Os ciclídeos africanos: haps

Introdução do autor:

João Luís é oceanólogo, escritor, entusiasta e aquarista desde sempre.

Grupo Sarlo – Julho de 2017

 

Ainda dentro da temática dos lagos do Rift, especificamente no lago Malawi, chego hoje num grupo informal de ciclídeos africanos, chamado Hap. Trata-se de uma abreviação que deriva do vocábulo Haplochromine, o qual, por sua vez, é uma denominação que envolvia uma porção de ciclídeos no gênero Haplochromis. Acontece que tal gênero era usado como cabide para pendurar tudo que havia entre os CAs “incubadores bucais coloridos que descendiam de um único ancestral”, pelo menos assim se pensava antes…mas com o passar dos anos viram que eles são muito mais legais e complexos que isso! Haplochromisequivale a gêneros como Moenkhausia, dos caracídeos, ou Cichlasoma dos próprios ciclídeos, que são táxons inchados carecendo de aprofundamentos e revisões. Depois das inúmeras divisões, ainda restam muitos Haplochromis, boa parte no lago Victoria e bacia do rio Nilo, mas não restritos a estes; outros corpos d’água também os possuem, como os lagos Kivu, George, Albert, Edward etc. Não há como deixar de registrar o impacto empreendido pela Perca do Nilo (Lates niloticus), espécie invasora que falamos noutro artigo, a qual foi responsável pela extinção de muitas espécies de Haplochromis no lago Victoria.

Mas nem tudo é tristeza! Estamos aqui para falar de antigos Haps, que ganharam novos nomes, embora tenham ficado com o apelido, e moram no lago Malawi. Dentro dos Haps, no sentido latu sensu, estão tanto as Aulonocara quanto os demais peixes “não-mbuna” do lago…aproveitei que no passado algumas Aulonocara (A. steveni e A. stonemani, dentre elas) estavam sob o gênero Haplochromis e coloquei tudo num mesmo artigo. Outros peixes que já estiveram sob a nomenclatura Haplochromis, são: Otopharinx, Dimidiochromis, Protomelas, Scieaenochromis, Copadichromis, Placidochromis, Nimbochromis, Cyrtocara…estes foram apenas os citados, pois praticamente todos os gêneros dos malawians hoje postos no grupinho dos Haps, já foram Haplochromis no passado…e hoje em dia não tem nenhum.

Vamos, então, começar o mergulho falando dos mais belos e coloridos dentre os Haps…

 

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Aulonocara, o pavão do Malawi

O termo “pavão” não é uma alegoria inventada por mim, é a tradução literal do termo inglês “peacock”, que é como são conhecidos mundo a fora os peixes do gênero Aulonocara. Certamente você verá que só alguns Johnnys por aí é que os colocariam num artigo de Haps, pois eles têm tanta presença, que estão destacados em seu próprio grupo.

Não há no meio dos CAs nada mais colorido que os machos pertencentes ao gênero Aulonocara. Cores vibrantes como o azul, o amarelo e o vermelho criam designs únicos. Dentre as espécies mais comuns e chamativas, estão: A. baenschi, A. huerseri, A. jacobfreibergi e A. stuartgranti, com suas inúmeras variedades.

E por falar em variedades, saiba que a “OB” (aquele tipo caracterizado por manchas escuras que salpicam o corpo do peixe) nas Aulonocara é derivado de mistura não natural entre as espécies. Ao que tudo indica a hibridação se deu, inicial e provavelmente, com fêmeas de mbuna, e depois com outros CAs do Malawi, como o Sciaenochromis fryeri, ou de fora dele, como o victorian Paralabidochromis chromogynos. Eu já coloquei meus pontos de vista sobre a questão do hibridismo noutro artigo, neste aqui vou me dedicar exclusivamente aos Haps…puros.

Como não poderia ser diferente, o gênero Aulonocara é composto por incubadores bucais maternais, cujos machos são solitários e as fêmeas podem ser assim ou viver em pequenos grupamentos. Dentro do quesito agressividade, estão num grau moderado, permitindo ser misturado com outros CAs de mesmo porte e agressividade.

Lembram-se que falei, no artigo anterior, sobre filhotes de alguns mbunas se parecerem com as mães para diminuir a pressão/agressividade sobre eles? Então, como via de regra, vemos isso para os Haps. Vemos praticamente em todas as espécies machos coloridíssimos e fêmeas e juvenis de cores entre o castanho e o cinza-prateado. Dentro do grupo dos Peacocks, isso é particularmente importante para se saber. “Por que?” Porque é comum o cruzamento acidental de espécies diferentes que estejam num mesmo aquário. A identificação da espécie a partir de fêmeas ou juvenis que não expressam suas características sexuais secundarias, é tarefa dificílima. Assim, se você não quiser perder uma espécie, produzindo indivíduos híbridos, atente para juntar exemplares de uma só espécie; se ainda assim quiser arriscar procure por Aulonocaras com padrões de cor bem diferentes uns dos outros.

