Lagos do Rift Africano

Introdução do autor:

João Luís é oceanólogo, escritor, entusiasta e aquarista desde sempre.

Grupo Sarlo – Junho de 2017

 

Estava aqui pensando como começar o artigo e preferi usar um título mais estilizado. O uso do termo “Rift” é só pra ficar mais bonito e se refere ao falhamento geográfico do nordeste do continente africano, o qual deu origem aos principais lagos daquelas terras. A palavra, vinda do inglês, significa “fenda” ou “falha”. Desta forma dá tempo de introduzir o assunto sem questionamentos. Já pensou se eu começasse com “Lagos da Falha Africana”? Do jeito que as coisas andam hoje em dia, já iriam me perguntar: “Mas os africanos falharam no que? Fizeram transposição de rios e perceberam que erraram? Quem foi o responsável? Está preso?” Na verdade, isso nem envolve humanos, refiro-me as incomensuráveis forças do movimento de placas tectônicas, as quais também atuam por lá.

 

Como a ideia deste e dos próximos artigos é falar de ciclídeos africanos, aproveitando que eu tenho uma quedinha especial por eles, preferi começar com a contextualização de suas origens para adentrar no mundo deles depois.

 

 

Sobre os lagos do rift

 

Bem, antes de mais nada, quando escrevo “lagos africanos”, estou falando dos três grandes lagos do leste africano, localizados na fenda ou na região do Vale do Rift; são eles: Tanganyika, Malawi e Victoria – existem outros, como o lago Turkana, mas não os abordarei. Não se tratam, porém, de 3 corpos d’água que podem ser tratados como uma coisa só, diria até que são tão diferentes quanto o são um gato, um cachorro e um hamster…três mamíferos bem distintos entre si. A diferença começa pela idade: Tanganyka com algo entre 12 e 9 milhões de anos; Malawi, nascido entre 5 e 2 milhões de anos; e Victoria formado entre 750 e 250 mil anos atrás.

 

As características da água desses lagos, normalmente alcalinas e duras, assim como o uso da expressão “sais dissolvidos”, levam muitos a pensar que a região já foi invadida por água salgada, vinda dos mares. Não é verdade. A região dos três lagos gigantes foi formada quando já existia o continente africano. Como isso aconteceu? Bem, pergunto se você ainda lembra sobre a questão do movimento de placas continentais? Isso nada mais é que comparar – a grosso modo – os continentes com pedras de gelo “boiando” na coca-cola. As forças existentes dentro da Terra, bem abaixo da crosta terrestre, são capazes de fazer os continentes se moverem. Até aí ok? O movimento de placas, também chamado de tectônica de placas, não é suave como o exemplo do gelo. São responsáveis por terremotos, criação de montanhas como o Himalaia ou os Andes, e também de fissuras no solo, como a Falha de San Andreas, Califórnia-EUA ou o Rift no leste africano.

 

No caso do Rift Valley, a placa da Etiópia começou a se descolar da placa africana (onde está praticamente todo o resto deste continente). O movimento criou uma cisão na rocha, abrindo uma fenda gigante que praticamente corta de ponta a ponta o nordeste da África. Ela se bifurca em dois braços: o braço Leste, ou da Etiópia; e o Oeste, ou Albertine. O braço leste atravessa a Somália, a Etiópia, o Quênia e chega à Tanzânia. A falha oeste, começa a se manifestar entre o República Democrática do Congo e Uganda, desce ao sul, tangendo Ruanda, Burundi, Tanzânia, Zâmbia, Malawi e Moçambique. Nessa altura é que se formam os lagos Malawi e Tanganyka, ambos compridos e profundos, visto que a fenda é preenchida com água. O lago Victoria, por sua vez, encontra-se num abaulamento do terreno, existente entre os dois braços (Etiópia e Albertine), e por isso não é tão profundo como o Malawi ou Tanganyka, em contrapartida é o mais largo dos três (área superficial).

