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Depois de fazer um percurso inteiro dentro da família Cyprinidae, falando de conhecidíssimos peixes de aquário, muitas vezes comunitário, chegamos agora na Ordem dos Cyprinodontiformes, onde estão os alvos deste artigo: os Killifishes. Faço apenas a ressalva, para que não haja confusão, de que a Ordem dos barbos, peixinhos dourados, rásboras e outros é a Cypriniformes. Lá falamos de uma única família e aqui englobaremos algumas famílias para falar dos Killies. Observe que agora há, entre o “cypri” e o “formes”, um DONT, do inglês “não”, para “não” confundir…besteira, a correta etimologia se refere a “odont”, que vem do grego odous, fazendo referência aos “dentes”. A grosso modo, Cyprinodontiformes seria “carpa dentada” ou “carpa com dentes”.

Só para termos ideia, a Ordem Cyprinodontiformes compreende peixes ovíparos (que será nosso caso aqui) e ovovivíparos (os quais já tratamos quando falamos de estratégias de reprodução e citamos os guppies, mollies e outros da família Poecilidae). Inclusive, acredito eu que, uma das mais atrativas características dos killifishes, além das cores exuberantes, são os métodos de reprodução, pois alguns deles são anuais, ou seja, vivem apenas um ano. Isso não é porque morrem rápido, mas sim porque tais peixes habitam filetes d’água que desaparecem durante as épocas de seca e os reprodutores precisam enterrar os ovos para que a espécie perpetue. Comportamento que influenciou o próprio nome popular.

Embora, por vezes, se atribua o significado de killifish à “peixe de poça” ou “peixe de pequeno córrego” (ou algo similar ao contexto de “viver em pouca água ou água rasa”), precisamos refletir um pouco sobre isso. Primeiro porque a própria origem da nomenclatura é incerta, a qual é atribuída a um termo holandês (que não consegui confirmar em nenhum dicionário online). Segundo, e principal, na minha opinião, é que o termo engloba espécies tão distintas, que elas são divididas em mais de uma família. Pensando só nisso, já dá uma noção de que é impossível dizer que todas vivam em córregos ou poças. O que veremos a seguir é que elas ocorrem nos principais tipos de água (doce, salobra e…pasmem…marinha!) e em condições completamente diferentes umas das outras.

E por falar em família…como vai a sua? Desejo que muito bem. Em relação às famílias dos killies, não vou me atrever a dizer quantas englobam as espécies de aquário ou quais os nomes mais atualizados, porém, posso arriscar algumas:

1.     Aplocheilidae: possui 5 gêneros e 14 espécies de água doce e estuarina, sendo distribuídas pela África, sudeste da Ásia, sudeste da América do Norte até a América do Sul;

2.     Cyprinodontidae (carrega um nome próximo ao da própria Ordem): muito difundida pelo mundo, ocorre dos USA até o norte da América do Sul, norte da África, Índia Ocidental e Sudoeste da Turquia, nas proximidades com o mar Mediterrâneo. A maioria das espécies (9 gêneros e 136 espécies) é de água doce ou salobra, raramente na zona costeira marinha.

3.     Fundulidae (do Latim fundus = chão, fundo): com apenas 4 gêneros e 44 espécies, a família pode ser encontrada distribuída do Sudeste do Canadá até o Estado de Iucatã no México, incluindo a bacia do rio Mississipi, Bermudas e também Cuba. Muitas das espécies aqui são consideradas eurialinas (adaptam-se a elevados níveis de salinidade);

4.     Nothobranchiidae: com 12 gêneros e 256 espécies, esta é a família de killies de águas continentais africanas (raramente de água salobra), distribuindo-se do sul do deserto do Saara até a África do Sul;

5.     Profundulidae (do Latim profundus = profundo): killies de água doce, existentes na América Central (México, Guatemala e Honduras), os quais estão classificados em apenas 1 gênero com 9 espécies;

6.     Rivulidae (do Latim rivus = rio): a maior família de killies, exclusivamente da América do Sul, possuindo 38 gêneros e 412 espécies;

7.     Valenciidae: detém apenas 1 gênero e 3 espécies (Valencia hispanicaValencia letourneuxi e Valencia robertae), distribuída na Europa (sudeste da Espanha, Itália e Grécia).

“E por que será que o Johnny preferiu não discriminar todas as famílias de Killifish?” Primeiro, vou rememorar algo que gosto de repetir: não tome este artigo como fonte única e inabalável de informação, leia mais e questione. Depois, sempre falamos aqui das constantes atualizações na taxonomia de peixes e pode ser que você encontre informação válida de vanguarda que eu não tive acesso. Minha consulta básica se deu na Fishbase.org, em fevereiro de 2018 – inclusive, eu contatei o site por ter achado um errinho e um dos colaboradores, o Sr. Nicolas Bailly, afirmou em nossa conversa que o gênero Rivulus foi separado em outros, tal qual foi a família Rivulidae, sendo que o site precisaria ser reorganizado. Ou seja, seria bom consultar outras fontes para firmar os conceitos.

