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Introdução do autor:

João Luís é oceanólogo, escritor, entusiasta e aquarista desde sempre.

Grupo Sarlo – Outubro de 2017

 

Certamente eu tenho um pezinho na África, pois sempre quando dá eu adentro as águas daquele continente…mas não é à toa, pois em tais incursões sempre há descobertas e maravilhamento, coisas que não me canso. Desta vez, porém, iremos para o Oeste, onde estão espécies fantásticas de ciclídeos que nadam em grandes rios africanos. Este artigo é para você que pensava que todas as cores e graça dos CAs estavam vinculadas aos lagos do Rift (Malawi, Tanganyika, Victoria…lembra?), ou para você que ainda não ousou explorar os peixes africanos, ou para você que já os conhece até bem demais…tipo assim, é pra todo mundo!

A África, como sabemos, é um continente magnífico, repleto de beleza e diversidade. Infelizmente o preço da beleza é posto pela cobiça e pela vaidade humana, que dizima elefantes e rinocerontes pelos chifres, derruba os reis pela caça esportiva, devasta florestas pela madeira, assoreia rios e lagos por inúmeros fatores antrópicos…e ainda assim a beleza resiste! E é sobre esta beleza que falarei, mais especificamente sobre aquela que reside mergulhada na água que corre e alimenta o continente.

Tendo como referência geográfica os lagos do Rift, podemos mapear rios africanos imensos, como o Zambeze, ao sul, o Nilo, ao norte, o Congo, a oeste, e o Níger, no extremo oeste. São das bacias destes rios que provêm boa parte dos peixes conhecidos no hobby. O que será que temos no Oeste do vasto continente africano? Veremos uns vislumbres em breve, no entanto, antes de revelar quem são nossos tesouros submersos, vamos ver como seria um aquário buscando caracterizar seu ambiente…

 

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Diferente daquilo que foi dito sobre os habitantes dos lagos do Rift, o ambiente para os peixes deste artigo tende para aquilo que temos em muitos rios brasileiros: águas tropicais, por vezes pigmentadas por material vegetal, corredeira ou remansos, pedras, troncos e plantas. Possivelmente até mesmo um olho já acostumado, poderia se confundir ao ver de relance um layout amazônico e um africano lado a lado. Isso implica em dizer que, dependendo das condições ideias para a espécie escolhida, você terá que condicionar a água para os parâmetros desejados, como por exemplo, deixá-la mais ácida ou inserir elementos minerais para caracterizar um ambiente, sem salgá-lo. O mesmo valerá para o caso do aquário ter plantas, pois é comum ciclídeos escavarem o solo e a escolha da vegetação precisar ser de plantas flutuantes ou daquelas que crescem sobre superfícies; num caso destes pode vir a ser necessário uma ácida ou inserir nutrição diluída na água.

Passou pela sua cabeça montar um aquário de CAs de rio exclusivamente africano? Incluindo as plantas? “Lá vem o Johnny querendo dificultar…como conseguirei plantas aquáticas africanas?” Calma…você já deve ter tido, tem ou sabe onde encontrar. Gosta das Anubias spp. que crescem sobre os troncos? Então, A. barteri “Coffeefolia” e suas variações (nana, barteri ou glabra), A. lanceolata e tantas outras, são africanas. Para acompanhar as Anubias no tronco, porque não umas Bolbitis heudelotii? Na superfície do aquário, poderiam vir samambaias d’água (Ceratopteris cornuta e C. thalictroides), e crescendo em clareiras, indo rumo à superfície, algumas espécies do gênero Nymphea, como a N. lotus (só fique atento para a espécie, pois algumas são indicadas apenas para lagos). E isso foi só citando as mais comuns/acessíveis ao aquarismo.

Quanto ao resto da decoração, de forma geral, prefira rochas neutras, que não influenciem na composição da água, e troncos vendidos em lojas especializadas (não deixe de providenciar uma boa assepsia, evitando que parasitas e organismos indesejáveis invadam o aquário). Para substrato, eu indicaria ou areia (neutra) ou substrato fértil, caso as espécies de plantas utilizadas exijam isso (atente para plantas muito sensíveis, pois talvez não sirvam para aquário de ciclídeos).

