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Introdução do autor:

João Luís é oceanólogo, escritor, entusiasta e aquarista desde sempre.

Grupo Sarlo – Outubro de 2017

 

“Eu tenho peixes limpadores no meu aquário, para que eles comam toda a sujeira dos outros peixes e deixe meu aquário limpinho…nem de filtro precisa!”

 

Muito bom isso né? Só que não. A frase, para não deturpar a realidade, deveria acabar em “comam.”…concorda? Se você ainda não captou, digo que não é difícil de entender o porquê: um peixe limpador, não deixa de ser um peixe, ou seja, como vimos em artigos anteriores, qualquer peixe ingere comida, processa-a e depois excreta. Algumas pessoas, porém, acham que eles são dispositivos mágicos que fazem tudo aquilo que ingerem sumir.

Sabendo disso, as primeiras falácias que caem, ao se entender o que são peixes limpadores, é que os filtros, as trocas parciais de água e a sifonagem do fundo continuam essenciais para limpeza do aquário, não podendo ser substituídos por peixes.

“Por que são chamados ‘limpadores’ e para que servem então?” – questionou a voz da consciência. Na minha modesta opinião, eles continuam desempenhando funções de limpeza, porém, não da forma como posto acima. Por exemplo, quando ministramos a ração, é muito comum vermos dezenas de pedaços, flocos, bits ou pellets (depende da ração usada) não serem apanhados pelos peixes e se acomodarem pelo aquário. Pois bem, quando o aquário possui enfeites, rochas, troncos, plantas e mesmo cascalho de tamanho não uniforme, estas características atuam de forma a dificultar o trabalho dos filtros – é a hora que deveríamos vir com sifão e puxar tudo que ficou acumulado, evitando a decomposição.

Se possuímos peixes limpadores, ao invés do sifão para este fim, teremos o apoio de uma equipe voluntária que logo estará chegando aos locais mais inacessíveis para pegar a preciosa comida que lá está escondida. Seu valor está em retirar essas sobras, que poderiam vir a fungar ou fermentar, diminuindo a qualidade da água, transformando-as em compostos menos agressivos (de imediato) ou até úteis para outros organismos; é o caso do fosfato para algumas plantas.

Não é pra ficar todo animadinho não, achando que terá menos trabalho na limpeza, pois os compostos excretados por qualquer peixe precisarão ser retirados mais cedo ou mais tarde, mesmo o fosfato citado (é bom recordar que nem todas as plantas retiram nutrientes diluídos na água, muitas delas concentram esta tarefa nas raízes que estão plantadas no substrato). O fosfato solto na água pode desencadear blooms de algas, tanto na água (água verde) quanto sobre qualquer superfície (pedras, vidro, troncos, folhas e enfeites).

“Mas aí eu ponho peixes que limpam algas!” – disse o gênio. Regra nº1: + peixes = + excretas. Sim, existem peixes ‘”especializados” em raspar algas, mas eles não solucionam situações de desequilíbrio no aquário. Se o ambiente possuir números adequados de peixes (cálculo que incluirá os limpadores), é bem possível que eles lhe ajudem a remover algas indesejadas.

 

Layouts para aquário.

Obviamente não vou dizer como você deve montar o cenário do seu aquário, pois isso deve partir do gosto pessoal, somando algumas pinceladas de lógica e informação, que é a parte onde tento falar algo.

Dentre os peixes que temos disponíveis nas lojas (os quais podemos contar com eles em nossos aquários), uma análise básica sobre o tipo de boca já pode nos dar informações preciosas sobre como podemos pensar num aquário para recebê-los. “Como assim?” – perguntou a pessoa que está lendo o artigo, vendo TV e ouvindo música.

Se um peixe tem ventosas, ou seja, se gruda no vidro, pedra etc., é importante ter superfícies grandes para poder se “fixar”, tais como vasos de cerâmica, rochas, troncos ou raízes – por ficarem colados nesses objetos, aumente o cuidado para que não contenham bordas cortantes. Se o peixe costuma “fuçar” o fundo, o substrato não deve ser feito de pedra grossa…para falar a verdade, recomendado mesmo são substratos de tamanho uniforme e geralmente pequenos, tendendo para o tamanho “areia”. Imagine que é mais fácil para peixes como kuhlis e coridoras, que têm “bigodinhos” táteis, inserir a boca em solos mais macios para procurar comida. São detalhes fáceis de gravar.

