascudo” ser um nome popular, pode ser que você a ouça para denominar peixes de outras famílias, como Doradidae, Aspredinidae (banjos) ou Callichthyidae.

Cabe a ressalva de que os cascudos possuem tal couraça apenas no dorso. O ventre, sempre em contato com o fundo ou com a superfície ao qual estão grudados, é desprovido de placas ósseas ou escamas. O que nos mostra que a maior função das placas ósseas nesses peixes é proteção física. Também é legal anotar aí, sobre os barbilhões, que eles são estruturas providas de papilas gustativas especializadas na detecção de alimento.

Aproveitando que estamos na hora das ressalvas, queria fazer um adendo sobre a epiderme (a pele). Sabemos que os peixes ósseos (teleósteos) têm, dentre as funções da pele, a capacidade de controlar a entrada e saída de íons pela pele (osmorregulação ou regulação iônica) – não se sabe ao certo o quão significativo pode ser, mas a função está presente. As células mais superficiais são responsáveis pela secreção de muco protetor, capaz de proteger o peixe contra agentes patogênicos e outras agressões, mas também de realizar a troca iônica; o muco é constantemente renovado (o que é ótimo contra infestações biológicas). “Por que o Johnny começou a falar disso, de repente?” Minha intenção com esta passagem é gerar uma reflexão. Muitos aquaristas gostam de introduzir cascudos, de um modo geral, em aquários onde há uso de sais. Ouve-se muito por aí que corydoras e cascudos são sensíveis aos sais, de forma geral…e é por aí que eu queria chamar a reflexão. Peixes de pele nua ou cuja “carapaça” tenha a função primordial de evitar choques mecânicos, tornariam tais peixes mais suscetíveis à presença do sal? Bem, fica aí o pensamento para você amadurecer. Eu sou daqueles que prefere não testar.

Voltando aos peixes da família Loricariidae, nosso objeto aqui, as espécies são encontradas exclusivamente nas Américas, estando divididas em 7 subfamílias: Loricariinae, Ancistrinae, Delturinae, Hypostominae, Hypotopomatinae, Lithogeneinae e Neoplecostominae. Ao todo são 115 gêneros e 936 espécies, segundo o Fishbase.org.

Ao contrário do que muitos dizem os cascudos não necessariamente comem algas, pois isso depende exclusivamente da espécie que falamos. O hábito alimentar da família é amplo, englobando desde vegetais (incluindo raspas de troncos), passando por detritos, até alimento vivo (invertebrados como vermes e microcrustáceos).

Como curiosidades gerais é seguro afirmar que a maior parte das espécies de loricarídeos é noturna. São também detentores de múltiplas formas de reprodução, incluindo desovas em cavidades de rochas ou pedras, ovos adesivos e até indivíduos que carregam ovos – em boa parte dos casos, os machos guardam ovos e crias. Ainda há, dentre os cascudos, aqueles capazes de respirar ar da superfície, uma adaptação relacionada especialmente às espécies cujos ambientes em que vivem passam por períodos de falta de oxigênio na água – espécies do gênero Hypostomus ou Pterygoplichthys costumam possuir esta habilidade. “Como posso ter ideia disso?” Se o peixe provém de corredeiras, por exemplo, é notório que o ambiente dele contenha altos níveis de oxigênio, enquanto que os que vivem em lagos ou córregos de fluxo lento, dispõe de menores quantidades desse gás.

Embora eu tenha dado exemplos ultragenéricos, saber disso nos dá excelentes dicas para montar um aquário que receba bem a espécie escolhida. E por falar em espécie, copiei do artigo de peixes limpadores algumas espécies e trouxe algumas outras, para entrarmos mais no universo dos casquentos…

 

Espécies de Cascudos, que de feios não têm nada

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Cascudo-Zebra (Hypancistrus zebra)

O top dos tops dos cascudos. Gracioso, de pequeno porte (7cm), pacífico e tímido (até demais), deve ser colocado em aquários com espécies que saibam conviver e que sejam menos atiçadas ou competitivas. É um micropredador, não se interessando muito por plantas e algas. Seu ambiente inclui fundo de areia, com rochas e troncos que promovam cavidades para que ele se esconda (é onde também deposita os ovos – o macho é quem cuida dos ovos!); a água deve ser bem oxigenada (o que se consegue com boa movimentação), com temperatura entre 26°-28ºC e pH entre 6,0-7,5. Infelizmente é ameaçado de extinção, tanto pela captura desordenada, quanto pela ameaça de destruição do habitat (rio Xingu, no Brasil) com a construção de hidrelétricas.