Imagino que você queira mesmo é conhecer os CAs africanos que vivem em rios, pois bem, vamos lá…

 

CAs VS. CAs

CA significa, como você bem sabe, Ciclídeo Africano, ou seja, um ciclídeo que vem da África. Todavia, ao contrário do que muitos pensam, por ele vir da África não significa que ele pode ser misturado em qualquer aquário de peixes daquele continente. Lembremos que África é um continente inteiro, com dezenas de países, com todo tipo de ambiente imaginável, pântanos, corredeiras, lagos de água dura e alcalina e por aí vai.

Os mais conhecidos pela nomenclatura “CAs” são, certamente, os dos lagos do Rift, os quais já vimos em outro artigo. O que mais chama atenção, em termos de diferença de ambiente, não é o layout, mas sim os parâmetros da água. Nos lagos, falamos de pH a partir de 8 e durezas altas, para os rios, seria comum encontrar pH neutro tendendo para o ácido, tal como vemos aqui no Brasil – não tome esta última frase como regra, uma vez que precisaremos sempre estudar as necessidades do peixe antes de montar o aquário, ou seja, se você escolher um peixe cuja água do rio é alcalina, esta deverá ser sua meta.

Ah sim, os peixes…Tal qual acontece em qualquer grupo de peixes no aquarismo, alguns são mais famosos que outros. Preferi selecionar apenas espécies que estão no gosto dos aquaristas comuns, lembrando que em cada um desses gêneros abaixo existem espécies que não conhecemos e que valem a pesquisa na internet…bora ver o que temos pra hoje…

 

Kribensis (Pelvicachromis pulcher)

 

O Kribensis ou Krib, que todos conhecem, é uma das poucas espécies em que a fêmea pode assumir cores mais vibrantes que os machos. Elas têm a barriga “vermelha/roxa”, revelando a época de reprodução…claro que isso dependerá das variedades consideradas. Ocorre naturalmente na bacia do rio Níger, percorrendo pelo menos três países vizinhos: Benin, Camarões e Nigéria.

Prefere água de movimento leve, sem fluxos fortes, remansos e são reportadas até mesmo populações que ficam em áreas com influência marinha (água salobra). Ainda assim, é um peixe de água doce, mole, pHvariante (entre 5.0 e 8.0) e temperatura tropical (26ºC). O ambiente ao seu redor costuma ser densamente vegetado, algo que lhe proporciona o que há de mais precioso: oxigênio? Não…esconderijos. Inclua muitos esconderijos, utilizando estruturas que o ajudem na reprodução, como vasos de cerâmica tombados.

Estão na categoria dos Ciclídeos Anões, sendo que os machos chegam a 11cm e são bem maiores que as fêmeas, as quais ficam em torno dos 6cm. Um aquário de 75-80 litros é suficiente para um casal (no caso de outros peixes, não ponha ciclídeos, escolha alguns tetras e loricarídeos)…há que se lembrar que, como todo bom ciclídeo, o krib exacerba sua agressividade em período reprodutivo; é uma espécie em que o casal faz a proteção da cria. Tem hábitos de escavar, especialmente nas proximidades do local de reprodução, o que pode limitar ainda mais a escolha por plantas. Por viver próximo ao substrato, no ambiente natural, alimenta-se de vermes, crustáceos e insetos, mas aceita bem a comida industrializada.

Se tiver a oportunidade, pesquise sobre outras espécies do gênero Pelvicachromis, como o P. taeniatus…e veja as maravilhas que existem entre os kribs.

 

Red Búfalo (Steatocranus casuarius)

Também conhecido também como Humphead cichlid, e tantos outros nomes, o que chama atenção neste ciclídeo é o formato da cabeça, onde cresce um “galo” (uma protusão formada por deposição de gorduras) que é responsável pela quantidade de nomes que o peixe recebe.

Pertence ao corpo principal e aos tributários do segundo maior rio africano em comprimento, logo depois do Nilo (…porque em volume drenado fica atrás apenas do Amazonas): rio Congo. Por ocorrer na porção mais baixa do rio, onde a água corre com maior velocidade, o Red Búfalo prefere águas com certo movimento (maior circulação de água) e rochas formando cavernas.

Como é um peixe cavador, construidor de túneis, as rochas da decoração devem estar bem acomodadas no fundo, para evitar desmoronamentos com as obras (quem tem ou teve mbunas do Malawi, sabe bem isso).