Há também que se considerar algo que li num trabalho de Luís Lanés, de 2011, que fala que o esforço de descrição científica das espécies de killifish é recente, sendo que mais de 75% foram descritas de 40 anos pra cá. Neste trabalho há registros diferentes do que observei no Fishbase: diz-se que Nothobranchiidae tem 271 espécies válidas e Rivulidae 324. O que aprendemos com isso? Ler mais e mais é o caminho para ficar informado.

 

O ambiente dos Killies

Certamente seria infâmia descrever um ou dois tipos de ambiente para uma classe que engloba quase 1.300 espécies, especialmente por já termos lido aqui que tem killifish vivendo em água doce, salobra ou marinha. Pensando assim, preferi escolher o que mais se encontra no hobby, o que, ao contrário do que se pode pensar, não reduz muito o número de espécies. Sejam elas africanas ou americanas, podemos até mesmo verificar similaridades nos métodos de reprodução e nos tipos de ambientes escolhidos por tais peixes para viver.

É até interessante pensar nisso: peixes em continentes diferentes com os mesmos hábitos. Há quem sugira a homoplasia, que seriam processos evolutivos distintos que tenham culminado em tais semelhanças. Porém, o foco aqui seria chegar à caracterização do ambiente e refletir isso nos hábitos reprodutivos e alimentares. Neste quesito, destaco os dois pontos de interesse: solo pantanoso e moitas de vegetação.

Isso mesmo, uma grande parte das espécies admiradas pelo aquarismo habitam lugares que poucas pessoas agregariam valor. Especialmente quando tratamos de espécies anuais, a área não passa de um charco preenchido de água na época chuvosa. Inclusive, tal impressão de que o “ambiente é feio”, coloca boa parte das espécies de killies nas listas de espécies ameaças (e certamente nas de extintas, se avaliarmos o endemismo), devido à destruição dos habitats (assoreamento, expansão urbana etc.).

No ambiente, são muitas vezes os killifhes os predadores de topo de cadeia. “Por que?” Imagina que o ambiente, outrora seco, vira um lago. Não terá peixes nem nada. São eles que “surgirão” naquele lugar e estabelecerão as regras.

Essas informações servem para você, que pretende mudar um aquário tipo biótopo. “Como assim?” É possível imaginar que para caracterizar o substrato do aqua você necessite de turfa. Fui rápido demais? Explico. A turfa é, por definição, um material de origem vegetal, parcial e lentamente decomposto em processo anaeróbico, comum em regiões pantanosas ou similares. Esse tipo de solo, macio por natureza, é o tipo de substrato usado por espécies de killies anuais que enterram seus ovos.

Se você fica preocupado com a comida para peixes tão singulares, pense comigo. Como são peixes que precisam “correr” para respeitar os períodos de chuva e seca, tais espécies desenvolveram uma fisiologia capaz de acompanhar as exigências e, para tal, possuem crescimento acelerado (é tão rápido que, dependendo da espécie, em 1 ou 2 meses já estão aptos a reproduzir). Para alimentá-los em conformidade com sua natureza, reflita que ele precisa de fontes de comida altamente energéticas: proteína. Trazendo a imagem de um charco alagado, já começamos a pensar na quantidade de pernilongos e coisas que não gostamos, assim, podemos raciocinar que tal proteína advenha de larvas de mosquito, vermes e zooplâncton, que é aquilo que se desenvolve em ambientes tão dinâmicos – quem cria killifishes sabe da importância do alimento vivo para nutri-los corretamente.

 

Reprodução

Nesta linha de entendimento, considerando um ambiente totalmente adverso, deparamo-nos com suas peculiares formas de reprodução. Antes de mais nada, queria chamar atenção para os ovos. Você já deve ter imaginado que não deve ser um ovinho qualquer, comparável aos demais ovos produzidos por peixes. Killifishes sazonais, em especial, possuem ovos de resistência (ou ovos de diapausa), ou seja, parecidos com ovos encontrados em outros organismos como artêmias ou copépodos. Sim, algo do tipo.

Estes peixes reproduzem-se pressionados pelo fim das chuvas e diminuição do volume das poças. Os ovos em diapausa (dormência) aguardam o retorno das chuvas e nova inundação do local, sendo que o mais espetacular disto é que o desenvolvimento embrionário responde às condições ambientais, evitando que eles se desenvolvam por completo com chuvas passageiras. Inclusive, é com base na constatação da complexidade de uma estratégia como a dos “ovos de diapausa”, que os adeptos das teorias da homoplasia perdem espaço, pois seria improvável que tal característica se desenvolvesse separadamente.

Uma vez entendido como são os ovos, se você pensa um dia em reproduzi-los é vital você conhecer os dois principais métodos de construir um aquário com a ambientação adequada. Nova ressalva: concordo que se tratam de peixes robustos, preparados para desafiar as intempéries, ainda assim, killifishes não estão nas categorias de espécies para iniciantes. Isso porque, para reproduzi-los você precisará criar ambientes controlados, que podem requerer do aquarista meios para manter um determinado pH ou temperatura, além de ter uma estrutura para prover alimento vivo.

