Equipamentos de aquário

Introdução do autor:

João Luís é oceanólogo, escritor, entusiasta e aquarista desde sempre.

Grupo Sarlo – Dezembro de 2017

 

A ideia deste texto adveio quando perguntei a alguns amigos do trabalho que dúvidas eles teriam sobre aquários e um deles me falou dos equipamentos que são usados. Até então achava que era de boa, que era óbvio, só que não… Embora básica, a pergunta me atinou a perceber que há um grande contingente de pessoas que ignora completamente a utilidade e dimensionamento dos equipamentos para um aquário. E você, ainda acha que equipamentos servem apenas para enriquecer o lojista da vizinhança?

A grande verdade é que não. Pense comigo, peixe é o nome “genérico macro” que engloba milhares de espécies de água doce, salobra e salgada. Cada um, ou cada conjunto de seres, habita um determinado ambiente, com condições climáticas, de qualidade de água e parâmetros químicos distintos, uns dos outros. Como oferecer condições próximas sem a ajuda de equipamentos? Para um peixe de água doce, que é nosso foco aqui, como estamos cansados de ver por aqui, não basta um recipiente com água da torneira; a água precisa se mover, ser limpa, ser aquecida (ou esfriada)…e por aí vai. Assim, vamos dar uma pincelada no que é bom ter à mão no dia a dia, falando do basicão, para que tenhamos uma ideia da função e importância desses itens num aquário de água doce.

Bomba submersa

“Comprei uma bomba, grudei no vidro do aquário como o Zezinho me ensinou. Por que eu precisaria gastar dinheiro com outros produtos? O peixe tem ar para respirar, do que ele precisa mais? Posso economizar o dinheiro e gastar com uma boa comida…Acabei com a tese do Johnny!”

…só que não…fazer a água circular é importante, sem dúvida, mas sozinha tudo que uma bomba faz é permitir melhor troca gasosa com a atmosfera (entrada de oxigênio, entre outros) e misturar a sujeira homogeneamente. Concorda?

Outra coisa séria, não basta comprar uma bomba qualquer…se ela pifar, o sistema pode colapsar e causar a morte de todos os seres viventes (os que você apreciava e fazia tanto esforço para manter, pois bactérias do mal e fungos estaria dando tchauzinho pra você). Lembro-me que enquanto tive CAs do Malawi em minha casa, num aqua de 270 litros, tive uma Sarlo 2000 tocando sozinha um FBM (Filtro Biológico Modular) e um UGJ (Under Gravel Jat, que é um sistema de circulação de água, com canos espalhados por debaixo do substrato com a função de melhor movimentar a água). Sabe quantas vezes ela pifou ou me deixou na mão em 6 anos de uso? Nenhuma!

Claro que uma bomba submersa pode ser usada exclusivamente para movimentação da água, mas não pode estar sozinha. Ao menos um filtro você precisa ter também. “Pra quê?”

Filtros

Limpeza é vida! Da mesma forma que você não gosta da casa suja, pois junta bicho, “traz” doença etc., similar princípio é aplicável no aquário. Material em decomposição faz decair rápido a qualidade da água, permitindo a proliferação de microrganismos indesejáveis e aumentando a concentração de compostos tóxicos, como a temida amônia. Quando a água possui elementos tóxicos é comparável, analogamente, a andarmos numa atmosfera preenchida por um gás tóxico, o qual, ao respirarmos, faria com que nossa saúde ficasse comprometida. Aí que entram os filtros, para remover impurezas (ou excessos delas).

Dentre os principais filtros, temos dois grupos básicos: 1) externos, como o Canister (aquele normalmente guardado no armário abaixo do aquário) ou o que chamamos de traseiro (o que fica pendurado no vidro de trás); e 2) internos, como o FBM. Todos têm em comum uma bomba que realiza a circulação de água pelo filtro, todavia, são estruturas mais complexas, contendo mídias filtrantes, as quais retêm diversos tipos de sujeira, como material particulado e também compostos químicos não desejáveis (dependerá do que você utilizar de mídia filtrante).

