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Introdução do autor:

João Luís é oceanólogo, escritor, entusiasta e aquarista desde sempre.

Grupo Sarlo – Junho de 2017

 

 

Nos artigos anteriores, falei de peixes que põem ovos e algumas táticas reprodutivas para garantir que sua espécie vingue na natureza. Hoje, ainda no tema de estratégias de reprodução de nossos peixes de aquário, falarei dos ovovivíparos…mentira, vou citar também algo sobre vivíparos, os quais, embora raros no meio aquático e ainda mais no aquarístico, existem.

Seria interessante começar tomando cuidado para não confundir as palavras “ovovivíparo” e “vivíparo”, pois se tratam de métodos absolutamente diferentes, sendo que o último é considerado o mais evoluído dos tipos…é o mesmo que nós mamíferos escolhemos no processo evolutivo.

Num peixe OVOvivíparo, os ovos eclodem ainda dentro da fêmea e não há ligação direta entre ela e o embrião. Estes são nutridos a partir do material existente dentro do ovo (vitelo). Ao nascer, os alevinos possuem ainda um saco vitelínico, que durará pouco tempo antes que precisem se virar com seu próprio alimento.

Em relação aos Ovovivíparos, o embrião também se desenvolve dentro do corpo da mãe, porém, recebendo nutrição por meio de uma placenta, ou estrutura similar, também responsável por retirar os subprodutos destinados à excreção.

Se você ainda está em dúvida se conhece ou não um peixe ovovivíparo, veja abaixo algumas das espécies mais comuns…

 

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Família Zenarchopteridae

Tal como rola com os tubarões, esta família de peixes-agulha possui os 3 tipos de reprodução: ovípara, ovovivípara e vivípara…com representantes em água doce, salobra ou marinha. Destaca-se dentre eles uma espécie conhecida dos aquários: a Agulhinha Prata ou Meio-Bico. Trata-se de um peixe do sul-sudeste da Ásia, pertencente ao gênero Dermogenys – comercialmente falando, quando você compra uma “agulhinha” na loja pode estar levando Dermogenys pusilla, D. siamensis ou D. sumatrana, uma vez que nem todos se importam em identificar exatamente a espécie.

São peixes pequenos, delicados e de difícil reprodução em aquário. O ideal é mantê-lo em grupos. O dimorfismo sexual se dá a partir da identificação do andropodium – estrutura análoga ao gonopódio dos poecilídeos (nadadeira anal modificada para cópula). Preferem águas de pH perto do neutro à ligeiramente alcalino e temperatura entre 24 e 28ºC. Gostam de água de fluxo lento e com bastante vegetação, incluindo a flutuante.

Por causa do formato de seu corpo, cuja mandíbula estende-se bem pra frente (beiçudo), alimenta-se exclusivamente na superfície. E por falar em comida, acredita-se que a nutrição seja um dos fatores preponderantes no quesito reprodução – é comum que rejeite ração industrializada. O uso de bomba ou suplementos alimentares pode vir a ser interessante para esta espécie. Cabe ainda dizer que movimentos bruscos, na frente do aquário, que os assustem, podem causar feridas em seus beiços, caso batam na parede do aquário.

 

Família Poeciliidae

Se você se sentiu perdido, sem conhecer o amiguinho de cima, aqui estão reunidos os mais comuns dos ovovivíparos que você conhece. Quais? O Espada, o Plati, a Molinésia e o Guppy. Sabia que você conhecia.

Essa galera possui características comuns, como: “altamente prolíficos”, “manter no aquário a proporção de 1 macho para 3 ou 4 fêmeas”, “fecundação interna (detalhe obrigatório para termos a ovoviviparidade)” e “presença de gonopódio nos machos, que é a modificação da nadadeira anal num órgão capaz de conduzir o esperma para o interior da fêmea”.

