Os ciclídeos africanos: mbunas

Introdução do autor:

João Luís é oceanólogo, escritor, entusiasta e aquarista desde sempre.

Grupo Sarlo – Julho de 2017

 

Não esqueci nenhuma letra não, a palavra é mesmo mbuna (lida “ambuna” ou “umbuna”). Estes são Ciclídeos Africanos – CAs do lago Malawi, cujo nome, literalmente, significa “peixe da rocha”, de acordo com o idioma Tonga, do norte do lago. E por que peixe da rocha? Devido a sua relação de dependência com elas. Para eles, ficar longe de uma rocha equivale a uma pessoa extremamente envergonhada sair sem roupa pela rua…pra acontecer deve haver uma pressão considerável. Tal curiosa relação foi responsável por uma das ondas de especiação, que separou os ciclídeos de lá entre os das rochas e os de nado livre, que ocupam a areia sobretudo.

Posso garantir, no entanto, que não é a relação com a rocha que tornou os mbunas peixes tão atraentes para o aquarismo e sim as cores. Juntamente com os Haps e Peacocks, grupos que veremos outros artigos, os mbunas representam os mais coloridos peixes de água doce, perdendo (se é que dá pra usar este verbo nesta comparação) apenas para os peixes marinhos. E este foi, justamente, o gancho que me trouxe para o mergulho mais profundo que fiz num hobby. Tudo bem que a palavra que define minha primeira experiência foi exatamente a mesma que afasta a maioria dos neófitos que chegam nessas praias: frustrante.

Lembro-me bem. Guardei meu precioso dinheiro, para poder montar algo correto e fui à loja, decidido a me informar por completo (erro 1). Lá vi as rochas brancas e cheias de reentrâncias que me recomendaram (os “esqueletos” de corais; erro 2), a halimeda que faria o fundo do meu aquário (erro 3) e os três maravilhosos Pseudotropheus demasoni POMBO (erro 4), os quais me cativaram por completo. Eles viriam a habitar um aquário de 80x50x40cm, 160 litros (volume bruto). “Mas, o que tem de errado nisso?” Já vimos que CAs são peixes de água doce e rochas de coral e halimeda pertencem ao ambiente marinho. Sem querer entrar nos detalhes de tal completa descaracterização de um layout do Malawi, o que mais me marcou foram os peixes. Enquanto cresciam, observei que meus 3 POMBOS adquiriram diferentes formas e tamanhos. Um deles era realmente um POMBO, o segundo virou um Maylandia lombardoi, mudando de cor completamente, e o terceiro viveu anos e anos em completo obscurantismo…e provavelmente era um híbrido de Maylandia zebra com outra coisa (minha esposa o chamou de tutti-fruti, mesmo inocentemente ela pode ter acertado, visto que é capaz que ele fosse o fruto de várias espécies).

Quando descobri isso, fiquei muito chateado com o lojista, mas ao invés de desistir fiz o contrário, fui estudar para nunca mais cair no “conto do mau lojista” e também poder ajudar outros a não cair na mesma decepção. O que me conforta é que isso já beira os 15 anos e muito já evoluiu, embora todo aquarista deva, obrigatoriamente, ler muito e se informar, antes de comprar algo – infelizmente há lojistas que preferem não perder a venda, apenas o cliente (totalmente contrassenso, ao meu ver).

 

As espécies de Mbuna

“Quem são os mbunas? Como são? Que cores têm?” São muitas mesmo, não dá pra tratar delas num único artigo (talvez nem um só livro dê). Se você já “curiô” pelo mundo dos CAs, deve ter ouvido nomes como “auratus”, “pombo”, “saulosi”, “lombardoi” e por aí vai…são estas denominações ligadas ao próprio nome científico ou mesmo à região donde vem; dificilmente eles têm nomes populares. Algumas denominações dos lugares onde são encontrados misturam os idiomas inglês e local (Nkhata Bay, Pombo Rocks, Mbamba Bay ou Likoma Island), ou são apenas locais (Chipoka, Cobue ou Msobo), ou ainda só inglês (Lion’s Cove). Por isso que vemos, ao ir comprar ou tentar identificar uma espécie, nomes como: Pseudotropheus demasoni POMBO, Cynotilapia afra COBUE, Labidochromis sp. MBAMBA ou Labidochromis caeruleus LION’S COVE; eles não são escritos em itálico e, muitas vezes, colocados em letras maiúsculas (não é regra).

