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Março de 2018

Neste artigo de hoje falaremos basicamente sobre a mais conhecida família de Gouramis, ou cientificamente falando: Osphronemidae. Eu preferia quando usávamos a família Anabantidae para fazer referência a peixes como o Betta, Tricogaster ou Colisa, era mais fácil de pronunciar. Este mesmo escritor que vos fala errou, certa vez, ao dizer que o Betta pertencia à família Anabantidae, há tempos atrás, no artigo específico sobre o peixe, e um dos leitores entrou em contato com a edição e falou (obrigado! Continuem fazendo isso, por favor! Nosso hobby sempre foi construído a muitas mãos!). Hoje, porém, os Anabantídeos são aqueles chamados Gouramis Escaladores (Climbing Gouramies), os quais literalmente saem da água para dar um passeio, graças ao sistema de labirinto, que aprisiona o ar atmosférico em câmaras branquiais – são cerca de 34 espécies em quatro gêneros, um da Ásia e três da África. Só que pra não ficar tão restrito a uma família, também citarei aqui um dos mais “românticos” dos peixes de aquário, pertencente à família Helostomatidae – a qual só tem um gênero e uma espécie.

O assunto de hoje surgiu, porque é praticamente impossível um aquarista não ter passado pelos gouramis. O preço acessível talvez seja um dos principais motivos desses peixes serem comuns em aquários, especialmente os comunitários, entretanto, pode ser também por costumarem ser peixes robustos, com longevidade entre 4 ou 5 anos (até 8 como registrado para o Tricogaster Leri) e com temperamentos variados.

Em suma, as três famílias citadas (Osphronemidae, Anabantidae e Helostomatidae) compõem o que conhecemos como gouramis. Entretanto, nem somadas essas famílias causam impressão nos números, pois o total de espécies fica entre os 130-150, em contraste com as milhares encontradas em reuniões como os Ciclídeos, Ciprinídeos ou Caracídeos. Ainda assim, podemos dizer que são “peixes de família”, limpinhos e honestos; além disso, muito organizadinhos. Tomo como exemplo a nossa família-alvo, a Osphronemidae, a qual se divide em 4 subfamílias: Osphroneminae (gouramis gigantes), Belontiinae (a qual possui um só gênero: “Belontia” e que costumam ser chamados de gouramis “cauda-de-pente”), Macropodinae (onde se encontram os briguentos Betta e Peixe do Paraíso) e Luciocephalinae (grupo dos tricogasters e colisas). Adianto que há indícios de novas revisões taxonômicas vindo por aí.

“O Johnny e suas histórias sobre taxonomia…” Se você pensou que eu viria com um artigo inocente sem dar nós na cabeça, informo que ainda não é desta vez, desculpe. Se você já não sabia, então, a partir de hoje nunca mais verá uma Colisa ou um Tricogaster como antes. “Por que?” Porque as coisas mudam, especialmente na taxonomia. A palavra “Taxonomista” deriva do maluquês e significa “o infeliz que não dorme sem mudar um nome científico”. Assim como já vimos nas outras famílias, aqui não foi diferente, os especialistas precisavam justificar os salários e hoje lidamos com o resultado: tudo que um dia eu chamei de Colisa, hoje são Tricogasters…a verdade nua e crua vigora mesmo que os nomes comerciais tenham sido mantidos, “você compra um e leva o outro”.

Brincadeiras à parte, é justíssimo que a classificação das espécies acompanhe a evolução da tecnologia e dos métodos de análise. É por isso que nossa senda de aquarista requer leitura, pois aprimorar e se atualizar implica em melhores resultados também para o hobby. O certo é que mesmo que mudem o nome científico dos peixes, nosso amor e dedicação serão mantidos! Tá bom, chega de falatório e vamos ao que interessa: os gouramis que habitam nossos aquários!

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Colisa Lália (Trichogaster lalius)

Quando você vir na loja “Colisa Lália R$5,50”, saiba que seu verdadeiro nome é Trichogaster lalius. Sim, sua Colisa é um tricogaster! Este é mais um daqueles peixes marcantes do meu início no hobby (naquela época os sucessos da rádio eram Madonna, a-ha e Bom Jovi e sei lá mais quem), pois sempre achei maravilhosa a combinação do azul e do vermelho metálicos nesse peixe, detalhes que fizeram com que a Colisa estivesse em meus aquários inúmeras vezes.