Os mais usados e procurados costumam ser os traseiros, por ficarem elegantemente escondidos, deixando à mostra apenas o cano coletor, cuja altura pode ser regulada para tirar do fundo a sujeira acumulada. Alguns modelos desses filtros externos possuem, inclusive, um copo coletor de água da superfície, que funciona como um Skimmer (que retira da superfície da água óleos excretados pelos peixes). Além dessas vantagens, é possível afirmar que são os mais práticos para manusear e realizar sua limpeza.

Dimensionar um filtro não é difícil. Normalmente a embalagem traz quantos litros por hora o filtro roda; para aquários normais, com população regular (sem excessos) e peixes que não sujam muito, pense que o(s) filtro(s) deve(m) perfazer entre 2 e 3 vezes o volume do aquário por hora. Se o aquário for muito populoso ou os peixes são (metabolicamente) muito ativos, como ciclídeos grandes, eu sugeriria 4, 5 ou 6 vezes. Na minha experiência nunca pus toda responsabilidade num único filtro, sempre tive 2 ou 3 diferentes filtros para atingir o objetivo (se um parar, outro estará funcionando até você resolver). No exemplo dos CAs do Malawi que citei acima, além do UGJ e FBM, levados pela Sarlo 2000, eu possuía 2 filtros traseiros, cada um rodando o volume do aqua por hora…o que dava umas 8 vezes. Exagerado, concordo, mas devido a bomba ser forçada a trabalhar duro, eu receava que ela podia parar e 1 filtro externo só não daria conta…o bom é que nunca precisei me preocupar com bomba queimada.

Não vou entrar no mérito, mas saibam que ainda existem vários sistemas distintos de filtragem, como o SUMP, o de areia fluidizada e por aí vai.

Dentro dos aparelhos designados como “filtros” temos um que elimina formas de vida, como esporos resistentes e microorganismos que escapam de remédios e outros químicos: é o Filtro UV. Este, para ser bem sucinto, é utilizado para esterilizar a água por meio da irradiação emitida por uma lâmpada de luz Ultravioleta (UV), guarnecida dentro de um tubo, por onde passa a água vinda do aquário. Se o seu aquário possui problemas com microalgas verdes ou bactérias ruins, por exemplo, este aparelho é recomendado para tratar a água.

Aquecedores

Sem termostato é preocupante! Não tem como começar falando de um aquecedor sem deixar um aviso destes. Ninguém fica 24h monitorando a temperatura do aquário e nem é esse o propósito do aquarismo, que suscita o descanso, o prazer, o relaxamento; só não dá pra relaxar ao ponto de deixar o aquecedor na tomada e ir para escola ou trabalho. Uma situação desta, literalmente “cozinha” os peixes. Temperaturas altas diminuem a concentração de oxigênio na água e podem gerar outras disfunções no organismo. O caso contrário, ou seja, sem o uso de aquecimento, o metabolismo de certas espécies pode ser comprometido e as quedas bruscas de temperatura passam a ameaçar a saúde dos animais, propiciando o surgimento de doenças.

Não é besteira e é fácil afirmar que sem controle de temperatura dificilmente você terá sucesso na manutenção adequada da maioria das espécies ornamentais.

Além do aquecedor precisar ser confiável, tal como aferimos para as bombas submersas, é essencial que ele esteja acoplado a um termostato, que nada mais é que o mecanismo que “percebe” a temperatura e efetua o trabalho de ligar e desligar o aquecedor, mantendo a água numa temperatura constante. Para você ter a ideia de qual é o aquecedor apropriado para o seu aquário, calcule 1 Watt por litro, que é uma medida segura que permite que o aparelho faça a água atingir uma temperatura de 26 ou 28ºC mesmo nas épocas frias do ano.

Como eles ficam escondidos no aquário é recomendável também que você adquira um termômetro próprio para aquário, para poder acompanhar a temperatura da água.

Iluminação

Fundamental! Sim, meu filho, vai muito além da lâmpada fluorescente que ilumina sua cozinha. É importante tanto para o crescimento de plantas aquáticas, como para a manutenção de diversas espécies de corais ou ainda para que os peixes enxerguem corretamente. Não ria, isso é sério. Já é documentado que certos ciclídeos hibridizam no lago Victória (lago africano) devido ao fato das fêmeas não enxergarem os parceiros, diante da turbidez da água, causada pela poluição (estresse); em tais condições, elas preferem os maiores e mais agressivos, sendo que muitas vezes estes são de outras espécies. Ciclídeos têm uma resposta visual incrivelmente complexa e, assim como eles, existem outros peixes. Iluminação correta é o equivalente a uma pessoa, que não enxerga direito, colocar uns óculos.