Se você escolheu peixes que desovam enterrando os ovos na turfa (1º método), saiba que depois dos rituais de cópula, a turfa precisa ser retirada, espremida para escoar o excesso de água e colocada sobre um pano macio, onde você deverá visualizar os ovos. Constatada a desova, os pequenos ovos precisam ser acomodados adequadamente, sofrendo o processo de secagem (o tempo varia conforme a espécie). Lembre-se sempre de etiquetar os recipientes, apontando a data da desova e, quando você tem muitas espécies, o nome da espécie que desovou.

Há um vídeo legal no youtube com um famoso criador e explorador de Killies, chamado Frans Vermeulen (assista aqui). O vídeo é em inglês e dura 30 minutos. Mesmo se você não entender bem inglês, poderá ver uma cena maravilhosa de killies cruzando em cima de uma bruxinha (2º método) e entender visualmente como se dá a secagem e coleta de ovos postos na turfa. Interessante será também se você souber um pouquinho de inglês e puder ver o quão “singelos” ou mesmo “ignorados” são os ambientes onde vivem os killifishes. Chamo ainda atenção para uma frase dele: “se você não é paciente, você não pode ter killifihes”. É uma máxima que serve, na verdade, para todo aquarismo.

Para reproduzir killies que desovam nos amontoados de vegetação, precisamos fabricar a chamada Bruxinha ou Esfregão (spawning mop, em inglês). Trata-se de um ninho artificial, já falado no segundo artigo sobre estratégias de reprodução, mas que relembro aqui. Para confeccioná-lo use lã acrílica (não deteriora na água) e uma superfície rígida com 10-15cm (pode ser a capa de um CD ou DVD). Com a lã, são dadas de 30 a 50 voltas em torno da superfície. Numa das extremidades deve se passar um laço que envolva todos os fios dali, prendendo-o bem (nesta parte prenda isopor ou rolha para a bruxinha flutuar). Com uma tesoura corte a extremidade oposta de onde está o nó que você acabou de dar. Antes de colocar no aquário, ferva a lã da bruxinha.

Bem, mesmo já tendo me estendido mais que o normal, ainda preciso apresentar alguns dos killies, para dar o gostinho…

 

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Espécies de killifishes: peixes anuais e não anuais

Pirá Brasília (Simpsonichthys boitonei)

 

Para mostrar que minha cidade também tem belezas, preferi começar com um killi anual, endêmico daqui de Brasília e entorno. Infelizmente, a expansão urbana e consequente destruição de seu habitat o tornam muito suscetível à extinção na natureza. Ele é um pequeno e pacífico killi (5,5 cm), pertencente à família Rivulidae, que prefere águas com pH entre 6,0-7,0 e temperatura 20 a 24°C.

 

Aphyosemion australe

Este é um dos meus preferidos, não por ser africano, mas talvez por ter sido um dos primeiros que vi. Membros da família Nothobranchiidae, são comuns as variantes gold e chocolate, ambas com aquela maravilhosa cauda em lira. Os parâmetros e tamanho são praticamente os mesmos do Pirá Brasília (pH entre 6,0 e 7,0 e temperatura entre 22 e 25ºC). É conhecido por ser fácil de criar e não precisar de aquários de grande volume, sendo que um recipiente de 30 litros já é suficiente para abrigar um trio de reprodução: 1 macho e 2 fêmeas; se possível, insira troncos, raízes e plantas para gerar algum abrigo para as fêmeas. Os ovos são depositados tanto no substrato quanto em bruxinhas.

 

Peixe Pérola Argentino Anão (Austrolebias nigripinis)

Este killi é ligeiramente maior (7cm) que os anteriores, mas possui parâmetros bem próximos (pH entre 6,0 e 7,0 e temperatura entre 18 e 22ºC). Trata-se de um belo peixe sazonal da família Rivulidae, ocorrendo na Argentina, Paraguai e Uruguai, o qual usa o substrato para desovar.

 

Em termos gerais para os killies, machos são os mais exuberantes e não há dificuldade de identificação. O aquário desses peixes não requer filtragem elaborada, muitas vezes basta realizar TPAs semanais, de 25 a 30% do volume. Se for inserir filtro, prefira os de espuma, tocados por bombas submersas  de baixa vazão.

Em termos finais, despeço-me sabendo que falei demais, porém, o tema é mais profundo que a rasa água na qual vivem os killies…vale mesmo a pena ir a fundo e descobrir mais sobre eles. Espero que tenham gostado da leitura! Até o próximo artigo!

Sobre o Autor

João Luís (Johnny Bravo) é brasiliense, daqueles que não se conformou só com o lago Paranoá e foi estudar Oceanologia pela FURG/RS, ingressou no mundo do aquarismo como palestrante e autor de textos há 10 anos, onde cambou para o lado dos Ciclídeos Africanos. Articulista das melhores revistas do ramo, escreveu matérias de capa para a Revista AquaMagazine e Aqualon. Nascido em 1975, é aquarista há 40 anos, pois da água veio e nela gosta de estar. E, hoje integra o time de escritores especializados do Grupo Sarlo.