Cascudo-Tigre(Peckoltia vittata)

É bom lembrar que existe mais de uma espécie de cascudo sob o nome “tigre”. Este aqui, como é um peixe da bacia Amazônica, significa que a água na qual é encontrado tende a ser mais quente, em torno dos 25ºC; já o pH pode variar de 5,0 a 7,5. Ele tem hábitos “vegetarianos”, podendo atacar algumas plantas de folhas mais tenras (muitos hobbystas oferecem pepino para ver se ele esquece das plantas, porém, nem sempre funciona). A espécie, que tem hábitos noturnos, costuma ser sociável, exceto com peixes da mesma espécie (neste caso costuma se aconselhar a ter um aqua maior, onde cada cascudo possa ter sua caverna). Aqui também é o macho que geralmente cuida dos ovos.

Cascudo Panaque (Panaque nigrolineatus)

Este cascudo é maravilhoso, mas fica imenso: 43cm. Também pertencente à bacia Amazônica, aceita um pH entre 6,5 e 7,5 e temperatura ao redor dos 25°C. O comportamento e as preferências alimentares são parecidas com a do Tigre, citado anteriormente, porém, há citações de que sejam capazes de digerir madeira, o que justifica seu reconhecido hábito de “roer” troncos submersos.

Violinha (Rineloricaria eigenmanni)

É um peixe delicado, oriundo da Colômbia e Venezuela (água quentinha: 25 a 29ºC), costumeiramente encontrado em ambiente de fluxo de água lento , de fundo arenoso e coberto de vegetação morta (folhas e troncos), embora a água não seja pigmentada com tanino (água marrom) e tenha um ideal de pH entre 6,0 e 7,4. A Violinha é dos mais pacíficos loricarídeos que você pode encontrar. Fica parado a maior parte do tempo, preferindo locais onde possa se esconder, como troncos e folhas. Não ficam grandes (tamanho em torno de 10cm), são omnívoros e, em aquários comunitários, se dão bem com caracídeos, apistos, corydoras e outros peixes que não sejam agressivos ou ativos demais a ponto de perturbá-las. Gostam de viver em pequenos cardumes.

 

Banjo ou Guitarrita (Bunocephalus coracoideus)

Não é à toa que pareça uma folha morta, o ambiente no qual vive é composto de grande quantidade de “entulho vegetal”. Não é um loricarídeo, pertence à família Aspredinidae, nem tem “boca de ventosa”, mas por vezes é chamado de cascudo (não por mim) e por isso foi incluído no bojo da discussão. É um peixe da bacia Amazônica (Bolívia, Peru e Brasil) que, embora se assemelhe em quase todos os aspectos (ambientação, parâmetros de água, temperamento e tamanho) com a Violinha, o Banjo é outro instrumento musical, digo, outro peixe no quesito alimentar, uma vez que aquaristas reclamam da dificuldade de fazê-lo comer.

Aquários para Cascudos

Eu já tive a vontade de montar um aquário apenas de cascudos, com espécies de corredeira. Para isso imaginei dispor de um aquário grande, longo e raso, com seixos arredondados e pedras maiores, mesclados a troncos, dispostos numa posição inclinada da esquerda para direita (ou ao contrário). Do lado mais alto da pilha de pedras, eu ocultaria duas ou três bombas fortes (ligadas a filtros com perlon), que lançariam os jatos contra as pedras, promovendo um turbilhão nessa região. As pedras quebrariam a força maior da correnteza e deixariam o ambiente bem aerado. Nunca executei a ideia, mas é o que eu idealizo para um aquário de corredeira, contendo apenas cascudos.

E você já pensou algo assim? Não saberia nem por onde começar para planejar um aquário de cascudos? Bem, uma vez que vimos o que cada um deles requer um tipo de aquário acho que o primeiro passo seria reunir espécies que compartilhem aspectos comuns, desde comportamento até parâmetros de água. Todavia, alguns pontos devem ser avaliados previamente antes de colocar um cascudo no aquário:

  • Evitar aquários plantados: mesmo que a espécie não seja comedora de plantas, muitos são brutos e desajeitados, podendo desplantar aquilo que você fixou com tanta dificuldade;
  • Rochas e troncos: fundamentais para que possam “dar uns beijinhos” de vez em quando;
  • Cavernas e ambientes sombreados: vimos que muitas vezes são noturnos e tímidos, assim, criar zonas de refúgio é fundamental para cascudos.

 

…e é por aí que começamos a pensar sobre cascudos…parecem feios, mas são lindos, parecem sem graça, mas são cheios de mistérios e maravilhas. Espero que, se você não os curtia, passe pelo menos a se simpatizar com eles.

Agradeço muito a leitura! Aguardo você no próximo

Sobre o Autor

João Luís (Johnny Bravo) é brasiliense, daqueles que não se conformou só com o lago Paranoá e foi estudar Oceanologia pela FURG/RS, ingressou no mundo do aquarismo como palestrante e autor de textos há 10 anos, onde cambou para o lado dos Ciclídeos Africanos. Articulista das melhores revistas do ramo, escreveu matérias de capa para a Revista AquaMagazine e Aqualon. Nascido em 1975, é aquarista há 40 anos, pois da água veio e nela gosta de estar. E, hoje integra o time de escritores especializados do Grupo Sarlo.