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Introdução do autor:

João Luís é oceanólogo, escritor, entusiasta e aquarista desde sempre.

Grupo Sarlo – Maio de 2017

 

 

Na natureza, as espécies desenvolveram inúmeras maneiras de responder às pressões seletivas, dentre elas estão as estratégias de reprodução, as quais visam garantir a propagação das características genéticas do indivíduo ou, de forma mais simples, gerar descendentes. Tais estratégias vão de espécies que lançam, livremente na água, milhões de ovos a cada ano, até aquelas que colocam algumas dezenas e cuidam deles (cuidado parental). Tudo isso dependendo maneira que a espécie encontrou para responder às influências ambientais – diferentes espécies respondem de formas distintas às mesmas pressões.

Os peixes de aquário, por sua vez, têm diferentes métodos de reprodução, tanto nos ritos de cópula como nos tipos de postura e cuidado com os ovos. Certamente o assunto não é tão simples como a forma que colocarei aqui, mas dentre as principais estratégias existentes nos peixes ornamentais convencionais, separei alguns aspectos para falar, referentes às maneiras com as quais os descendentes vêm à vida.

A maioria de nossos peixinhos utilizam os ovos para apresentar seus filhotes ao mundo. Estes podem ser livres (também chamado pelágicos), o que significa que são colocados na coluna d’água e por lá ficam flutuando; podem ser demersais, que afundam, por serem mais densos que a água; ou ainda, ovos adesivos, os quais possuem uma gosminha (muco) que os faz grudar numa superfície (demersais podem estar inclusos neste tipo); cabe também falar dos ovos que foram fecundados dentro da fêmea e que lá ficam até sua eclosão, liberando na diretamente na água o alevino (método ovovivíparo).

Assim, separei, para falar neste e nos próximos artigos, informações sobre métodos de reprodução envolvendo peixes ovíparos e ovovivíparos, começando com peixes que possuem ovos adesivos. Que peixes são estes? Vamos ver alguns dos mais conhecidos e ver algumas particularidades.

 

Acará-Bandeira (Pterophyllum scalare)

O acará-bandeira é um dos mais icônicos peixes do aquarismo de água doce em todo mundo. Seu exuberante corpo possui duas chamativas nadadeiras: a dorsal e a anal, que mais parecem, respectivamente, vela e leme de um barco. Por dar est aparência de asas, lá fora o chamam de angelfish (peixe-anjo). Muitos hobbistas já o tiveram ou mesmo já o reproduziram em aquário, pois não é difícil.

Um dos principais problemas para quem pretende procriar o acará-bandeira é identificar machos e fêmeas. Ouve-se muito falar que indivíduos machos maduros e bem desenvolvidos, são maiores que as fêmeas e possuem o “calo” na cabeça – aquela protuberância que muitos ciclídeos machos desenvolvem quando estão marcadas as características sexuais secundárias. Especialmente pra quem não tem experiência, isso não é nada convincente. A grande verdade é que certeza mesmo a maioria das pessoas terá apenas após ver o pareamento do casal e a proximidade com o momento da reprodução. Neste instante, a fêmea acaba revelando na região ventral uma papila genital mais destacada, pois é por onde os ovos passam. Ainda assim, o que mais comumente ocorre dentre as pessoas que decidem reproduzir este peixe é colocar num aquário 8 ou 10 indivíduos, esperando que casais se formem naturalmente com o passar do tempo – após isso se retiram os demais ou se separa o casal formado; aquários de grande porte são capazes de comportar mais de um casal formado.

Falo “grande porte” porque quando se pretende tê-los em aquário e ainda deixá-los se reproduzir são aconselháveis aquários acima de 200 litros, para dar espaço para outros colegas continuarem nadando. “Como assim?” O casal, uma vez constituído, procura uma superfície plana e larga, que podem ser folhas, pedras ou troncos, e começa a limpá-lo, protegendo com vigor o território escolhido. A agressividade do casal reprodutor é exacerbada nesse período e quando o lugar é muito pequeno, propicia seu aumento, podendo prejudicar física e comportamentalmente os outros habitantes.

