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Maio de 2018

 

 

Sou aquarista há 792 mil anos e vejo que o tema sobre filtragem está sempre nas manchetes atuais. Tanto é verdade que é super (ultra, mega) comum você entrar numa loja e ouvir o lojista explicando para um cliente sobre os filtros e os componentes que vêm dentro. No entanto, o que é razoavelmente incomum é ver pessoas valorizando ou mesmo utilizando mídias filtrantes dentro de seus filtros. Alguns acham besteira ou perda de dinheiro, ou compram produtos sem qualidade (o que faz com que fiquem ainda mais avessos ao uso de tais recursos) ou simplesmente acham que não funciona

É seguro, porém, dizer que hoje em dia o cenário é muito mais positivo que algum tempo atrás, pois temos mais informação disponível, produtos de maior qualidade no mercado e feedbacks de pessoas que já usaram, o que nos conforta.

 

As Mídias Filtrantes

Acredito que já caiba uma primeira advertência: existem substanciais diferenças entre os produtos no mercado, sendo que alguns poderão até resolver momentaneamente seu problema-alvo, porém, devolvendo o problema para você após certo período e mesmo criando novos. Assim, informe-se bem sobre a aquisição de mídias filtrantes para não comprar gato por lebre, em vários sentidos…inclusive referente ao “para que você precisa?”.

O “poder da mídia”, aqui no aquarismo, aqui nos artigos do Johnny, têm outro significado, não sendo mais do que a capacidade de retirar da água aquilo que os peixes não gostam. Em termos de definição, Mídias Filtrantes nada mais são do que aqueles “bagulhetes” que você utiliza em algum dos filtros que tenha no aquário, podendo ser brancos, pretos, coloridos, em forma de cilindro ou esfera, fofinhos…e por aí vai. É o nome geral para os componentes que você adiciona à filtragem, visando algum ganho adicional nesse processo.

Se a pergunta agora é “qual mídia eu escolho?” a resposta seria “depende do objetivo”. Pense por este caminho: necessariamente haverá sujeira e você terá que lidar com ela, para evitar ter que sifonar o aquário dia sim dia não, no intuito de se livrar dos resíduos e subprodutos da degradação orgânica. E para esse fim, separei a questão de das mídias filtrantes em dois artigos, deixando para este a parte física e química da brincadeira e a biológica para o próximo.

P.S.: a Troca Parcial de Água (TPA), SEMPRE precisará ser realizada, pois em nossos aquários, por melhor que seja o cuidado com a qualidade da água, em algum momento será necessário renovar a água saturada para colocar uma que ajude a manter o equilíbrio dos parâmetros.

 

Filtragem Física

Está é a primeira e literal barreira, necessária em qualquer filtro; o fronte de guerra. Trata-se justamente daquele material que reterá as fezes, restos de alimento (se tiver muito disso no filtro é porque você está superdimensionando a comida, portanto, diminua), folhas mortas, enfim, tudo aquilo que é grosseiro, visível e iria entrar no sistema de filtragem se as mídias certas não estivessem ali.

O exemplo mais comum é o perlon, uma espécie de lã acrílica, cujas recomendações são para que se adquira um produto atóxico, para não liberar substâncias químicas na água, e que não solte partículas como faz a lã de vidro (muito usada para isolamento térmico ou acústico). É fácil de encontrar e barato. Ele é o primeiro anteparo encontrado na maioria dos filtros, sejam eles externos ou internos.

Toda vez que falo de filtros, lembro-me do meu FBM (Filtro Biológico Modular), cujo andar superior (o que fica logo abaixo da bomba submersa) era composto por duas mídias diferentes visando parar o excesso de sujeira: perlon na camada superior e cascalho (de granulometria média e uniforme) logo abaixo. Esta era a seção do filtro que eu tacava debaixo da torneira para lavar completamente, quando na manutenção do sistema, pois aqui não era a área onde cresciam adequadamente as bactérias do bem. O perlon é lavável, mas não aguenta muitas lavagens, precisando ser substituído constantemente.

Abaixo ou em sequência a esta barreira é que começamos a dispor a demais mídias filtrantes, que veremos a seguir, as quais trabalharão melhor se livres dos excessos de sujeira. Certamente você conhece, já usou ou ao menos viu dessas mídias que falarei, agora, caso tenha alguma dúvida sobre o que fazem, por favor, continue lendo e veja se o texto ajuda…

 

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Carvão Ativado

Indubitavelmente a mídia mais utilizada pelos aquaristas, desde o fato de ter o preço mais acessível, quanto pela história mais tradicional de seu uso. Pode ter origem vegetal (como o produzido a partir da casca do coco) ou mineral.

Importante observar que não é apropriado espalhar o carvão dentro do compartimento do filtro, na verdade, nenhuma mídia é largada no filtro de qualquer jeito. Normalmente, tanto o carvão ativado como as outras mídias filtrantes, são acondicionadas em sacolinhas de tela de nylon, com fechamento numa das pontas.

O aquarista sabe, porém, que carvão ativado não é sinônimo de paraíso e pode trazer consigo inconvenientes. Para quem tem aquário plantado, nada pior do que ter itens que causem desbalanço em compostos químicos que sirvam como adubo para algas, não é mesmo? Se você não captou de cara o que quis dizer, vou citar um exemplo bem comum. Quando se compra carvão ativado de baixa qualidade é praticamente certo que você estará colocando uma mídia filtrante que libera para a água fertilizantes, como os fosfatos (compostos químicos que têm PO43- na fórmula). Se formos voltar às aulas de biologia e química (ou qualquer matéria que fale de nutrientes para as plantas), lembraremos do NPK ou Nitrogênio-Fósforo-Potássio, nesta ordem, que formam os três principais alimentos (macronutrientes) para as plantinhas. Quem conhece já sabe que nenhum carvão ativado é 100% livre de fosfato, mas existem marcas que se aproximam do ideal. Sinceramente não vale a pena tentar resolver um problema arrumando outro.