Mas isso não se resume em tudo que se deve saber sobre um peixe, certo? Ler e conhecer mais sobre ele é o segredo do sucesso. A partir do momento que você conhece as espécies adquiridas, é possível coordenar detalhes importantes como pH e temperatura, até porque veremos que muitas espécies desta categoria de limpadores, cobiçadas no hobby, pertencem ao bioma amazônico, ou seja, águas “quentes”.

Além disso, munido de informações, é possível inovar e incrementar…eu já falei para alguns amigos que tenho vontade de recriar um ambiente de corredeira, montando um aquário apenas de cascudos. Nunca transformei a ideia num projeto, mas penso que eu criaria uma subida de rochas num dos cantos do aquário com troncos submersos, entremeando as rochas, e uma forte corrente promovida por bombas submersas de alta vazão, indo de encontro às pedras. Precisaria dar uma estudada para ver quais cascudos habitam esse tipo de ambiente, ver se compartilham o mesmo tipo de alimento etc. Um dia ainda faço isso! Esta seria uma das muitas possibilidades de layout para o aquário.

Espécies de peixes limpadores

Não adianta ficar falando de “peixes limpadores” sem ver a cara deles, não é mesmo? Para você pensar naqueles que irá adquirir, é bom considerar fatores como beleza, funcionalidade, tamanho e parâmetros de água. Sabendo disso, você adequa o layout do aquário para deixá-los de boa.

Bem, são várias famílias que englobam essa categoria de peixes, como a dos cascudos (Loricariidae) e a das Corydoras (Callichthyidae), ambas ocorrendo nas Américas Central e do Sul e que serão as que vou focar aqui; mas tem também os asiáticos da família Cobitidae, como a linda Botia-palhaço (Chromobotia macracanthus), o dojô (Misgurnus anguillicaudatus) e a cobrinha kuhli (Pangio kuhlii), que já ganharam artigo neste blog, entre outros.

Cascudos

Ao ouvir este nome, se você ainda acha que são aqueles peixes feios, casquentos e escuros, você merece um cascudo para acordar (não, eu não consigo evitar trocadilhos). Também conhecidos como plecos no exterior (devido ao nome científico de um dos gêneros: Plecostomus…hoje em desuso devido à divisão taxonômica ocorrida), os cascudos variam muito no hábito alimentar, comportamento social, tamanho, forma, cores…para escolher um, eu recomendaria observar a agressividade, hábito alimentar e ver se o tamanho é compatível com o aquário. Prepare-se para conhecer algumas espécies que são de deixar o queixo caído.

Cascudo-Zebra (Hypancistrus zebra)

O top dos tops dos cascudos. Gracioso, de pequeno porte (7cm), pacífico e tímido (até demais), deve ser colocado em aquários com espécies que saibam conviver e que sejam menos atiçadas ou competitivas. É um micropredador, não se interessando muito por plantas e algas. Seu ambiente inclui fundo de areia, com rochas e troncos que promovam cavidades para que ele se esconda (é onde também deposita os ovos – o macho é quem cuida dos ovos!); a água deve ser bem oxigenada (o que se consegue com boa movimentação), com temperatura entre 26°-28ºC e pH entre 6,0-7,5. Infelizmente é ameaçado de extinção, tanto pela captura desordenada, quanto pela ameaça de destruição do habitat (rio Xingu, no Brasil) com a construção de hidrelétricas.

Cascudo-Tigre(Peckoltia vittata)

É bom lembrar que existe mais de uma espécie de cascudo sob o nome “tigre”. Este aqui, como é um peixe da bacia Amazônica, significa que a água na qual é encontrado tende a ser mais quente, em torno dos 25ºC; já o pH pode variar de 5,0 a 7,5. Ele tem hábitos “vegetarianos”, podendo atacar algumas plantas de folhas mais tenras (muitos hobbystas oferecem pepino para ver se ele esquece das plantas, porém, nem sempre funciona).