Visto isso, fica fácil entender que a escolha da iluminação para o aquário dependerá exclusivamente do ambiente a ser mantido. Para um aquário plantado, por exemplo, sabe-se que a faixa ideal para a fotossíntese (de temperatura da cor) está entre 5.000 e 8.000 K (Kelvin); adicionalmente é importante lembrar que a partir de certa profundidade a luz começa a ser filtrada na coluna d’água, ou seja, não é qualquer lâmpada que atende esses requisitos. Pensando em detalhes como estes, antevemos a necessidade do uso de diferentes tipos de lâmpada. Exemplos de lâmpadas? Sim, claro, mas só alguns, pois este é um mundo vasto…Vamos lá…

HQI: possivelmente a mais poderosa dentre as lâmpadas disponíveis para aquário. Ela consegue penetrar mais fundo nos aquários, sem perder intensidade e preservando as cores, mesmo em profundidades de 80cm ou 1m. São reservados, normalmente, 25-30cm na tampa, para que abriguem o refletor, reator etc. Por aquecerem em demasia é esperado que o sistema já contenha sistema de ventilação. Como desvantagem, além do espaço reservado para a tampa e o aquecimento excessivo, há o alto consumo.

T5: não aquecem como a HQI e são bem mais econômicas (podem representar até 40% de economia, dependendo de qual fluorescente com a qual é comparada). Lâmpadas do tipo T5 possuem considerável redução do diâmetro do tubo (16 mm), em comparação com as tradicionais fluorescentes, o que permite tornar as luminárias mais compactas. Além disso, possuem maior eficiência em termos de luminosidade. Não entram tão fundo na coluna d’água como uma HQI, porém, atuam perfeitamente em aquários com cerca de 60cm de altura (de água). Estão em alta mesmo em alguns aquas marinhos.

LED: é o tipo de lâmpada mais econômico, sem deixar de oferecer boa iluminação. Existem muitos tipos, sendo que você encontra LED mesmo em lâmpadas fluorescentes T5 ou T8 e até em sistemas que simulam nascer e pôr do Sol. Sim, é isso mesmo! Com o auxílio de um timer embutido, a luminária se acende (ou apaga) apenas parcialmente por 30 minutos…é provável que venha com algum controle remoto para que você controle as incidências de cores (azul, vermelha e branca).

PL: nem mesmo diante daquelas fortes competidoras estas aqui foram excluídas do aquarismo. As compactas são bem mais eficientes do que fluorescentes comuns e, nas específicas para aquarismo, podem ser encontradas nas cores branca, azul actínica e rosa. A vantagem, em relação às anteriores, é que podem ser trocadas a cada 2 anos (as outras precisam ser substituídas de ano em ano).

Acabou? Não, mas vou parando por aqui. O universo dos equipamentos para aquário continua, variando em complexidade, qualidade e utilidade. Não adianta divagar de forma geral procurando abarcar as diversas especificidades que muitos aquários requerem, isso demandaria informação especializada e mais estudo para cada caso. Que sabe outra hora volto falando mais sobre algum desses temas?

Pois é, espero ter trazido alguma reflexão sobre a importância de equipamentos para o seu aquário. Eles não são dispensáveis, pelo contrário, permitem dar ao peixe e demais organismos aquáticos, condições dignas de sobrevivência e bem-estar…que é o que o aquarista busca! No mais, agradeço a leitura e espero todos no próximo artigo! Até lá!

Sobre o Autor

João Luís (Johnny Bravo) é brasiliense, daqueles que não se conformou só com o lago Paranoá e foi estudar Oceanologia pela FURG/RS, ingressou no mundo do aquarismo como palestrante e autor de textos há 10 anos, onde cambou para o lado dos Ciclídeos Africanos. Articulista das melhores revistas do ramo, escreveu matérias de capa para a Revista AquaMagazine e Aqualon. Nascido em 1975, é aquarista há 40 anos, pois da água veio e nela gosta de estar. E, hoje integra o time de escritores especializados do Grupo Sarlo.