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Julho de 2018
  

A esta altura, já sabemos qual filtro escolher para o nosso aquário e qual a função de cada uma das mídias filtrantes, assim, podemos agora pensar em como decoraremos nosso aqua de modo a adequá-lo às exigências dos peixes e também as nossas.  

Adianto que este texto não é contra escafandristas, barcos de porcelana naufragados ou conchas que soltam bolhas – até porque o aquário é de quem comprou e o mantém – mas sim uma forcinha para quem pretende criar um ambiente favorável para os peixes, independentemente se o hobby tenderá para o lado artificial ou natural “da força”.
  

Decoração artificial

  
Aproveitando que citei alguns itens, e para não parecer que condeno o uso daquilo que é artificial, destinei um espacinho para falar desse tipo de decoração. Em primeiro lugar, digo que “claro que é importante”, pois você pode ser um aquarista que pretende montar um aquário divertido para que seu filho veja, ou não tem tempo para cuidar de plantas naturais ou, simplesmente, queira um aquário assim.
  
Um dos casos mais comuns de uso de decoração artificial, e que ganha espaço cada vez maior no mundo aquarístico, é a utilização de painéis de fundo decorativos, em relevo e feitos de resina, os quais imitam fundos rochosos de forma realística. Alguns são realmente magníficos e promovem aquele visual impecável de rocha, sem aumentar o peso do aquário; cabe ao aquarista apenas colocar uma ou outra rocha, para fazer tocas e melhorar o layout.
  
E por falar em real, algumas marcas produzem plantas que após algum tempo imersas, com algas cobrindo a superfície das folhas, parecem extremamente fidedignas. Plantas artificiais provavelmente são os itens artificiais mais utilizados e são muito úteis para pessoas sem tempo para cuidar delas (podas, fertilização, CO2 etc.) ou para aqueles aquários onde os peixes sejam malcomportados (cavam o substrato, mordem as folhas etc.).
  
Como dicas para a escolha de artigos de decoração artificial, recomendaria usar o mesmo método que costumo abordar nos meus textos: que peixe terei em meu aquário? Se a resposta incluir corydoras, cascudos ou botias, por exemplo, peixes que gostam de esconderijos, você deve adquirir objetos que contenham cavidades. Esta é a deixa para aquele tronco de resina, o Titanic naufragado ou um iglu. Se o seu projeto, no entanto, mira as crianças da casa, num caso assim, a parte lúdica certamente prevalecerá, sendo que o baú de tesouro, o Nemo ou um tubarão serão bem-recebidos no contexto.
  
Ainda assim, para nenhum dos casos acima está implícito o descuido com o bem-estar dos peixes. A única regra que eu diria que existe, pensando exclusivamente nos peixes, é: adquira produtos com origem reconhecida. “Por que?” Porque as empresas especializadas farão os itens de forma que não soltem tinta (ou outras toxinas), nem tenham bordas e arestas cortantes, primando pela integridade e saúde dos animais.
  

Layout natural

  
Este é o tipo de aquário que, quando bem montado, cativa a atenção de quem passa os olhos sobre ele. É caracterizado quando o aquarista utiliza na montagem itens de decoração não artificiais, como plantas e troncos naturais, assim como rochas…obviamente, falando somente de aquarismo de água doce.
  
A seguir veremos algumas observações sobre esses itens, as quais servirão para ajudar você a escolher, de acordo com o aquário que você tem ou pretende montar.
  

Rochas

  
O que seria, por exemplo, considerar uma rocha adequada? Colocar uma rocha no aquário não se resume apenas em achá-la bonita, jogar uma aguinha de torneira para tirar o pó e está tudo certo. Existem rochas que alteram os parâmetros da água, tanto acidificando-a quanto alcalinizando-a, assim como as que não interferem.
  