A espécie, que tem hábitos noturnos, costuma ser sociável, exceto com peixes da mesma espécie (neste caso costuma se aconselhar a ter um aqua maior, onde cada cascudo possa ter sua caverna). Aqui também é o macho que geralmente cuida dos ovos.

Cascudo Panaque (Panaque nigrolineatus)

Este cascudo é maravilhoso, mas fica imenso: 43cm.  Também pertencente à bacia Amazônica, aceita um pH entre 6,5 e 7,5 e temperatura ao redor dos 25°C. O comportamento e as preferências alimentares são parecidas com a do Tigre, citado anteriormente.

Limpa-vidros (Otocinclus hoppei)

Não é chamado de cascudo, mas como pertence à família Loricariidae resolvi deixá-lo aqui. O gênero Otocinclus engloba os mais úteis comedores de algas, utilizados, inclusive, em aquários plantados. Este pequeno amazônico (3cm), é muito pacífico e sociável, sendo um ótimo parceiro para o Cascudo-Zebra, até mesmo porque os parâmetros da água se assemelham: temperatura entre 26°-28ºC e pH entre 6,0-7,5.

Eu ainda citaria, para você pesquisar, algumas loricárias, que são peixes que me ganharam pelo formato de seus corpos e pela docilidade: Farlowella acus e Rineloricaria eigenmanni.

 

Corydoras

Desconheço alguém que não goste delas. Como aspectos gerais, as Corydoras gostam de substrato que lhes permitam fuçar atrás de comida, assim, fica a sugestão de usar areia. Costumam ser gregárias, o que indica que devem ser adquiras em grupos. Como exemplos, cito duas (poderia citar dezenas, mas não tem espaço), ambas amazônicas:

Coridora-Leopardo (Corydoras julii)

Uma das mais conhecidas dentre todas as Corydoras, talvez pelo seu histórico de peixe resistente (em condições ruins de oxigênio, este peixe corre na superfície e engole ar, que será absolvido pelo organismo). É um micropredador que está sempre pesquisando o fundo atrás de pequenos crustáceos, vermes e larvas de insetos. O pH deve estar entre 6,0 e 8,0 e a temperatura em torno dos 26°C; alcança 5cm.

Coridora-Panda (Corydoras panda)

Adora um habitat com raízes e folhas (para este caso, precisariam ser trocadas constantemente para não apodrecerem no aquário), por ondem possam nadar e se esconder. A água é similar ao estilo que vimos neste artigo: pH entre 6,0 e 8,0 e temperatura por volta dos 25°C; elas alcançam cerca de 4cm.

O universo dos peixes limpadores é muito mais amplo, basta ver nas lojas a quantidade de espécies diferentes…o que tento com artigos como este é sempre ampliar o mundo do aquarismo, mostrando como é belo e complexo.

Como moral da história, lembre-se que a esmagadora maioria dos peixes limpadores não é detritívora, ou seja, necessita de comida para sobreviver. No mercado existe alimento específico para peixes de fundo, assim, se você tiver uma certa quantidade deles no aquário, não hesite, procure tal comida…e seja feliz!

Bom, chegamos ao fim de mais um artigo. Agradeço pela leitura e espero ter trazido algo de valor sobre esses peixes. Encontro você no próximo artigo! Até lá!

Sobre o Autor

João Luís (Johnny Bravo) é brasiliense, daqueles que não se conformou só com o lago Paranoá e foi estudar Oceanologia pela FURG/RS, ingressou no mundo do aquarismo como palestrante e autor de textos há 10 anos, onde cambou para o lado dos Ciclídeos Africanos. Articulista das melhores revistas do ramo, escreveu matérias de capa para a Revista AquaMagazine e Aqualon. Nascido em 1975, é aquarista há 40 anos, pois da água veio e nela gosta de estar. E, hoje integra o time de escritores especializados do Grupo Sarlo.