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É o segundo, e último, texto da série, mas facilmente poderíamos elencá-lo como o prioritário, tamanha é a importância da filtragem biológica para o aquário, ou tal qual algumas pessoas preferem, é o “coração do aquário”. Por outro lado, sabemos que aquarismo é um conjunto de melhores práticas e tecnologias aplicadas, e nesse sentido fica perigoso tentar destacar um assunto como mais importante, sabendo que cada um dos assuntos, em separado, também é importantíssimo – está tudo interligado. De qualquer forma, o intuito do artigo é mostrar que “saúde e longevidade de peixes (e demais seres)” estão vinculadas, sobremaneira, à qualidade da água ou, mais especificamente, à filtragem biológica.

  

Ok, para começar achei legal voltar um pouco. Só para lembrarmos direitinho do que se trata, antes de falarmos das características das mídias a serem usadas, rememoremos quem são as atrizes principais deste contexto: as bactérias nitrificantes.

  

Os primórdios de um aquário – o ciclo do nitrogênio

Todo aquarista quando começa no hobby, e é bem orientado, recebe o alerta: “cuidado com os primeiros dias desse aquário novo, pois os picos de amônia são perigosíssimos e podem matar peixes!”. Alguns ouvem e não colocam peixes até terem os níveis tóxicos controlados, outros ignoram um dos mais importantes conselhos e conhecem o desgosto e a tristeza de perder sua fauna.

  

No fundo, no fundo, você conhece o que está por trás deste “mistério”? Eu explico. Já temos a noção que a matéria orgânica em nossos aquários pode advir de comida que sobrou, animais ou plantas em decomposição, fezes e qualquer outro tipo de excreção dos animais. Uma vez presente no aquário, começa a decomposição. Acontece que essa degradação costuma ser feita com a geração de produtos altamente tóxicos aos peixes, como a amônia (NH3) e o amônio (NH4+), isso porque quando o aquário é novo ainda não estão plenamente estabelecidas as bactérias nitrificantes…e os peixes estarão ameaçados! Serve o adendo para informar que a amônia em pH básico, é consideravelmente mais perigosa que a mesma substância em pH ácido, devido às ligações químicas que levam à formação de Hidróxido de Amônio (NH4OH, uma base solúvel e fraca).

  

Voltemos ao foco…falávamos das bactérias nitrificantes. Considerando que haverá O2 (oxigênio) na água, estas bactérias, mais precisamente às pertencentes ao gênero Nitrosomonas, são as responsáveis por iniciar a ciclagem saudável ao bem-estar geral, atuando sobre o nitrogênio ao formar o ácido nitroso (HNO2), que ao ficar livre na água se parte em H+ (hidrogênio) e NO2– (nitrito). Todavia, se acabasse aí, ainda estaríamos em apuros, uma vez que nitrito é uma substância tóxica. Nos aquários cuja colonização por bactérias nitrificantes esteja madura, ou seja, em que tenha havido o tempo ou condições adequadas para sua instalação, estarão também presentes as bactérias do gênero Nitrospira, que dão sequência ao processo, transformando o nitrito (NO2–) em nitrato (NO3–). Este é o ponto em que podemos nos sentir seguros, entendendo que o ciclo está acontecendo corretamente. O processo será ascendente até quando houver oxigênio disponível.

  

A ideia também não se conclui com a ciência de que seu aquário, com as colônias funcionando, estarão acumulando apenas compostos menos agressivos do nitrogênio. O acúmulo contínuo levará ao saturamento de compostos e respectivos problemas associados e, por outro lado, se houver falta de O2 o processo se dará em sentido inverso, fazendo do nitrato, nitrito e mostrando outras facetas que o ciclo do nitrogênio possui, como a denitrificação, cujo ápice é a produção de nitrogênio gasoso (N2). Estes, porém, não são comentários para levar ao desespero, a limpeza rotineira e as TPAs (trocas parciais de água) auxiliarão a não atingir os patamares críticos, assim como a dosagem dos números populacionais de peixes, quantidade e qualidade da comida e por aí vai. Você tem o controle na maior parte das vezes!