São sempre preferíveis as rochas ditas “neutras”, ou seja, aquelas que não interagem com a água. De antemão já dá para citar tipos de rochas que são amigas, como a ardósia ou o granito. Ademais, a preferência recai sobre rochas constituídas de quartzo e você pode encontrá-las sob a forma de quartzo puro, madeira petrificada (uma variedade que se encontra em lojas de aquário de vez em quando e se trata do resultado de um processo geológico que cristalizou a madeira, substituindo a matéria orgânica por quartzo) ou, às vezes, geodos, sendo que às vezes estas carregam um fator questionável, que é a composição daquela capa ao redor, que pode conter minerais que se solubilizam na água.
“Mas e aí, como sei se vai afetar minha água num caso assim?” Bem, para entender esse “medo” todo sobre a pedra a ser colocada, saiba que o maior deles reside no fato da rocha poder soltar elementos como potássio, magnésio ou cálcio. No caso destes dois últimos (normalmente existentes na forma de carbonatos) poderá haver alteração de pH e dureza, algo prejudicial para alguns tipos de aquário. Pois bem, para saber se ela vai mexer nos parâmetros da água apanhe vinagre, ou mesmo o acidificante de aquário, e pingue algumas gotas sobre a rocha, se espumar não serve para a maioria dos aquários.
  
“Jogo fora as pedras calcárias?” Não, elas têm uso. Certos tipos de aquário, como os de Ciclídeos Africanos dos grandes lagos aceitam elas “de boas”…inclusive, por certo tempo, você poderá economizar no uso de sais para aquário de CAs. O fato é que em alguns meses elas param de atuar a contento e, como os parâmetros dos CAs precisam ser altos, você necessitará recorrer a alguma ajuda, nem que seja um buffer no começo.
  
Três coisinhas para considerar quando se usam pedras maiores no aquário: 1) use um anteparo entre a rocha e o vidro do fundo, para não criar alguma pressão diferencial; 2) quartzo é mais duro que o vidro e pode riscá-lo, cuidado ao manuseá-lo quando ajeitando a rocha no aquário; 3) quanto mais rochas, mais zonas mortas (sem circulação de água) serão formadas, pense num método de fazer a água circular adequadamente, seja com o uso de alguma bomba submersa a mais, seja com um sistema UGJ (Under Gravel Jet).
  

Substrato

  
Não se iluda pensando que substrato é tudo a mesma coisa. Tal como as rochas, a “areinha ou pedrinha” do fundo também podem influenciar nos parâmetros da água e segue-se os mesmos princípios. Tanto é verdade que um tipo de substrato muito procurado é a areia de filtro de piscina, pois são grãos uniformes de quartzo, ou seja, inerte quando em contato com a água.
  
A mesma linha de pensamento se estende para aquários de tipos específicos, como o de Ciclídeos Africanos, o qual possui substratos próprios, capazes de auxiliar na manutenção de parâmetros próprios para tais aquários, ou para aquários plantados, com elementos pertinentes para fertilização do solo e respectiva absorção pelas raízes das plantas.
  
Aqui a dica fica apenas no sentido de buscar manter a altura da parte posterior maior que a da frente, para que a sujeira que por ventura venha se acumular, aconteça num ponto em que o aquarista possa visualizar, facilitando, assim, a limpeza.
  

Troncos e Plantas

  
Para troncos e raízes não há mistério. Deve-se optar por aqueles exemplares mais retorcidos (para efeitos estéticos) e que estiveram submersos (jamais pegue um que esteja num córrego e ponha-o diretamente no aquário…a quantidade de parasitas e seres indesejados que se espalhará pelo aqua o assustará; trate-o devidamente antes de sua inserção). Dentre os utilizados, um dos mais procurados é o de aroeira.
O item “plantas” seria o de maior especificidade neste contexto decorativo, uma vez que entre as plantas existem diferentes exigências quanto à nutrição (raiz ou folha), iluminação (temperatura de cor, horas de incidência luminosa etc.), pH, CO2, tipo de solo e nos limita, inclusive, na escolha de espécies e número de peixes.
  
Como esperado, num aquário onde impera o crescimento de plantas, a atenção volta-se aos fatores que as farão ficar exuberantes para a devida apresentação. Todavia, não adianta nada você escolher todas as plantas de um só tipo e plantá-las de qualquer jeito, pois tudo que você conseguiria de elogio seria um sonoro “Nossa que legal, esse aquário está super…verde!”. Certamente ninguém que se dedique a cultivar um aqua plantado quer isso como comentário.
  