Embora não sejam cientificamente consideradas, essas diferenças comerciais, que apontam a origem dos malawians, não são desprezíveis não, pelo contrário, já podem nos dar alguma noção das próximas especiações do lago…a considerar que especialmente o Malawi possui registros de especiações extremamente recentes e que um dos grandes passos da radiação de espécies se deu com a escolha do macho pela fêmea. Entre si, tais variedades possuem distinções de cores de nadadeira, manchas e pigmentações diversas, ou seja, são detalhes importantíssimos para os CAs. Nossos olhos também agradecem!

Chega de blá-blá-blá e vamos ver alguns deles…vou começar pelos que gosto mais:

Cynotilapia afra COBUE

Provém de uma região de nome Cobue. O peixe apresenta o corpo azulado, com barras verticais escuras (uma definição que veremos em vários dos mbunas), sendo que no macho, quando ele passa adquirir algum aspecto mais dominante, o dorso adquire uma coloração amarelada. Tem agressividade moderada e é de tamanho pequeno, fica nos 10-11 cm.

Pseudotropheus demasoni POMBO

Espécie monomórfica, de cor azul vívida, com barras verticais escuras (também denominada BB, do inglês Barred Blue). É um dos menores mbunas, com o tamanho em torno dos 8 cm, porém, é considerado de alta agressividade. É oriundo de uma região mais ao norte do lago, margem leste, chamada Pombo Rocks.

Pseudotropheus saulosi

Espécie dimórfica, onde o macho se parece muito com o POMBO, tanto no tamanho como nas cores, azul e barras verticais escuras, enquanto a fêmea e os filhotes são completamente amarelos. A espécie é linda, especialmente por essa última característica, não é tão agressiva quanto os demais mbunas e são considerados gregários, podendo ocorrer em grandes cardumes no ambiente natural.

Labeotropheus trewavasae

Nem tão agressivo, nem tão pequeno, este peixe pode chegar a uns 16 cm. Possui mais de 10 variedades, mas a coloração mais comum nos machos não é novidade, é a BB, sendo que nesta espécie (não só nela) temos o fenômeno da coloração salpicada, cujas fêmeas normalmente ficam todas salpicadas de pontos, com uma cor laranja ao fundo, que chamamos OB (do inglês Orange Blotch). Também é interessante observar o formato da boca, cujo “lábio” superior projeta-se para baixo, deixando-o beiçudo – tal característica está associada ao hábito alimentar, que é a raspagem de algas incrustadas em água rasa, deixando o peixe em posição defensiva contra predadores aéreos, já que ele não precisa se inclinar para comer.

Maylandia zebra

É um dos mbunas mais comuns no hobby, assim como o é sua distribuição no lago, ocorrendo em praticamente todo Malawi. Sua roupa é similar a dos demais já descritos aqui (BB), no entanto, ele é maior e mais agressivo que seus antecessores, com cerca de 15cm. Nas suas pesquisas, você pode encontrá-lo sob o gênero Metriaclima, nome ainda não validado, ou mesmo Pseudotropheus, nomenclatura obsoleta, já que foi reclassificado.

Maylandia lombardoi

Cor: azul com barras verticais escuras…achou que eu estava exagerando quando disse que o padrão BB era comum? Viu?…deixe-me, porém, completar aqui: o padrão BB é comum em jovens e fêmeas, quando o macho assume posições de liderança, seu corpo começa a ficar laranja – composição de cores, entre macho e fêmea, oposta ao P. saulosi. É um belo peixe, porém maior, do porte dos Maylandia, com uns 15cm, e bem agressivo.

Pseudotropheus flavus

Adivinha a cor? Barras verticais escuras e corpo Amarelo (te enganei). Não é grande (uns 13cm) e tal coloração – diga-se de passagem, bem vistosa – ocorre só nos machos, pois as fêmeas e filhotes possuem tonalidades castanhas com tênues reflexos amarelos. Destaquei esta espécie porque, além de maravilhosa, a essa altura você já está pensando que mbuna significa “azul com barras verticais escuras” e isso não seria verdade.