Também está entre os Ciclídeos Anões, cujos machos chegam a 12cm e possuem o calo muito mais pronunciado, infelizmente, por ser uma espécie monomórfica é necessário esperar por estas características sexuais secundárias surgirem. Costumam formar casais e permanecer juntos durante todo tempo, inclusive na defesa da prole.

Embora tenha tamanho reduzido, seja considerado pacífico (para um ciclídeo) e se adeque aos parâmetros de outros CAs abordados aqui (pH 6,0 a 7, 5 e temperatura 26°C), existem alertas para que não se misture com outros ciclídeos, ou peixes que compitam com o espaço usado pelo Búfalo, salvo o aquário seja grande.

 

Joia (Hemichromis bimaculatus)

Este conhecidíssimo ciclídeo seria o “parceirão” dos CAs de rio. Por que? Só por que ele é joia com os outros peixes? Veja bem, não é bem isso…ele é até um pouco mais agressivo quando comparado aos outros citados…o lance é que ele ocorre em boa parte das principais bacias africanas, englobando a do rio Nilo, a do Congo e até as bacias costeiras ligadas ao rio Níger, notadamente em Camarões, embora ainda sejam reportadas ocorrências mais para oeste, nos países de Serra Leoa, Libéria e Guiné (todas ligadas ao rio Níger). O detalhe dessa ampla distribuição, depara-se com incertezas de identificação de espécies do gênero Hemichromis, ou seja, pode ser que em alguns casos, os peixes citados sejam outra espécie, similar em cores e marcas.

É encontrado no canal dos rios que possuem as margens com vegetação, a qual sombreia a água, o que pode sugerir, a você aquarista, plantas de folhas largas e troncos para caracterização do ambiente. O “parceirão”, destacado anteriormente, se reflete na resposta que você terá ao se perguntar “Que ciclídeo poderia colocar no mesmo aquário que o Krib ou do Red Buffalo?”, pois sempre terá como opção o Hemichromis bimaculatus, no que se refere os parâmetros de água, porte e comportamento. Lembre-se de que o tamanho do aquário deve comportar uma nova espécie de ciclídeo, pois mesmo o Joia atingindo não mais de 13cm (média) nos machos, seu temperamento é mais agressivo; nada que um aquário maior não resolva.

Também se trata de uma espécie monomórfica, na qual precisa prestar atenção nas cores da época da reprodução e no comportamento, para se diferenciar os sexos: as fêmeas assumem uma tonalidade vermelha mais forte. Uma vez postos os ovos (numa pedra, folha larga ou até no vidro), o macho se encarrega da vigorosa defesa do território, enquanto a fêmea cuida dos ovos.

 

Assim como fiz considerações sobre quais peixes adquirir, eu faria uma do tipo “Não caia no conto da zebrinha!”. Pode ser que você, dono de um aquário mediano, se depare com a Heterotilapia buttikoferi, conhecida como “zebrinha”. Trata-se de um “peixinho” africano de rio, que vaga lindo pelas águas da Libéria até Guiné Bissau, no extremo oeste do continente. É um ciclídeo, cujos parâmetros da água e o tipo de ambiente são parecidos com o que vimos até aqui. O peixe realmente é lindo, na loja, o problema não é bem “o que ele é” na hora da compra, mas “o que ele virá a ser” no seu aquário. O “zebrão” (acho que faz mais jus ao amigo aí) passa dos 30cm e o que tem de tamanho, tem o dobro de agressividade e de grosseria. É um peixe para aquário de peixes de porte avantajado e que saibam se defender…não serve para nosso propósito aqui.

E assim chegamos ao final (estendido) de mais um artigo…haveria assunto para falar de mais um monte de ciclídeos africanos de rio, porém, não há espaço…só pelos gêneros citados é possível se aprofundar nas belezas africanas e fazer surgir um gostinho de “esse eu quero”. Agradeço imensamente pela leitura e vejo vocês no próximo artigo, até lá!

Sobre o Autor

João Luís (Johnny Bravo) é brasiliense, daqueles que não se conformou só com o lago Paranoá e foi estudar Oceanologia pela FURG/RS, ingressou no mundo do aquarismo como palestrante e autor de textos há 10 anos, onde cambou para o lado dos Ciclídeos Africanos. Articulista das melhores revistas do ramo, escreveu matérias de capa para a Revista AquaMagazine e Aqualon. Nascido em 1975, é aquarista há 40 anos, pois da água veio e nela gosta de estar. E, hoje integra o time de escritores especializados do Grupo Sarlo.