  

“Quanto tempo demora para ter as bactérias trabalhando pra mim de forma eficiente?” De 15 dias a cerca de 1 mês e meio, é o prazo que as bactérias nitrificantes precisam para a se estabilizar e começar a trabalhar a contento. É quando dizemos que o aquário está “ciclado”. Ainda assim, existem produtos que aceleram o ciclo do nitrogênio, favorecendo tanto a composição das bactérias em si, trazendo consigo cepas específicas para a colonização das superfícies ou para, diretamente, decompor o excesso de matéria orgânica, além de existirem produtos que diminuem ou anulam a toxicidade dos compostos que falamos aqui.
“E como sei se meu aquário está adequado nesses parâmetros?” Atualmente não é mais usual a utilização de peixes resistentes para testar os níveis de amônia (nunca deveria ter sido instituída esta prática, mas…). Tampouco é possível saber se há compostos nitrogenados tóxicos na água pela mera observação ocular. A única maneira segura de saber os níveis é com a utilização de equipamentos e produtos químicos que façam tal leitura. Adquira um kit de testes de amônianitrito e nitrato, de marcas já referenciadas no mercado, e não fique mais em dúvida.

  

Acho que agora já podemos falar das mídias em si…

  

As mídias para filtragem biológica

Vimos anteriormente que, na presença do oxigênio, as Nitrosomonas e Nitrospira começam a transformação requerida e fundamental ao aquário. Partindo desse preceito, começamos a entender porque sempre ouvimos que o local onde as mídias de filtragem biológica devem estar, precisam receber um suave, mas ininterrupto fluxo de água. Além disso, preferivelmente devem estar em locais escuros e limpos (livre de sujeira, que já deve ter sido coletada pela filtragem física). É fato que elas colonizam toda e qualquer superfície que encontram, mas os melhores resultados se dão nas condições mencionadas.

  

Nesta linha é que as empresas desenvolvem seus produtos, considerando as formas mais hidrodinâmicas possíveis (onde a água pode passar sem maior resistência, como os anéis cilíndricos ou hexagonais, esferas etc.) ou com superfícies não lisas, mas sim porosas ou “ásperas”, para que haja, num nível microscópico, muito mais área a ser ocupada pelas bactérias (é o que embasaria o conceito de “superfície de contato” = quanto maior, mais bactérias). Ao se falar de colônias de bactérias isso seria o resumo do que nos interessa: fluxo d’água e superfície.

  

“O que esperar dessas biomídias? Pode colocar em qualquer filtro?” Sobre a superfície dessas mídias será formado o biofilme, que nada mais é do que uma película viva que concentra o crescimento dessas bactérias que estamos falando. Quanto à pergunta sobre caber em qualquer filtro, se houver nele algum compartimento que comporte a mídia, sim; exceções devem ser pontuadas apenas para ilustração, já que não faria sentido, como num filtro de espuma ou de areia fluidizada.

  

Um dos tipos de “biomídia” mais utilizados é o anel de cerâmica. São estruturas porosas, com um canalículo no centro, o qual visa a passagem de água; de fácil manuseio, tamanho diminuto e grande eficiência. O segredo de tal eficiência está oculto justamente na porosidade, pois como vimos, significa maior área para colonização de bactérias. E aqui uma dica importante: não deixe acumular sujeira na cerâmica, uma vez que ela entupiria os poros e prejudicaria o próprio fluxo de água (e oxigênio), a cerâmica deve trabalhar livre de contratempos. Para comodidade, os anéis podem ser acomodados em bags ou diretamente no compartimento destinado a eles.
Usei muito esta mídia em filtros como canister e o FBM (Filtro Biológico Modular), para o qual sempre acho válido fazer um aparte, pois ele só não é bonito, no resto é fantástico! Por ser “modulável”, é você quem escolhe sua altura e, assim, o número de compartimentos para levar as mídias. O que também lhe permite usar bombas submersas mais ou menos potentes, também conforme sua configuração de filtro. Essa mistura de versatilidade e eficiência, realmente me cativou.