Cabe ainda congregá-los num mesmo bojo, quando nos referirmos ao potencial invasor, pelo menos se considerarmos os mais comuns, citados logo a seguir: o Guppy (Poecilia reticulata), a molinésia (Poecilia sphenops), os platis (Xiphophorus maculatus e X. variatus) e o espadinha (X. hellerii). De forma ampla e geral, são considerados peixes com alto risco de invasão pela publicação do Ministério do Meio Ambiente “Espécies Exóticas Invasoras de Águas Continentais no Brasil” e alguns já possuem até mesmo populações estabelecidas em rios, riachos e lagos de Muriaé – MG e Brasília – DF. Normalmente seu impacto está na habilidade de predação sobre insetos e larvas de invertebrados, outra característica comum destes poecilídeos.

Relembrado o alerta, voltemos ao tópico: reprodução por ovoviviparidade. Vamos ver mais de perto as espécies citadas anteriormente.

 

Espada (Xiphophorus hellerii)

Peixe de origem norte e centro-americana, cujo tamanho fica em torno dos 8 a 10 cm, sem contar a “espada”. Trata-se de uma espécie fácil de se identificar os sexos dos indivíduos, onde, nos machos (geralmente menores), além do gonopódio, encontra-se um prolongamento da nadadeira caudal, o que lhe confere seu nome. A variedade “lira” pertence à mesma espécie e nela pode haver problemas de reprodução, quando a nadadeira anal é prolongada demais, deformando o gonopódio.

Diz-se que as fêmeas possuem diversas preferências na escolha do macho: comprimento da espada, tamanho do corpo, padrões de cores, traços químicos e display do macho (comportamento). A despeito disso, ainda pode acontecer hibridização com outras espécies, dentre elas, a mais fácil seria o Plati. É citada pela Fishbase.org a possibilidade de reversão sexual quando diante de certas condições ambientais – de fêmea para macho.

Para o Espada reproduzir, não há mistério. Tolera distintos valores de pH e temperatura…a fórmula é: coloque num aquário um grupo e pronto! (complexo, não?) Ah, anota aí: quaristas costumam relatar que eles gostam de pular do aquário, por isso, tampas são (sempre) bem-vindas.

 

Plati (Xiphophorus maculatus X. variatus)

Peixe muito parecido com o Espada, todavia, com o corpo mais atarracado e sem a presença do prolongamento da cauda – pessoas menos acostumadas podem confundi-los. Para saber quem é quem será necessário visualizar o gonopódio; quando maduros já será possível ver que as fêmeas são maiores que os machos.

Provém de região coincidente com a de seu antecessor, mas são atribuídos valores menos abrangentes para os parâmetros: pH entre 7.0-8.2 e temperatura entre 20 e 26ºC – caso necessário use algum regulador de pH ou aquecedor. Mesmo assim, o Plati não se inibe para reproduzir, fazendo-o em aquários comunitários. Segue a fórmula do Espada.

 

Molly ou Molinésia (Poecilia sphenops)

Se você, ao ver imagens na internet dos platis e espadas, achou que eles eram diversos, apresento agora a molinésia. Dentro da espécie P. sphenops você encontra as variedades mais inusitadas: negra, dálmata, balão, cauda de lira e dourada…

É um simpático peixe que existe do norte da América do Sul até o sul da América do Norte…um trocadilho geográfico, já que não fiz nenhum até agora! Regula em tamanho com o Espada, mas possivelmente seja o mais chatinho dos poecilídeos citados aqui, em termos de parâmetros de água (pH entre 7.5-8.5 e temperatura entre 21 e 28ºC), pois quando mantido em água ácida e mole, costuma a apresentar debilidades e doenças. Se você percebeu, citei água “mole”. Acontece que muitos aquaristas utilizam sais para aumentar níveis de cálcio e magnésio para as  Mollies, pois são elementos importantes para elas – ressalto que não se trata de sal de cozinha (NaCl), mas sim sais próprios  para esses peixes, visando aumentar a dureza da água.

