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Introdução do autor:

João Luís é oceanólogo, escritor, entusiasta e aquarista desde sempre.

Grupo Sarlo – Setembro de 2017

 

Mesmo diante da vasta quantidade de informação hoje disponível no mundo, há quem ainda veja os peixes como seres inexpressivos que aceitam qualquer coisa, não reclamando de maus-tratos e vivendo em qualquer tipo de água…obviamente, podendo comer qualquer coisa. Ainda bem que nós hobbystas não somos assim, não é mesmo? Sabemos que peixes são seres vivos que merecem todo respeito e cuidado, já que estão sob nossa tutela; e isto envolve alimentá-los bem.

 

E é justamente disso que falarei neste artigo: os bastidores que o alimento percorre dentro do peixe, tentando mostrar porque importa a gente pensar direitinho em como alimentar nossos companheiros.

 

Você certamente já ouviu “o peixe tal come somente vegetais” ou “aquele ali é carnívoro”. Ok, mas por que não se poderia dar carne ao vegetariano? São problemas ideológicos ou de outra natureza que adviriam em caso de se ministrar comida errada ao peixe? O que difere um peixe carnívoro de um herbívoro? Estas são algumas das perguntas que tentarei elucidar nos parágrafos vindouros…bora lá!

 

 

Aspectos gerais sobre alimentação

 

O começo e o final do processo, todo aquele que já observou um peixe saberia dizer: “o peixe abre a boca para comer e depois elimina o excedente quando faz o nº2”. Tudo bem…ok…porém, nossa viagem hoje é interna e nela vamos ver por dentro o que há entre a boca e o poro anal do peixe, para ampliar um pouquinho os conceitos.

 

Em termos gerais e amplos, num peixe ósseo (a grande maioria em nossos aquários), o alimento segue um caminho pré-determinado no sistema digestivo, começando pela boca, sendo testado na faringe, encaminhado pelo esôfago, recebido pelo estômago, aproveitado pelo intestino e descartado pelo ânus. Ou simplesmente:

 

Boca Faringe Esôfago Estômago Intestino Ânus

 

“Johnny, peixes não liberam enzimas, nem têm mais órgãos ligados ao sistema digestivo?” Sim têm…aí em cima é o tubo digestivo, o canal por onde o alimento é transportado…uma linha geral, para fixarmos na mente.

 

Existem inúmeros formatos e funcionalidades dos órgãos, dependendo da espécie. Tão distintas que não é possível fazer num único desenho, ou em alguns poucos, um modelo que fale exatamente como são os peixes por dentro. Nosso manequim, que posou para a foto, mostra o basicão.

 

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A maior parte dos peixes (mais de 60%) consome mais de um tipo de alimento (onívoros) ou mesmo se adapta a outro, quando o ambiente o obriga; ainda é verdade que muitos mudam o tipo de alimento ao longo de sua vida, conforme o estágio de desenvolvimento. Lembro que ser demasiadamente especializado pode acarretar numa chance maior da espécie não vingar neste nosso mundão caótico.

 

Porém, como aquarista, que não é o cara que testa ou força o peixe a algo contrário a sua natureza, o ideal é observar como é o peixe adulto daquela espécie para saber o que ele necessitará em termos nutricionais. O que quero dizer com isso? O peixe já formado traz consigo uma série de informações impressas em seu sistema digestório (a começar da boca), as quais refletem o tipo de alimento preferido, são características morfofisiológicas adquiridas ao longo da evolução. E falo de algo que vai além de “boca voltada pra cima, come na superfície” e “boca voltada pra baixo, alimenta-se no fundo”.

 

“Johnny…e as enzimas e outros órgãos?” Calma, tô chegando lá!

 

São, basicamente, quatro tipos de peixes: herbívoros, carnívoros, onívoros e detritívoros (iliófagos). E dentro destes grandes grupos, cada adaptação ao ambiente tem por trás diferenciações morfofisiológicas. Acessoriamente ao que delineamos, para continuar trabalhando o alimento durante o percurso pelo tubo digestório, temos estruturas como dentes faringianos, fígado, pâncreas (muitas vezes “misturado” com o fígado: hepatopâncreas), o baço, cecos pilóricos e mesmo vesícula biliar. Viu, não é tão simplório como parecia!