 

A região é sismicamente ativa, vulcões famosos ali se encontram, como o Monte Kilimanjaro, e boa parte das rochas dali é de origem vulcânica. A partir desta informação é possível entender sobre a química da água dos lagos: as características provêm da própria geologia da região, ricamente constituída de rochas como mármores, silicatos cálcicos, basaltos e uma série de rochas básicas e ultrabásicas. Os lagos têm um sistema de escoamento feito por rios, todavia, a saída mais expressiva se dá a partir da evaporação. Visto isso, podemos logo perceber que em tal processo sai água, mas ficam os sais; isto, somado aos milhões de anos de acúmulo de minerais, resulta nas peculiares condições encontradas.

 

E são justamente tais condições de água que nos obrigam a preparar a água do aquário para receber os ciclídeos africanos dos grandes lagos. Atingir pH, KH e dureza adequados para os parâmetros dos lagos, não é tarefa fácil para boa parte das águas que chegam em nossas casas, na maioria dos casos será necessária a aplicação de sais próprios para Ciclídeos Africanos. Ressalto a importância de diferenciar estes produtos do sal marinho ou, pior, do sal de cozinha. Embora haja necessidade de sais dissolvidos na água dos CAs, o fato não os transforma em peixes de água marinha ou sequer salobra; os sais provindos de marcas confiáveis trazem níveis balanceados dos elementos necessários, presentes no ambiente natural. O uso de certas rochas e substratos podem promover tais condições, porém, não são mecanismos eternos e deve-se ficar de olho, para que no momento que não forem mais eficazes, a aplicação do sal correto deve começar. Há ainda quem faça o uso de sais a partir de fórmulas caseiras, com boa eficácia, mas isto implica em estudar ou se basear em referências confiáveis. O que dificilmente se obterá neste tipo de fórmula, serão elementos importantes, que não o cálcio e o magnésio, que vêm em quantidades reduzidas (elementos-traço).

“Chegada” dos Ciclídeos Africanos que conhecemos hoje

 

Dependendo da fonte consultada, os peixes da família Cichlidae estão estimados numa grandeza entre 1.300 a 1.900 espécies, sem dúvida, representam a uma das maiores famílias de vertebrados em todo globo terrestre. Só nos lagos do Leste Africano, existe algo na ordem de 1.000 espécies. Ainda em termos de estimativa, o TanganyIka suporta cerca de 190 ciclídeos endêmicos (carinhosamente chamados de “tangs”), o lago Victoria com umas 300 espécies endêmicas e o Malawi com cerca de 400, também endêmicos. “Certo, estes são os números, mas sempre foi assim?”

 

Na verdade, não. A especiação começou no lago Tanganyika, um reservatório ancestral de evolução, o mais velho dos três gigantes, há pelo menos 8 milhões de anos e radiou para o Victoria e o Malawi. É um processo complexo e longo, com ancestrais de características específicas ocupando rios e lagos, até chegarem onde estão hoje. O resultado é que centenas de espécies surgiram no último milhão de anos, o que representa a maior taxa de especiação conhecida entre os vertebrados. Para ficar claro, é chamada “radiação” o processo de distribuição e de “especiação” o processo formador de novas espécies.

 

Embora se considere que o Tanganyika seja o responsável por influenciar todas as linhagens de CAs daquele continente, nos tempos atuais, para encurtar a história, lidamos com ancestrais comuns mais recentes. Explico: para os peixes que estão hoje lá nos lagos, a filogenia mostra que há um ancestral para os ciclídeos do Malawi (malawians), um para o Victoria e pelo menos três para o Tanganyika. Não são processos simples, nem previsíveis. Para nossos CAs, a radiação nos lagos se deu em, no mínimo, em três fases distintas, cujas forças seletivas envolvem basicamente morfologia e comportamento. No Malawi elas se apresentam bem claras, boas para a explicação…vamos ver algo sobre elas…

 

A primeira etapa (chamada de “Radiação Primária”) foi a escolha do ambiente. Nela os peixes decidiram se habitariam as rochas (rock-dwellers ou mbunas – no idioma Tonga, do norte do Malawi, que significa “peixe das rochas”) e a areia (sand-dwellers ou também não-mbunas), com a formação de algumas linhagens. Essa primeira divisão ocasionou certas mudanças de comportamento e morfológicas, incluindo mudanças ecológicas, formato do corpo, padrões de pigmentação, comportamentos reprodutivos e preferência por habitat (tal especiação não é específica dos ciclídeos e sim comum a outros grupos de peixes e vertebrados em geral).