É uma espécie originária da Ásia (Paquistão, Bangladesh e Índia) e excelente para aquário comunitário. As características atraentes da Lália são, além das cores, o pequeno tamanho e o excelente temperamento. E não param por aí! Com um pH preferencial entre 6,0 e 8,0 e temperatura de 25 a 28ºC, este peixe pode ser incluído em praticamente qualquer aquário em que a água fique em torno do neutro e temperaturas tropicais. Conhecido também como “gourami anão”, a Colisa atinge um tamanho que lhe permite habitar aquários a partir dos 60 litros – machos (maiores e mais coloridos) chegam aos 7,5cm e fêmeas ficam pelos 6cm. Ressalva deve ser feita para quando habitam aquários de volume reduzido: machos podem se tornar territoriais e agressivos, assim, deve-se escolher bem os companheiros – tetras, rásboras e alguns barbos podem ser bons companheiros.

No ambiente natural são encontrados em locais de fluxo lento, repletos de vegetação, como lagoas ou mesmo pântanos. Já matou a charada? Claro que sim. São parentes dos Bettas e, portanto, também possuem o órgão capaz de retirar ar da atmosfera: o labirinto. Por causa disso, não são exigentes quanto à oxigenação do aquário, ainda assim, eu recomendaria o uso de filtro externo ou interno, com uma bomba submersa de baixa vazão. Meu medo reside no fato do acúmulo de matéria orgânica e consequente proliferação de doenças via bactérias, as quais as Colisas costumam pertencer aos registros de peixes afetados.

Tricogaster Leri ou Gourami Pérola (Trichopodus leerii)

Sem comparação, meu preferido dentre todos os gouramis! Especialmente quando os machos adquirem a coloração indicativa de maturidade – o laranjão do ventre dos machos, com o mosaico de pintas azuis sobre o corpo castanho e aquela faixa escura longitudinal o tornam singular.

Sei que fica meio parcial falar de nossas preferências, mas o Gourami Pérola é tipo um peixe sem defeitos. É o mais pacífico dos gouramis, excelente peixe para boa parte dos aquários comunitários, tanto por ser gente boa como por aceitar os mesmos parâmetros descritos para a Colisa; além disso o tamanho gira em torno dos 12cm. Sua agressividade se limita às épocas de reprodução e entre os membros da mesma espécie, especialmente contra as fêmeas que não estejam prontas para reproduzir. E por falar nisso…Tanto a Colisa quanto o Leri são espécies que constroem o ninho de bolhas, cuja guarda é feita pelo macho. Trata-se de processo bem parecido com a reprodução do Betta, incluindo o “abraço” nupcial e a coleta dos ovos que caem, feita pelo papai.

Para se pensar no aquário para receber um destes, mesmo não sendo ele oriundo dos mesmos países que a Colisa (o Leri é de regiões da Tailândia, Malásia, Bornéu e Sumatra), o ambiente é similar: aquário bem vegetado e a circulação lenta da água.

Tricogaster Azul (Trichopodus trichopterus)

O tricogaster azul – azul, mas que também pode ser amarelo/marrom (que é sua coloração selvagem) ou prateado –  pode ser conhecido como Gourami de 3 manchas/pontos – mesmo que ele não as tenha (você pode obter um peixe todo rajado/mármore). Agora, por que não o chamam de Tricogaster do Mekong ou coisa assim? Associando-o à região de origem ou a uma característica inequívoca? Eu não entendo.

Como já adiantei, o peixe vem das regiões alagadas e canais ligados à bacia do rio Mekong, na altura dos países Laos, Tailândia, Camboja e Vietnam. Maior que seu antecessor neste texto, chega a medir 15cm, sendo que o mais comum é ficar em torno dos 12cm.

Sem nenhum mistério, segue os mesmos preceitos das duas outras espécies citadas, no que concerne aos parâmetros de água e arranjos do ambiente, no entanto, esta espécie é um pouco mais beligerante, exigindo que o aquarista estude para escolher os companheiros de aquário, assim como o tamanho do recipiente.