“E que problemas o carvão ativado resolve?” Tal mídia remove da água elementos que ele possa adsorver…não, não escrevi errado, nem você leu errado: a mágica do carvão ativado se dá pela adsorção. A adsorção é a contenção de compostos em nível molecular na superfície da mídia. Está relacionada a uma superfície porosa interna, capaz de reagir ou se combinar com substâncias dissolvidas na água, sejam elas gasosas ou líquidas, retendo-as. É amplamente utilizado para remoção de odores ou do gosto no tratamento de água (carvão ativado é usado no filtro de água potável da sua casa). Seu poder é tão real, tão “ativo”, que normalmente essa mídia precisa ser removida ou o filtro que a contém ser desligado quando usamos remédios ou fertilizantes no aquário, tamanha é a capacidade de adsorver substâncias que ele tem. Sua atuação é excelente sobre substâncias como cloro, cloramina, alguns compostos orgânicos como os que dão o ‘cheiro de peixe’ na água, mas é pouco reagente com elementos como ferro ou manganês e substâncias como a amônia, nitritos e nitratos. É por causa dessa atuação que o carvão ativado fica numa espécie de limbo entre o químico e o mecânico…embora, lendo o texto, tenhamos visto que é tudo aconteceu mecanicamente.

Lembro que é pertinente você entender que uma vez que os espaços (poros) são preenchidos convém substituir a mídia, visto que ela passa a não mais colaborar.

A tecnologia aquarística anda tão em alta que hoje existe um tipo de carvão ativado que possui propriedades hidrodinâmicas, permitindo que a água flua melhor por entre os grânulos e otimize a própria utilização do produto. E por falar em vida fácil…

Resinas ou Polímeros

Polímero é uma espécie de magia química (sintética ou natural) que facilita a vida de todos nós em áreas da vida que sequer nos damos conta, no entanto, uma das que somos diretamente beneficiados é no aquarismo. Antes de sair falando do que tem de bom pra gente, seria legal dar uma noção do que é um polímero.

Segundo a Wikipedia, polímeros são macromoléculas formadas a partir de unidades estruturais menores, chamadas monômeros, os quais são moléculas de baixa massa molecular e que, a partir das reações de polimerização, vêm a gerar a macromolécula polimérica. Uau! Se eu fosse resumir seria assim: polímeros são moléculas maiores formadas a partir de outras menores. Whatever, o lance é que o polímero é formado de diversas configurações dessas menores, repetidamente, criando uma propriedade ou efeito desejado. A matéria-prima que os forma podem ser desde petróleo ou carvão mineral até vegetais, como a cana-de-açúcar ou amido.

Dentro do nosso hobby, os polímeros (por vezes, também denominados resinas) são criados com objetivos de remover substâncias indesejáveis da água. Quando dei a entender que eles tornavam a vida do aquarista mais fácil, não era brincadeira.

Amônia alta, a ponto de matar os peixes? Nitratos descontrolados, causando um descompasso no crescimento de algas? Seus problemas acabaram! Existem resinas para cada problema desses.

Se você faz aquele teste de amônia e repara níveis altos, pode optar por ir agora mesmo numa loja especializada e pedir uma resina que elimine tais compostos nocivos. Com a mídia correta você pode controlar amônia, nitrito e nitrato  (resíduos orgânicos nitrogenados) e mais, para sua comodidade, existe resina que escurece à medida que vai ficando saturada, indicando a você que precisa ser limpo…sim, limpo! Não é para jogar fora. Você lava, conforme as instruções, e o utiliza novamente. Dá para pensar numa série de situações em que isso seria útil: aquários plantados mais populosos, aquários novos ou uma água de baixa qualidade na qual o aquarista não pode, naquele dia, fazer uma troca parcial (é extremo o caso, mas se tira amônia tá valendo!).

 

Este aí é um dos mais úteis ao meu ver, ainda assim, o “mundo polimérico” traz muita coisa que nos auxilia no dia a dia e nos desbalanços dos parâmetros. Há pouco falamos dos efeitos inconvenientes de um carvão ativado de baixa qualidade: liberação de fosfato. Pois então, até para fosfato há removedor. Ou seja, até quando cometemos um erro, temos algum imprevisto ou “deixamos para amanhã” a manutenção do aquário, temos à disposição produtos que permitem corrigir os parâmetros fora do ideal.

Há ainda removedores de metais, como o cobre, silicatos, nitratos e certos ácidos, servindo tanto para aquários marinhos como para os de água doce. Basta procurar pelo produto certo da marca certa e ser feliz.

 

No próximo artigo falaremos de mídias filtrantes que cuidam do ponto mais importante de um aquário: as colônias de bactérias do bem, ou seja, que beneficiam a filtragem biológica. Espero que este artigo tenha ajudado em algo! Nos vemos no próximo, até lá!

Sobre o Autor

João Luís (Johnny Bravo) é brasiliense, daqueles que não se conformou só com o lago Paranoá e foi estudar Oceanologia pela FURG/RS, ingressou no mundo do aquarismo como palestrante e autor de textos há 10 anos, onde cambou para o lado dos Ciclídeos Africanos. Articulista das melhores revistas do ramo, escreveu matérias de capa para a Revista AquaMagazine e Aqualon. Nascido em 1975, é aquarista há 40 anos, pois da água veio e nela gosta de estar. E, hoje integra o time de escritores especializados do Grupo Sarlo.