 

A Radiação Secundária é marcada pela habilidade de lidar com o alimento. Houve, nesta fase, o refinamento do aparato bucal, no qual os ciclídeos se especializaram na coleta e no processamento da comida. A comida deixou de vir da boca direto para o estômago, sendo agora testada, movida e trabalhada pela mandíbula (maxila e pré-maxila) antes de seguir para o estômago. Detalhe que permitiu aos Ciclídeos atingir um grande espectro de nichos, geralmente ocupados por muitas diferentes famílias, senão ordens, dentro de um ecossistema. Essa é considerada a “grande chave” que possivelmente garantiu o êxito dos ciclídeos, a qual marcou vantagens competitivas sobre os demais organismos e facilitou a colonização dos ambientes lacustres da África.

 

Por fim, na fase de Radiação Terciária, a grande marca foi a seleção sexual realizada pelas fêmeas sobre os machos. Ao que tudo indica, trata-se de um processo de extrema rapidez, que foi além da preferência delas por características como o tamanho e a agressividade deles. A pressão reprodutiva desta fase resultou na diversificação da coloração dos machos, enquanto a maioria das outras características morfológicas permaneceram praticamente inalteradas. E, realmente, quando falamos em cores no aquarismo de água doce, o primeiro patamar de beleza está reservado aos peixes do lago Malawi…os quais só perdem mesmo para os marinhos.

 

Nesses longos ciclos de evolução, os ciclídeos mostraram-se hábeis a sobreviver e passaram por inúmeros testes que a natureza impôs. Algo sobre suas “manhas” já vimos, nos recentes artigos sobre reprodução, mas ressalto uma das características que, independentemente do modo de reprodução escolhido, fez a diferença para essa família: o cuidado parental. No mundo dos ciclídeos há uma grande variedade de métodos de comportamento, sempre muito eficientes para atender o meio ambiente circundante. Podemos até mesmo iniciar algumas elucubrações, pensando, por exemplo, que por ser o Malawi um lago em pleno processo de especiação, todos os malawians são incubadores bucais, salvo algum lapso de memória. Isso, talvez, porque não tenha havido tempo para que as espécies se “acomodassem” em seus nichos. Já os tangs, habitantes do lago mais antigo, onde houve tempo para que “arrumassem a casa”, os CAs se dividem melhor, com peixe incubadores bucais e também aqueles que colocam ovos adesivos em rochas e tocas. Bem, mas chega de generalizar, vamos adentrar os lagos.

 

Como o lago Victoria é o que menos possui espécies para o aquarismo, quando comparado aos demais CAs dos lagos, deixei a última parte deste artigo para eles, reservando mais espaço para os malawians e tangs…nos próximos.

 

 

Lago Victoria

 

O Lago Victoria conta com uma área de superfície de quase 70 mil km2, tornando-o o segundo maior lago de água doce em toda Terra e o nono em termos de volume de água. Como não ocupa uma fenda, e sim um abaulamento do terreno, é um lago raso, com não mais que 84m de profundidade (média de 40m). Ele se encontra entre 3 países: Tanzânia, Uganda e Quênia.

 

Enquanto falamos com orgulho dos lagos, quanto às maiores taxas de radiação de espécies de ciclídeos, lamentamos ser justamente no Victoria o pior dos mundos para um ciclídeo viver. Não é exagero desta vez. O lago sofre um dos mais impactantes processos antrópicos (ação humana), os quais resultam na perda de espécies, com notória pressão sobre os ciclídeos. O aporte de esgoto não tratado (nutrientes em excesso – nitrogênio e fósforo), despejos industriais e domésticos, lixiviação dos solos agricultáveis e seus agrotóxicos para dentro do lago e pesca predatória estão entre os principais malefícios que debilitaram a capacidade de reação do Victoria.