“É fácil reproduzi-los?” Não são difíceis de procriar. O território de um macho de Aulonocara fica em cerca de 50cm e próximo às rochas…sim, ele é um rock-dweller ou, pelo menos, o são as espécies mais comuns no aquarismo. Como qualquer Hap, eles gostam de haréns e a proporção mínima recomendada é de 3 fêmeas para 1 macho. Não são peixes grandes, nem pequenos, a média de tamanho gira em torno dos 13 a 18 cm, mas são ativos e aquários não podem ser pequenos.

Precisam do ambiente arenoso, mas as rochas, como vimos, são necessárias (é uma proteção para as fêmeas que incubam ou estão indispostas para cruzar). A areia tem um papel importante, pois na natureza comem invertebrados que vivem nos interstícios do substrato. É dito que permanecem imóveis milímetros acima da areia, esperando detectar algum movimento e quando detectam disparam um instantâneo “nhac”, abocanhando aquele segmento de areia…a qual é expelida pelas guelras, retendo apenas o alimento. Entretanto, tal comportamento não é observado em aquário, com ressalva para o hábito de “comer a areia”, pois este é visto…ficam naquela de comer e cuspir areia.

Este hábito peculiar está relacionado com o nome Aulonocara, que deriva do grego “aulos”, que significa flauta ou cachimbo e “kara”, que significa cara ou face. Poros dos ossos suborbitais são tão evidentes, que foram associados aos buracos de uma flauta e na mandíbula eles estão ligados a tubos sensitivos, na carne do peixe, capazes de detectar o movimento abaixo.

No que concerne à alimentação, dá pra perceber que eles precisam de bastante de proteína animal, né? Ainda assim, não deixe de ministrar ração que possua spirulina. Minha única dica ficaria no âmbito das marcas renomadas, cujas fórmulas já vêm balanceadas e o resultado da boa alimentação se reflete diretamente nas cores.

 

Os Haps

Não dá pra falar somente de Aulonocara, mesmo que elas mereçam. Os Haps vão muito além de um só gênero e pra caber num artigo precisei selecionar peixes muito especiais, dentre os que mais gosto e os mais populares entre os aquaristas…virou, na verdade, um guia rápido de consulta de tais espécies.

Se você ainda está em dúvida sobre os parâmetros de água para manter Haps, recomendo os mesmos que pus no artigo dos mbunas: pH 8,2-8,5, GH 10-12 e KH 8-10. Características assim, normalmente, conseguimos somente com o uso correto de uso dos sais específicos, tanto os que atuam no pH e KH como o que modificam o GH . O tamanho do aquário aconselhado é grande (1,50m +), sendo que a dimensão do “grande” fica proporcional aos hábitos da espécie e a sua agressividade. Tanques assim requerem filtragem reforçada (8 a 10 vezes o volume de água por hora), a considerar que os ciclídeos de forma geral, são metabolicamente bem ativos; recomenda-se também bombas de circulação de alta vazão .

 

Cyrtocara moorii

 (Blue Doplhim)

Um dos meu preferidos entre os Haps, não só pela sua cor azul anil, mas especificamente pela “testa de golfinho” que adquirem durante sua maturidade. É uma espécie monomórfica (sai da regra geral dos Haps), onde machos e fêmeas ficam azuis e cabeçudos; embora seja difícil, o tamanho, o comportamento e o tamanho do calo (não é regra) ajudam a diferenciar – de porte mais avantajado que a Aulonocara, nesta espécie os machos (20cm) são maiores que as fêmeas (16cm). São peixes micropredadores, de comportamento gregário e agressividade moderada.

 

Copadichromis azureus

O gênero Copadichromis é composto de micropredadores que se alimentam na coluna d’água sobre o plâncton…e isso ocorre de uma forma sui generis: a boca projeta-se para frente e suga os bichinhos, como um aspirador. Ainda assim, recomenda-se Spirulina…essa recomendação sempre vem associada quando o peixe tem tons elétricos de azul.

São antiquíssimos no hobby e, como as Aulonocara, também possuem um clubinho próprio, chamado Utaka. São de agua aberta, porém, gostam sempre de morar em locais com “vista para as montanhas” (perto das rochas). Para eles, os aquaristas recomendam aquários mais altos. O C. azureus é um dos mais famosos do grupo, sendo que os machos adquirem coloração azul elétrica.