Por isso que ao escolher plantas, você deve optar por diferentes estilos, tal como: 1) distintas cores e formas (ex: a vermelha Rotala macrandra e a verde Rotala mexicana); 2) feitios de propagação (moitas, aderência em pedras ou troncos, tapete sobre o substrato, crescimento vertical ou propagação pela superfície); 3) velocidade de crescimento (ao pensar no layout, procure colocar as de crescimento rápido atrás da formação).
Assim, você coordena o efeito desejado, tampando o vidro traseiro com as plantas ao fundo, que cresceram rápido, o musgo tomando um dos troncos que você colocou, o carpete de Marsilea preenchendo o substrato à frente, algumas Cryptocoryne salpicadas pelo aquário, Blyxas formando moitas aos pés das plantas cumpridas no fundo e algumas Nymphaea lotus destacando-se em pontos estratégicos, com seu vermelho vívido. “Mas existe estratégia para se decorar um aquário?” Sim, matematicamente falando.
  

A Proporção de Ouro

  
A estratégia (ou em grego, strateegia, ou latim strategi, ou francês stratégie) se baseia em alguns elementos e um cálculo. Estão inclusos na harmonia do layout a escolha de pedras, plantas e troncos que proporcionem contrastes de cores. Pode ser que um granito avermelhado não ganhe muito destaque ao lado de troncos com nuances de cores similares, algo que uma pedra cinza poderia conquistar. Sacou?
Já no ato de alocar os objetos de decoração, quando você for pensar em como dispor as rochas pelo aquário, por exemplo, escolha usar mais de uma rocha e que elas possuam tamanhos distintos. Meça o centro do aquário e posicione a rocha principal – normalmente a maior, mais bonita e intrincada – ligeiramente para a esquerda (ou direita). Ao seu redor, triangulando a formação, posicione pedras menores (acima peguei o exemplo de rochas, mas pode ser o seu tronco favorito). Estas dicas tentam resumir a chave-mestra para aqueles que trabalham com aquapaisagismo, a partir do que se chama “proporção de ouro”.
Em termos exatos, você deve dividir o comprimento do aquário pelo valor “1,618” para definir onde colocar o objeto principal. Por exemplo, se seu aquário tem 1 metro (100 cm), a rocha escolhida deverá ficar mais ou menos entre 61 e 62 cm (o resultado da divisão é 61,80 cm). Tal proporção é reconhecidamente o “local ideal” para se colocar o objeto principal de admiração do layout (se for um tronco com projeção longa e pontiaguda, deixe com que a parte de maior destaque fique dentro dessa medida).
É por isso que quem trabalha com aquapaisagismo é tanto matemático quanto artista. No caso de aquas plantados, o conhecimento das exigências das plantas acaba também sendo essencial, visto que para que elas alcancem o seu máximo esplendor requererão condições específicas e, infelizmente, nem todas vivem sob os mesmos tipos de água, luz e nutrientes.
  
O aquarismo em si é uma galeria de arte e também uma academia, um hobby que considero completo, pois passa pelos macetes, pelo conhecimento, pelo cultivo de faculdades humanas importantíssimas nos dias de hoje, como a paciência e a amizade (tenho grandes amigos de anos, só por causa do hobby), culminando na beleza, não só do aquário, mas na vida em movimento e na vida em volta. É um “passatempo” que quanto mais você aprende (de um potencial quase infinito), mais legal fica.
Espero que as linhas escritas auxiliem a você a dar um “tapa no visual” do seu aquário, lendo mais e buscando informações completas sobre como melhorar a harmonia desse sistema aí. No mais, obrigado por mais esta leitura! Até a próxima! “May the force be with you.” (que a força esteja com você).
  

Sobre o Autor

 
João Luís (Johnny Bravo) é brasiliense, daqueles que não se conformou só com o lago Paranoá e foi estudar Oceanologia pela FURG/RS, ingressou no mundo do aquarismo como palestrante e autor de textos há 10 anos, onde cambou para o lado dos Ciclídeos Africanos. Articulista das melhores revistas do ramo, escreveu matérias de capa para a Revista AquaMagazine e Aqualon. Nascido em 1975, é aquarista há 40 anos, pois da água veio e nela gosta de estar. E, hoje integra o time de escritores especializados do Grupo Sarlo.