Na superfície escolhida, que pode até mesmo ser o vidro do aquário, a fêmea passa depositando os óvulos, os quais, por possuírem um muco ao redor, aderem à face selecionada. Logo em seguida vem o macho, fertilizando-os. O casal protege ovos com afinco, permanecendo sempre ao lado “abanando” ou “soprando” para movimentar a água em volta e evitar que funguem – se ocorrerem ovos “doentes” ou não fertilizados, que ficam opacos, eles serão comidos. Ovos eclodem em 2 dias e, cerca de 5 dias depois, os alevinos já podem vir a receber alimento, como náuplios de artêmia, uma vez que já estarão nadando. Estes pequenos seres também estarão sobre proteção atenta dos pais, a qual pode ser mantida por até 2 meses – criadores costumam removê-los no primeiro mês.

Dicas para promover a desova? É dito que todos os ciclídeos lateralmente compressos são sensíveis ao nitrito e à amônia que não esteja ionizada (no caso NH3) – aspectos de aquários recém-montados ou muito malcuidados. Além disso, são tidos como aceleradores de reprodução a manutenção da temperatura em torno dos 28ºC, pH entre 6.8 e 7.2, aumento de alimento vivo ministrado, trocas parciais de água e 8 a 12 horas de luz.

Ah…pais novatos podem comer ovos ou filhotes das primeiras tentativas!

 

Acará-Disco (Symphysodon spp.)

Não há como falar de um e não falar do outro “achatadinho”. Em termos de aspectos reprodutivos, o acará-disco tem várias características similares ao Acará-Bandeira (ovos adesivos, dimorfismo sexual difícil, aquário amplo e escolha do local para reproduzir), contudo, é mais sensível que seu familiar, por isso não explorarei nada além das diferenças mais marcantes.

Independente da variedade ou espécie de disco, a primeira observação que faço, para o caso de ser aquário comunitário, é não misturá-lo com espécies agressivas ou agitadas demais, pois além do risco de deixar de se alimentar e adoecer, fica escuro e escondido (reproduzir então…humpf). Outro detalhe importante é que preferem águas mais ácidas (pH de 4.2 a 6.2). Agora, uma das coisas mais legais, que me fazem gostar dos discos, é ver os filhotes recém-nascidos ao redor dos pais, mordiscando-os. Eles ficam ali se alimentando do muco…este é um sinal de que já podem comer outras coisas, tipo infusórios e náuplios de artêmia, o que pode ser ministrado umas 2 vezes por dia.

Para o momento de procriação, de qualquer um dos acarás aqui mencionados, não é aconselhável instabilidade nos parâmetros no momento da reprodução, de modo geral, sendo que o uso de buffers  e estabilizadoresaquecedor e termostato, suplementos alimentares são recomendados – especialmente as fêmeas ficam muito desgastadas após o período, precisando ser recompensadas com alimentação nutritiva.

 

Apistogramma Cacatuoides

Um dos apistogramas mais famosos, o qual escolhe o teto ou a parede de fendas ou troncos, assim como plantas e raízes, para desovar. Alternativamente, o que mais comumente se usa para lhes dar um bom local para pôr os ovos são aqueles vasos de plantas de cerâmica. Sim, o mesmo que sua violeta está ocupando neste momento. Devidamente limpos, estes objetos são enterrados no substrato ou mesmo serrados pela metade para virarem 2 cavernas com 1 só vaso – o lance é não deixar uma abertura imensa, eles gostam de se sentir protegidos em fendas e grutas.

O aquário deve conter vegetação (Musgo de Java é uma ótima pedida para compor o hall de escolhas), pois servirão também para proteger a fêmea de investidas, quando não “estiver a fim”, e temperatura a partir dos 25ºC (são 4 a 5 dias para a eclosão nesta temperatura, normalmente você verá os filhotes a partir do 7º ou 10º dias, que é quando começam a se aventurar para fora do ninho e já podem comer náuplios de artêmia). Um adendo à questão da temperatura é que se os ovos forem mantidos em água mais quente, nascerão mais machos, se mais fria, mais fêmeas. Eureka!