 

O lago adoeceu e não foi capaz de reagir contra a invasão de peixes, proporcionada pela própria ação humana, que visava a melhoria da produção da aquicultura e da pesca esportiva. Julga-se que inúmeras de CAs tenham desaparecido pela ação dos invasores. Dentro dos principais vilões estão elencadas 4 espécies de tilápias (Coptodon rendalli, C. zilliiOreochromis niloticus e O. leucostictus), as quais chegaram para competir pelos recursos com as espécies nativas e também para hibridação com a tilápia nativa (Oreochromis esculentus). Ainda assim, nada se compara à introdução da Perca do Nilo (Lates niloticus), um peixe que pode atingir o comprimento de um homem adulto e de hábitos extremamente vorazes.

 

De forma geral, aquários montados para o Lago Victoria são de águas alcalinas e duras, sendo que o pH deve ficar entre 7,2 e 8,6, com temperaturas variando entre 24 e 26°C. Visto que, por vezes, você encontrerá sais de ciclídeos que tenham no rótulo “Victoria e Malawi”, sugiro seguir as instruções de uso, pois certamente a quantidade para este será menor do que para o Malawi. Por que? Simples, porque os parâmetros do Victoria são menos altos.

 

Nem adianta falar muito dos peixes deste lago, pois são raríssimos no aquarismo brasileiro. Assim, decidi destacar 2 deles, um muito comum e outro que conheço apenas de fotos: Astatotilapia latifasciata Pundamilia nyererei.

 

Astatotilapia latifasciata

 

Também conhecido como Zebra Obliquidens no hobby, esta espécie extremamente comum no aquarismo brasileiro, não é endêmica do lago Victoria, pois ocorre em toda bacia hidrográfica do lago Kyoga, por sua vez, partícipe da grande rede hidrográfica do Victoria.

 

Carnívoro, prefere zonas vegetadas, e assim como os ciclídeos do Malawi, as fêmeas realizam a incubação bucal. É um peixe pouco agressivo, em comparação aos outros CAs, e se encaixa dentre os CAs anões, pois atinge cerca de 13cm.

Pundamilia nyererei

 

Pra mim, um dos CAs mais belos do Victoria. Trata-se de uma espécie de “mbuna” do lago Victoria, por preferir ambientes mais rasos e rochosos (não são chamados assim, usei o termo apenas para fazer uma comparação). Também conhecido como Zebra nyererei (pelo visto eles gostam do nome zebra), este ciclídeo pode ser encontrado nas pesquisas sob o gênero Haplochromis, uma vez que, por estar em processo de revisão, cientistas preferem usar o nome antigo antes que a nova denominação seja validada.

 

Trata-se de uma espécie onívora, que também realiza incubação bucal pelas fêmeas, cujo comportamento é mais agressivo que o do Zebra Obliquidens, mesmo sendo consideravelmente menor: tamanho em cerca de 10cm.

 

Parece pouco, né? E é mesmo… por isso que coube no final de um artigo. Não é somente porque já me excedi no texto, mas no Brasil os peixes do lago Victoria são pouco conhecidos e ainda menos comercializados. Uma pena, visto que tal lago está em processo de declínio, com suas espécies sendo dizimadas. Mas pode deixar que eu compenso nos outros, que na verdade faltarão páginas para citar a imensa quantidade de belas espécies. Espero que tenham gostado da leitura, espero todos no próximo artigo!

Sobre o Autor

João Luís (Johnny Bravo) é brasiliense, daqueles que não se conformou só com o lago Paranoá e foi estudar Oceanologia pela FURG/RS, ingressou no mundo do aquarismo como palestrante e autor de textos há 10 anos, onde cambou para o lado dos Ciclídeos Africanos. Articulista das melhores revistas do ramo, escreveu matérias de capa para a Revista AquaMagazine e Aqualon. Nascido em 1975, é aquarista há 40 anos, pois da água veio e nela gosta de estar. E, hoje integra o time de escritores especializados do Grupo Sarlo.