Com tamanho em cerca de 19cm, são ótimos parceiros para Aulonocara e C. moorii e contraindicados para misturas com outros Copadichromis, devido aos altos riscos de hibridização. Como é uma espécie de agressividade menor que as já citadas, também é passível de ocorrer hibridação das fêmeas desta espécie com, por exemplo, Aulonocara.

 

Protomelas taeniolatus

Mais conhecido como Red Empress, este maravilhoso CA é um micropredador, que fica em média nos 16-18 cm, mas podendo ir além disso. Precisa de amplos espaços para o nado e para seu território de reprodução, detalhe que dificulta a existência de outro macho no aquário – apenas aquários realmente grandes poderiam comportar mais de um macho. Para alimentá-lo, adquira alimento rico em proteína e também spirulina.

Sciaenochromis fryeri

Vendido sob o codinome Eletric Blue, acredito que demorará anos e anos para que seja desfeita a confusão com outra espécie – muito menos bonita, por sinal – chamada Sciaenochromis ahli. Na maioria dos casos, especialmente no Brasil, quando você vir na loja “ahli eletric blue”, a chance maior é que o peixe seja o S. fryeri. Se o aquário que for comportá-lo estiver na categoria dos “grandes”, compre, é magnífico…o azul que os machos emanam é simplesmente indescritível!

Até aqui haviam sido elencados peixes de agressividade moderada, todavia o S. fryeri é, provavelmente o mais agressivo dentre eles. Interessante notar, para captarmos o “porquê”, que eu também citei micropredadores e este aqui é um predador de carteira assinada, ele caça outros peixes, com especial gosto pelos utakas (mas também têm uma quedinha por mbunas). Certamente, se tivesse tamanho maior, eu o colocaria na “classe” seguinte, mas por chegar aos 20cm, em média, ele fica do lado de cá…onde podemos considerar a mistura com os peixes de cima.

 

Predadores com P maiúsculo

Ainda faltaria citar peixes maravilhosos, como os Placidochromis ou Otopharynx, porém, é preciso dar encaminhamento para o artigo e ainda restam peixes que caem no gosto popular não abordados no texto. Dentro dos Haps, há uma categoria de peixes que preferem comer peixes do que tê-los como coleguinhas de aquário. Tratam-se de peixes de porte maior, agressividade exacerbada, com estratégias para emboscar ou surpreender seu lanchinho. Pouco recomendados para quem começa.

Normalmente preferem nado livre e longos percursos, praticamente não possuindo relação com a proximidade das rochas. Para um aquário com estes peixes, algumas regras devem ser observadas: aquários realmente grandes e companheiros de porte médio a grande, pois os pequenos serão engolidos…literalmente.

 

Dimidiochromis compressiceps

 (Eye Eater ou Biter)

O comedor/mordedor de olhos do Malawi, não tem este nome em vão, enquanto ele não cresce o suficiente para engolir um peixe inteiro (ele chega nuns 30cm), seu treinamento se dá sobre os olhos dos peixes. Trata-se de um CA de corpo compresso lateralmente e uma boca longa e afilada. Tal característica serve para se enfiar em reentrâncias de rocha e tirar de lá suas presas.

O macho adquire a cor azul metálico, enquanto as fêmeas (e juvenis), ligeiramente menores, mantêm o corpo prateado, com uma linha escura da cabeça ao pedúnculo caudal.

 

Nimbochromis livingstonii

Um CA grande, todo manchado, girando em torno dos 28-30cm, agressivo e cheio de personalidade. O fato mais curioso sobre este peixe é o seu método de caça, ao visualizar suas presas (filhotes de peixe), finge-se de morto, aguardando os curiosos chegarem. A rápida abocanhada costuma ser fatal. Possui um parente próximo e de hábitos, temperamento e agressividade similares: o Nimbochromis venustus.

 

Eu não consigo não falar demais quando o assunto são os CAs…e, neste caso, estou ciente de que não foi possível revelar o quão amplo é o mundo dos Haps ou a magnitude de sua beleza. No próximo artigo iremos tocar as águas do lago Tanganyika e ver o que tem lá e que vale a pena replica em nossos aquários…então, até lá…obrigado pela leitura!

Sobre o Autor

João Luís (Johnny Bravo) é brasiliense, daqueles que não se conformou só com o lago Paranoá e foi estudar Oceanologia pela FURG/RS, ingressou no mundo do aquarismo como palestrante e autor de textos há 10 anos, onde cambou para o lado dos Ciclídeos Africanos. Articulista das melhores revistas do ramo, escreveu matérias de capa para a Revista AquaMagazine e Aqualon. Nascido em 1975, é aquarista há 40 anos, pois da água veio e nela gosta de estar. E, hoje integra o time de escritores especializados do Grupo Sarlo.