Para ser justo com a beleza dos mbunas, à medida que nossos olhos se adaptam às nuances, os peixes deixam de ser iguais…conhecendo os peixes eu não teria sido, tão grotescamente, enganado. A fase mais difícil para identificação, normalmente é a juventude, pois quando estão adultos, com as (benditas) características sexuais secundárias destacadas, vemos como são totalmente diferentes.

Melanochromis auratus

É um peixe que admiro a beleza, mas que não me arrisco a colocar ou recomendar para aquários inferiores a 300 litros, tamanha sua agressividade – mesmo não estando dentre os maiores, mais ou menos 13cm. Fêmeas e filhotes são amarelos, com barras Longitudinais escuras, sendo que os machos dominantes assumem uma cor marrom.

Reparou que normalmente repito que fêmeas e filhotes possuem coloração similar? Acredita-se que isso se dá porque a pressão (agressividade) é menor sobre as fêmeas, que não precisam disputar incessantemente pelos recursos e pela posição no rochedo; a coloração acaba não atraindo violência exacerbada sobre os pequenos alevinos.

Ainda há outros excelentes peixes para citar, como o Pseudotropheus socolofi, Gephyrochromis moorii ou Labidochromis caeruleus; alguns cuidados a dar, referentes ao ímpeto do Pseudotropheus crabro ou o Pseudotropheus cyaneorhabdos (Maingano); e mesmo desaconselhar o Melanochromis chipokae…mas lembrei que textos para internet precisam ser mais comedidos, com menos de 2 horas de leitura…portanto, vamos falar da casa dos mbunas.

 

Montando um aquário para Mbunas

Rochas. Item imprescindível para um aquário de mbunas e por isso resolvi começar por ele. Como dica geral, diria “prefira as rochas calcárias” e, se não as tiver, escolha alguma que não altere os parâmetros da água. O detalhe para este quesito é que não falo de um único monólito no meio do aquário e sim dezenas delas, de modo a formar uma muralha, cheia de reentrâncias. Devem estar apoiadas num piso firme – eu usava antigas placas de filtro biológico de fundo, que estavam aposentadas – para não gerar pressão diferenciada sobre o vidro. O problema de deixar sobre a areia é o perigo de desabamento, que pode ocorrer quando o CA cavar a areia.

De cara, já adianto uma coisa que pode estar passando pela sua cabeça: “com tanta pedra serão formadas zonas mortas, não vai juntar sujeira no aquário?” Sim vai. E isto faz parte de uma das linhas de argumentos que dão base ao surgimento da doença “Malawi Bloat” – é simples: água parada, por causa das zonas mortas (sem circulação) + matéria orgânica (fezes e restos de comida) = proliferação de bactérias e outros patógenos. “Oh céus, o que fazer?” Neste tipo de layout rochoso, impera a atenção ao segundo ponto crucial para um aquário de mbunas: a necessidade de fazer a água circular por entre as rochas. Sendo assim, você pode instalar um sistema de canos debaixo do substrato, com saídas de água que fiquem por entre as rochas (vide o esqueminha que fiz). Chamamos isso de UGJ (Under Gravel Jet). Quando eu fiz pro meu Malawi, usei cano PVC de 1 polegada, que serve direitinho na saída da bomba SB 2000. Como a bomba puxa forte e não pode ficar sem proteção, acoplei ela no meu Filtro Biológico Modular – FBM. Se você for fazer, por favor, confirme a bitola do cano com a saída da bomba que você possui, antes de se aventurar. Isso era para um aquário de cerca de 300 litros e ainda possuía um canister para otimizar a filtragem (dimensione o poder de filtro em 8 a 10 vezes o volume de água por hora).

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Os parâmetros da água do Malawi são altos, quando comparados aos demais aquários de água doce; eu os mantinha mais ou menos assim: pH 8,2-8,5, GH 10-12 e KH 8-10. Esteja você usando substrato próprio para esses aquários ou rochas calcárias que afetem tais parâmetros, algum dia essa influência cessará e você precisará atuar. O método mais seguro e prático é o uso dos sais e dentre eles existem àqueles atuantes no pH e KH e outros no GH . As quantidades utilizadas dependerão da água que você usa em casa (meça tudo antes da aplicação) e do produto adquirido.