 

Visto isso, podemos incrementar o entendimento “boca  nº2”. Considerando que a espécie pode variar (ou mesmo nem possuir) alguma das estruturas, veremos agora que um peixe (vou por números para você acompanhar as etapas): 1) coleta a comida (por sucção, mordida, raspagem etc.) com seu aparato bucal, 2) levando-a para a faringe, onde ela será previamente selecionada; 3) o que interessa avança pelo esôfago até o 4) estômago (órgão que varia absurdamente de tamanho), onde o processo químico começa a funcionar, decompondo o alimento. 5) No início do intestino, propriamente dito, é que, talvez, a 

parte mais importante

 acontece, especialmente quando estão presentes os cecos pilóricos. Embora o nome seja meio engraçado, tais estruturas, que assumem formas de sacos (vista interna) ou dedos (vista externa), otimizam incontestavelmente a absorção de nutrientes, via liberação de enzimas e aumento da área superficial do intestino. Nesta importante seção, o peixe aproveita proteínas, lipídios, carboidratos, aminoácidos e íons diversos. 6) O que não foi aproveitado no intestino, será eliminado. “Aaaaaaaaaaah, então é verdade…tem diferença entre os peixes! Agora até acredito que existam peixes herbívoros e carnívoros, não é só papo de vendedor.” Tem diferença sim e não é pouca coisa!

 

 

Herbívoros vs. carnívoros

 

Um peixe herbívoro é aquele cuja base de sua alimentação é até de 90% de matéria vegetal, o que inclui algas unicelulares, filamentosas e plantas aquáticas; o restante do percentual é preenchido com alimento de origem animal ou detritos em geral. Já os carnívoros são os que invertem isso, sendo sua base alimentar composta de insetos, crustáceos, moluscos e mesmo peixes; em resumo, aqueles que se alimentam quase que exclusivamente de outros animais.

 

Internamente, os tipos de peixe também são diferentes, algo que começa já nas primeiras etapas da digestão. Peixes carnívoros costumam ter tanto dentes quanto mandíbulas mais desenvolvidos, enquanto os herbívoros possuem dentes menores e estruturas na faringe e esôfago, capazes de trabalhar o material fibroso. Quando passamos desta parte, fica ainda mais interessante. Nos carnívoros o estômago tem, normalmente, capacidade de se distender, além de ser comparativamente maior, ao passo que nos herbívoros este órgão pode nem mesmo existir. Sim, peixes sem estômago! “Nunca vi peixe sem estômago, Johnny, the Liar!”. Não é mentira não. Já viu, por acaso, um peixinho dourado? Sim, um japonês/kinguio. Já? Pois aí está um peixe sem estômago.

 

Quando a dieta do peixe se volta para micro-animais e grande parcela de vegetais, por exemplo, é preferível ter um longo intestino do que um estômago. Lembro que é no intestino que são retiradas as qualidades do alimento e já que é mais demorado retirar algo do material vegetal, um caminho mais longo e lento ajuda em tal absorção de nutrientes. Assim, em termos de morfologia interna, peixes herbívoros possuem um longo (se esticado dá entre 2 e 5 vezes o comprimento do corpo) e sinuoso intestino, ligado diretamente ao esôfago, enquanto que os carnívoros, dispõem de estruturas menores e sem muitas curvas.

 

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Se você se pergunta agora sobre os onívoros, que são a maioria, procure estabelecer um raciocínio que mescla as duas descrições: de herbívoro e de carnívoro. Incontáveis opções de meio-termo aparecerão, pois eles são mesmo o meio do caminho.

 

 

Química nutricional

 

Agora que você sabe que existe mesmo diferença interna entre os peixes é plausível se pensar que uma ração não deve ser escolhida pelo princípio do preço. “Por que?” Porque existem rações desbalanceadas e balanceadas, genéricas, para grandes e pequenos peixes, para peixes herbívoros e por aí vai. Preço não deve ser o carro-chefe deste quesito.