O macho adquire, além do tamanho maior, uma nadadeira dorsal mais afilada, o que indica a maturação do indivíduo; as fêmeas costumam manter a nadadeira arredondada e ganhar mais volume no abdômen.

Peixe-Paraíso (Macropodus opercularis)

Um peixe majestoso, na minha opinião, todavia, já me adianto dizendo que ele é da subfamília dos brigões (Macropodinae) e é beeeem pior que o Betta, se fôssemos comparar os temperamentos com colegas em aquários comunitários. Recomenda-se evitar peixes com formatos similares ao dele e usar peixes de cardume, como alguns barbos ou tetras.

Embora tenham sido introduzidos em muitas partes do mundo, são originários da China (bacia do rio Yangtze), Taiwan e norte do Vietnam. Ainda assim, se você se basear nas informações das outras espécies aqui para montar o aquário dele, ok…vai dar certo! Detalhe apenas para o tamanho do aquário, que deve ser a partir dos 80cm, devido aos rompantes de agressividade que a espécie pode ter. Ele não é grande (8cm em média), mas é nervosinho.

Machos são mais coloridos, maiores e suas nadadeiras afilam mais; destaque para a cauda bifurcada. Se for tentar reproduzir, atente para ter pelo menos umas duas fêmeas para cada macho. Nesta espécie também é o macho que constrói e vigia o ninho de bolhas.

Beijador (Helostoma temminkii)

O grande (25-30cm) beijoqueiro, da família Helostomatidae, ao contrário do que muitos ainda pensam, não se trata de um romântico inveterado. O ato do “beijo” nesta espécie denota disputas por território, feitas normalmente por machos.

Vastamente distribuído pela região do sudeste asiático, sua origem é incerta, uma vez que não se sabe até que ponto as mãos humanas participaram disso. É um peixe robusto que aceitaria de bom grado os parâmetros que já vimos aqui, porém, o aquário precisaria ser maior, devido ao porte do peixe, algo em torno dos 1,5m (350-400 litros). Trata-se de uma espécie que necessita de espaço livre para nadar, inclusive, a falta de espaço é um dos indutores da agressividade.

O Beijador tem o hábito de raspar pedras e plantas, para obter o complemento vegetal de sua dieta. Por causa disso, pedras em que cresça um filme de algas e plantas de folha grossa são recomendadas. Para findar as diferenças, em relação aos outros gouramis tratados no artigo, vale dizer que este aqui não faz ninho bolhas, nem tem cuidado parental com a prole. Pena, né? O mais “romântico” e o menos carinhoso…

Obviamente, como já falamos, os gouramis não estão limitados a estas cinco espécies. Sugiro, para aprofundar o mergulho neste mundo, pesquisar espécies como o Gourami Chocolate que faz incubação bucal (Sphaerichthys osphromenoides) ou o Gourami Pigmeu, que chega apenas a 4cm. Não foram elas as abordadas, porque são espécies menos comuns no hobby e, no caso do Gourami Chocolate, uma espécie não recomendada para iniciantes – provavelmente exigiria do hobbysta cuidados extras, como dispositivos para evitar mudanças bruscas de parâmetros.

Pois é, pra variar avancei demais e, ainda assim, vimos que é impossível se falar de tudo que existe, mesmo num grupo pequeno como o dos gouramis…Fico por aqui e agradeço muito sua leitura! Nos encontramos no próximo artigo, até lá!

Sobre o Autor

João Luís (Johnny Bravo) é brasiliense, daqueles que não se conformou só com o lago Paranoá e foi estudar Oceanologia pela FURG/RS, ingressou no mundo do aquarismo como palestrante e autor de textos há 10 anos, onde cambou para o lado dos Ciclídeos Africanos. Articulista das melhores revistas do ramo, escreveu matérias de capa para a Revista AquaMagazine e Aqualon. Nascido em 1975, é aquarista há 40 anos, pois da água veio e nela gosta de estar. E, hoje integra o time de escritores especializados do Grupo Sarlo.