O bom de se ter um aquário somente de mbunas é que eles partilham métodos aproximados de nutrição: para a maioria a base da dieta é vegetal, pois eles são raspadores de algas incrustradas nas rochas. Por isso dietas com ração de Spirulina, resolverão seu problema. Por outro lado, eu não sou adepto do radicalismo alimentar dos mbunas, deixando-os apenas com dieta vegetal. Pensa comigo. Quando ele está ali raspando a alga da rocha, será que não há nenhum copépodo ou vermezinho? Aí você pensa: “por que raios o Johnny começou a falar de vermes e zooplâncton?”

Os mbunas estão entre os principais alvos do Malawi Bloat, que vimos no artigo de doenças, e muitos aquaristas suspeitam que um dos mecanismos, digamos assim, que disparam tal enfermidade é a proteína animal. Porém, eu mesmo levanto um questionamento nisto aqui, uma vez que é dificílimo afirmar se estamos falando da quantidade ou do tipo de proteína ingerida. Isso porque sabemos que espécies como o Maylandia zebra já foram flagrados, na natureza, deixando o conforto da pedra para coletar zooplâncton na coluna d’água…disse “coletar” e não comer acidentalmente. Tal comportamento nos dá dicas de que eles precisam de proteínas e por isso é bom nutri-los corretamente, sem radicalismo para nenhum dos lados.

Conhecer a espécie mantida é fundamental para o sucesso.

“E quantos colocar?” Eu não tenho fórmula para calcular quantos mbunas posso pôr num aquário. Para mim, aquários grandes (450 litros para cima), apresentam um ambiente bem mais acolhedor que um médio (200 litros). O espaço disponível, de alguma forma, ajuda a dissipar a agressividade. Exemplos: eu recomendaria um M. auratus para um aqua de 450 litros, mas não para um de 200. A mesma coisa para um P. demasoni POMBO. Compreende? A agressividade, às vezes, é exacerbada em peixes nervosinhos por natureza, só pelo fato do espaço total ser menor.

São famosos os aquários tipo “All-Male” (só machos), que são os mais coloridos, e isso é outra coisa a se observar. Se o aquário vier a ter fêmeas, é bom saber que sua presença acirra as disputas. Outra coisa, serão peixes gregários (como P. saulosi ou G. moorii)? Se sim, quer dizer que suportam a presença de congêneres. E a cor, como é? Todos possuem barras verticais e são azuis, ou serão variados em cores e disposição das barras? Parecem bobagens, mas não o são. Quando um peixe vê um “espelho” na sua frente, o instinto básico diz que ele é um competidor direto, o que também aumenta o grau de competição. Variedade é importante.

Enfim, para povoar um aquário de mbunas eu: 1) escolheria a espécie que mais me agrada; 2) aprenderia sobre seus hábitos e temperamento; e 3) veria quais seriam os companheiros mais recomendáveis para conviver com ela, considerando, sobretudo, a agressividade…o número é o mais difícil de falar, assim, de forma genérica…o fato é que eu não usaria aquários menores que 200 litros para mbunas (e estou sendo compreensível).

Você pode perceber que eu não mencionei plantas naturais, né? Então, além dos altos parâmetros que permitem pouquíssimas plantas, os CAs costumam fuçar o fundo e isso as prejudicaria. Iluminação, porém, não é desprezível, CAs possuem um aguçado aparato de visão e precisam de iluminação boa. Além disso a iluminação correta propicia realce na coloração para que você os veja mais luminosos.

 

Nossa, passei da conta…eu que não tenho mbunas há anos sinto muita saudade quando falo deles. Um dia ainda montarei novamente um Malawi…bem, encerro aqui mais um artigo, do qual espero terem gostado. Até o próximo! Obrigado pela leitura!

Sobre o Autor

João Luís (Johnny Bravo) é brasiliense, daqueles que não se conformou só com o lago Paranoá e foi estudar Oceanologia pela FURG/RS, ingressou no mundo do aquarismo como palestrante e autor de textos há 10 anos, onde cambou para o lado dos Ciclídeos Africanos. Articulista das melhores revistas do ramo, escreveu matérias de capa para a Revista AquaMagazine e Aqualon. Nascido em 1975, é aquarista há 40 anos, pois da água veio e nela gosta de estar. E, hoje integra o time de escritores especializados do Grupo Sarlo.