Nesta espécie não há problemas de identificação entre os sexos. Os machos tornam-se consideravelmente maiores que as fêmeas, ganham cores belíssimas e têm algumas nadadeiras filamentosas, sendo que a mais notória é a dorsal. Esta ganha prolongamentos nos primeiros raios, adereço que, junto com as cores, lhe concedeu a analogia à crista da cacatua (pássaro australiano). As fêmeas, por sua vez, seguem o padrão do gênero Apistogramma, com vívida coloração amarelada e acentuadas marcas negras na época da reprodução.

Muitos criadores utilizam a estratégia de colocar um grupo de juvenis num aquário e esperar a formação de um casal, em detrimento de optar por escolher um macho e uma fêmea e colocá-los juntos para reproduzir. Uma vez que um par deles começar a fazer as coisas conjuntamente, como defender uma área ou nadar juntos pelo aquário, os demais devem ser retirados do aquário deixando somente os pombinhos apaixonados.

Como eles escondem os ovos em grutas (serve para os apistos em geral), a maneira mais certa de arriscar um palpite se ela desovou ou não, é olhar para a fêmea e ver sua coloração, em busca amarelo sólido contrastando com as faixas pretas, bem marcadas, na pélvica e abaixo dos olhos, em casos assim, as chances dela ter desovado são altas.

Muitos dos aquaristas cujo intuito é fazer vingar o maior número possível de filhotes, costuma separar o macho. Outros ainda tiram ovos e fêmea, ou só ovos, para que eclodam em lugares mais seguros e propícios. Nesta espécie também é verdade que fêmeas podem comer os ovos quando percebem problemas, como não fertilizados ou atacados por fungos.

A água parece ser uma característica crucial para a reprodução de apistos, pois eles costumam preferir água ácida e mole, sendo que é comum se optar por água deionizada. “O que é isso?” Deionização é um processo que deixa a água isenta de íons…mole e ácida. Há duas principais maneiras de se fazer isso: 1) a água é passada por uma resina que retira os íons por troca iônica, a qual, no final, terá sua condutividade elétrica reduzida (quanto menor, maior a deionização ocorrida), ou seja, as cargas elétricas da água são neutralizadas (com adição ou remoção de elétrons), ou ainda, em outros temos, ela é desmineralizada; 2) para os mesmos fins, utiliza-se um filtro de osmose reversa, que consiste de um sistema com uma membrana filtrante ultrafina semipermeável, capaz de reter os sais dissolvidos; sob pressão a água é forçada a passar pela membrana, deixando nela um rejeito – o processo feito corretamente é capaz de remover grande parte dos componentes orgânicos e a quase totalidade dos sais dissolvidos.

 

Peixe-Palhaço (Amphiprion ocellaris)

Para não ficar só no mundo doce, resolvi falar do peixe-palhaço, muito conhecido, especialmente após o filme “Procurando Nemo”. Ele é uma espécie do tipo hermafrodita protândrico. “Whatahell?” Pergunta natural. Isso significa que os peixes desta espécie nascem com órgãos masculinos viáveis e femininos dormentes. No peixe-palhaço apenas alguns exemplares se tornarão fêmeas aptas à reprodução.

Ainda não entendeu como se daria na prática? No caso deste peixe funciona assim: ao redor de uma anêmona reúne-se um grupo consistido de um peixe maior, o qual é a fêmea dominante, um macho sexualmente ativo e outros machos inativos, de tamanho menor, e subordinados. A questão de dominância para os palhaços significa a possibilidade de se reproduzir e apenas os dois no topo, necessariamente, irão gerar descendentes; eles formarão um par monogâmico.