  

Já as bioballs são mais comuns nos filtros do tipo sump, por serem mais volumosas. São muito variadas em seus formatos (nem sempre são “balls”, podendo ser cilindros ou poliedros diversos) e cores, podem flutuar ou permanecer no fundo, serem acondicionadas em completa submersão ou abaixo de uma cascata de água; existem bags para serem colocadas ou podem ser postas ocupando todo o compartimento. São bem versáteis e inúmeros projetos as consideram, especialmente nos maiores.

  

Não é difícil encontrar críticas sobre o uso das bioballs, no que se refere a eficiência, comparada à cerâmica ou sobre as formas corretas de uso, porém, justiça deve ser feita e sempre é bom fazer ponderações positivas. Elas são volumosas, no conjunto da obra, e o número usado normalmente deve ser maior para promover os efeitos desejados. Ao falar assim, isso me remete a aquários volumosos. Consideremos agora o uso de biomídias que flutuem (um dos tipos existentes), ao se fazer manutenção no sump provavelmente elas não estarão acumulando sujeira (por flutuarem), o que as torna fáceis de manter e sem os problemas que a sujeira acumulada poderia atribuir à filtragem. Se houvesse cerâmica no lugar e ela ficasse suja, provavelmente seria necessária uma grande operação para lavar a mídia, podendo comprometê-la – tamanho o volume de cerâmica que deveria estar lá.

  

“Que tipo de ponderação é essa, Johnny? Quer dizer que bioball é melhor que cerâmica?” Não. Se tem uma coisa que não cabe aqui é dizer que “isso é melhor que aquilo”. As biomídias do tipo bioball não foram todas desenvolvidas exatamente com os mesmos propósitos e diferem em alguns aspectos. “Ruim” não é uma característica que define uma bioball que tem por trás estudos e tecnologia, o que talvez falte aos que tentam usar são projetos corretamente dimensionados. Tudo que o aparte feito queria dizer é sobre a singularidade de cada projeto: se pensado e dimensionado corretamente, dará certo.

  

Ambas categorias de biomídias fazem o que tratamos aqui: filtragem biológica. Muitos aquaristas se dividem ao tentar definir qual é a melhor, mas acredito que o objetivo é alcançar a qualidade de água pretendida. Conheço boas e más referências para quaisquer das discussões que possamos levantar a esse respeito, no entanto, boas marcas trazem consigo menos dúvidas, riscos e problemas. Para tirar a sua própria conclusão, leia, analise e conheça outras pessoas que utilizam. Não tenha pressa para ser de algum dos times…se der, nem seja, mantenha sempre a mente aberta.

  

O alerta aqui fica para a sensibilidade desse ambiente biológico. Utilizar medicamento direto no aquário, especialmente os que sejam pouco seletivos, por exemplo, quanto ao tipo de bactéria que mata; exposição das mídias a ponto de deixar que sequem; lavagem das mídias com água corrente (clorada)…e poderíamos pensar em outros…são todos procedimentos que devem ser evitados, salvo alguma excepcional condição. Sempre pense em como preservar a integridade da colônia. Vai lavar porque entrou muita sujeira? Use apenas a água do próprio aquário; sifone. Vai usar remédio no aquário inteiro? É possível remover a colônia para outro lugar? Sei que às vezes não tem jeito mesmo, e tem que começar tudo de novo, mas sempre faça perguntas a si mesmo sobre a necessidade, antes de agir.
E assim finalizamos o entendimento sobre a filtragem e o uso das mídias que nos auxiliam nessa tarefa. Espero que alguma reflexão útil tenha sido trazida e que isso ajude na sua vida aquarística.
No mais, obrigado pela leitura e até o próximo artigo! Inté!

   

Sobre o Autor

João Luís (Johnny Bravo) é brasiliense, daqueles que não se conformou só com o lago Paranoá e foi estudar Oceanologia pela FURG/RS, ingressou no mundo do aquarismo como palestrante e autor de textos há 10 anos, onde cambou para o lado dos Ciclídeos Africanos. Articulista das melhores revistas do ramo, escreveu matérias de capa para a Revista AquaMagazine e Aqualon. Nascido em 1975, é aquarista há 40 anos, pois da água veio e nela gosta de estar. E, hoje integra o time de escritores especializados do Grupo Sarlo.