 

Vimos anteriormente que os hábitos alimentares de algumas espécies de peixe denotam excêntricas mudanças morfofisiológicas. É certo que muita gente não sabe que o Kinguio não possui estômago e, tampouco, pensou que ele poderia sofrer de alguma deficiência alimentar por causa da ração oferecida. A dica é: conheça seu peixe e compre ração adequada para ele.

 

A despeito da qualidade das rações, existem elementos químicos, que sequer lembramos dos nomes (selênio, manganês, flúor, cobre, iodo etc.), mas que são complementares à dieta, possuem papéis importantíssimos no metabolismo e fisiologia em geral. Por isso, os suplementos alimentares próprios para peixes têm seu papel no hobby; muitas vezes são vendidos em soluções para serem despejados na água, donde os peixes absorverão. Eu citei o Kinguio, mas poderia ter citado algum ciclídeo africano ou peixes comuns, pois todos os peixes requerem nutrição adequada.

 

E, aproveitando o momento de falar de nutrição, por que não pensar em “antibióticos” naturais? Sabemos que o alho expulsa parasitas do corpo e funciona muito bem nos peixes também. Criadores de Discus ou Apistos dirão que já compram ou manufaturaram alimento, misturando alho para combater ou evitar vermes. Nutrição completa é tão importante quanto zelar pelos parâmetros da água. Além de ser muito triste perder peixes por doenças e outras deficiências, isso torna o seu hobby mais caro; trata-se de uma “fórmula” direta: nutrição boa = mais cores e disposição = menos doenças = maior tempo de vida.

 

 

Processos de excreção

 

E no final do túnel (literalmente), tudo aquilo que não foi captado pelo intestino, o excesso de muco acumulado no processo, bactérias, células mortas e demais detritos, formam as fezes, que serão excretadas pelos movimentos peristálticos. Peixes carnívoros deixarão mais dejetos, se comparados aos herbívoros; peixes grandes ou que comem muito sujarão bastante; elevado número de indivíduos, implica em aumento dos níveis de compostos indesejáveis…enfim, onde quero chegar?

 

Para nós aquaristas a história do processo alimentar não acabou na excreção, pois se nada fizermos haverá o comprometimento da água. Num aquário, que é um sistema fechado, é você quem terá que lidar com o resultado do trâmite alimentar. O acúmulo de substâncias orgânicas e sua decomposição mudará fatores cruciais da água, como as concentrações de compostos nitrogenados (amônia, amônio, nitrito e nitrato) e pH, dentre outros.

 

A manutenção constante se coaduna com a boa alimentação que você ministra e se traduz no equilíbrio desejado. Duas principais ações precisam ser garantidas. A primeira trata da remoção física do material orgânico acumulado, o que pode ser feito por meio de um sifão e com a filtragem mecânica (esponja, perlon etc.). O uso de filtros é indispensável, seja aquários grandes ou pequenos, bastando pegar aconselhamento sobre qual tipo é mais indicado para você. A outra é a remoção bioquímica, com a utilização de mídias filtrantes que forneçam base para as bactérias nitrificantes se estabelecerem. Tal como os cecos pilóricos aumentam a área de absorção de nutrientes no intestino de um peixe, o uso de mídias aumenta a superfície de bactérias benéficas que atuarão em prol da qualidade da água do aquário. Elas são desenvolvidas com muitas reentrâncias e poros que aumentam a superfície do material e todo esse espaço é colonizado pelas bactérias. As trocas parciais de água finalizam esta etapa, equilibrando as concentrações de substâncias dissolvidas.

 

 

E assim chegamos ao fim de outro artigo…espero que tenham gostado! Nos vemos no próximo, até lá!

Sobre o Autor

João Luís (Johnny Bravo) é brasiliense, daqueles que não se conformou só com o lago Paranoá e foi estudar Oceanologia pela FURG/RS, ingressou no mundo do aquarismo como palestrante e autor de textos há 10 anos, onde cambou para o lado dos Ciclídeos Africanos. Articulista das melhores revistas do ramo, escreveu matérias de capa para a Revista AquaMagazine e Aqualon. Nascido em 1975, é aquarista há 40 anos, pois da água veio e nela gosta de estar. E, hoje integra o time de escritores especializados do Grupo Sarlo.