Diz-se que para as espécies do gênero Amphiprion tudo funciona no sistema da fila. Sim “fila”, uma analogia que encontrei num texto científico para explicar como se dão os acordos na comunidade. Neste sistema, os indivíduos não desbancam os hierarquicamente superiores mediante agressividade ou competição direta. Eles esperam o posto, imediatamente acima, ficar vago, ou seja, o peixe que está ali morrer. Certa agressividade existe sim, mas ela é aplicada pelos dominantes sobre os subordinados com a finalidade de inibir o crescimento e a maturação sexual. Se você perguntasse “e se a fêmea dominante morrer?”, eu responderia: o macho reprodutor mudará seus órgãos reprodutivos, maturando a parte feminina, e em seu lugar virá o macho imediatamente abaixo dele na fila. Muito civilizados, viu?! A partir de hoje, quando alguém furar a fila na sua frente, não pense ou diga “palhaço!”…pois agora você sabe que se ele fosse um palhaço não furaria a fila, aguardaria sua vez…arrume outro adjetivo para o espertinho.

Voltando ao tópico: quando um indivíduo se junta a um grupo, comumente no último lugar da fila, só alcançará o topo (como reprodutor) se viver o suficiente para ver todos seus predecessores morrerem. Realmente este parece um sonho utópico para um peixe-palhaço. Assim, os peixes parecem possuir uma tática de escolher pertencer a grupos menores, ou seja, buscam filas mais rápidas; também é importante frisar que fiéis são somente o casal reprodutor, pois os demais podem migrar de um grupo para outro, quando acham que lá a “fila anda mais rápido” – quanto mais perto do topo o peixe estiver, mais difícil será para ele decidir se mudar.

No período reprodutivo, quando a fêmea mostra sinais de estar pronta, o macho assume um comportamento mais territorial e agressivo, passando a limpar algum terreno ao redor da anêmona, onde os tentáculos possam promover proteção. O nervosinho tenta atrair a fêmea perseguindo-a, mordendo-a e fazendo displays de nadadeira, atraindo-a para a área limpa. O processo de cópula não é rápido, podendo perdurar por até duas horas, onde a fêmea deposita ovos no local (entre 100 a 1.000, dependendo do tamanho e idade) e o macho vem em seguida, fertilizando-os. Estes ovos estão presos ao substrato por um tênue fio. Findado isso a fêmea deixa o macho cuidando dos ovos, tarefa que inclui arejar, comer os ovos não fecundados ou fungados e proteger contra invasores. A incubação demora em torno de 6 e 8 dias, dependendo da temperatura, e os alevinos partem para o plâncton, estágio que ainda pode durar de 8 a 12 dias, e ajuda na dispersão. Quando retornam, já chegam procurando uma anêmona para adorar – último da fila. Estes detalhes finais mostram que o tamanho do grupo não está relacionado com a reprodução do casal dominante; eles não são parentes.

 

É interessante observar que na estratégia reprodutiva escolhida por estes peixes, a quantidade de ovos não é alta, quando posta em comparação com peixes que escolhem lançar ovos na água, sem esconder nem nada. Estes peixes aqui apostaram em estratégias que se resumem em escolher um lugar protegido, colocar menos ovos (e maiores em tamanho comparado) e protegê-los.

No próximo artigo veremos peixes ovíparos com outras maneiras de lidar com suas gerações futuras…já me delonguei por demais aqui…Espero que tenham gostado, vejo-os no próximo artigo! Obrigado pela leitura!

Sobre o Autor

João Luís (Johnny Bravo) é brasiliense, daqueles que não se conformou só com o lago Paranoá e foi estudar Oceanologia pela FURG/RS, ingressou no mundo do aquarismo como palestrante e autor de textos há 10 anos, onde cambou para o lado dos Ciclídeos Africanos. Articulista das melhores revistas do ramo, escreveu matérias de capa para a Revista AquaMagazine e Aqualon. Nascido em 1975, é aquarista há 40 anos, pois da água veio e nela gosta de estar. E, hoje integra o time de escritores especializados do Grupo Sarlo.