 

Guppy (Poecilia reticulata)

Já tivemos um artigo tratando especificamente sobre esta espécie, o que implica em dizer que você já é um especialista na criação. Ainda assim, claro que não deixaria de falar um pouquinho do peixe…até porque naquele artigo eu falei em “viviparidade”, por equívoco, confesso. Equívoco, será? Deixa pra lá.

O guppy é o menor dos poecilídeos citados aqui e, consequentemente, pode ocupar um aquário de menor porte – só tome cuidado, pois ele é pequeno, mas é prolifico e pode encher o aquário se a reprodução for descontrolada. Este peixe sul-americano prefere água perto do neutro do pH (que deve girar entre 7,0 e 7,2) e mais quente que os demais (25 a 28 °C).

 

Para dar nó na cabeça

Eu não me aguento, tenho que interromper o fluxo natural do artigo. Aproveitando as menções feitas às “poecilias” e “viviparidae” pensei em repassar um nó dado a minha cabeça para a sua também. “Juntos na alegria e na tristeza”. Estava lendo uns artigos científicos (um da Revista Brasileira de Zoociências e outro da Rev. Bras. de Zoologia), sobre a espécie Poecilia vivipara, onde os autores se referiam a ela, durante o tempo todo, como Ovovivíparo.

Ora, falamos no início que um vivíparo possui placenta e que essa estrutura leva nutrientes e retira metabólitos, e nestes peixes existem ovos sendo maturados dentro da mamãe. Como pode isso? Poderia ser que guppies e mollys (peixes do gênero Poecilia) tivessem um método e essa tal de P. vivipara, outro?

Na argumentação, vi que foram abordados dois processos: matrotrofia e lecitotrofia. O primeiro se resume num processo em que há transferência de nutrientes da mãe para o filhote (materno-fetal), normalmente ocorrendo quando o ovo da espécie é pequeno e a quantidade de vitelo produzida não é suficiente para nutrir o embrião até o final do desenvolvimento. A segunda é justamente o não estabelecimento dessa relação, visto que o ovo já possui vitelo suficiente. O mais comum deles, nos poecilídeos ditos vivíparos, seria a lecitotrofia – incluindo a P. vivipara.

Bem, se fosse matrotrofia eu entenderia mais fácil, mas ainda assim não veria a função completa de uma placenta (ou estrutura similar). P. vivipara possui gestação do tipo folicular, onde os embriões desenvolvem-se dentro do folículo ovariano, acompanhando a maturação da estrutura. Tais ovários são órgãos que podem armazenar espermatozoides, os quais permitem às fêmeas serem fecundadas por diversos machos produzindo ninhadas de paternidade mista. É formado um óvulo, o qual é fecundado e começa a maturar, sendo acompanhado pelo aumento de tamanho do órgão. É certo, porém, que a liberação dos filhotes se dá, mais cedo ou mais tarde, com pouco ou nenhum saco vitelínico, de acordo com a influência de parâmetros como a temperatura (principal) e a salinidade, dentre os principais influenciadores. E aí está o detalhe, em todo processo o embrião está envolto numa estrutura repleta de vitelo e não sendo alimentado por uma ligação com uma placenta.

Numa outra espécie citada, Jenynsia multidentata, um Cyprinodontiformes Ovovivíparo da família Anablepidae (peixes de 4 olhos), foi mencionada uma relação mais direta com a mãe. Diante do consumo do vitelo, desencadeia-se um fenômeno em que as pregas das mucosas uterinas penetram nas cavidades branquiais do embrião, visando prover oxigenação. Num caso assim, realmente me traz mais conforto em chamar de vivíparo, diante das funções similares às exercidas pela placenta. Agora, quando falamos de ovos com vitelo, minha teimosia insiste em chamar de “ovoviviparidade”.

De toda forma, este subtópico é só pra gerar reflexão, visto que mantenho a denominação “ovovivíparo” para nossa galerinha aqui, pelo simples fato de não ter visto uma descrição completa sobre a estrutura do ovário da mãe funcionando como uma placenta, propriamente dita. Se formos ver em alguns dos grandes tubarões, poderemos perceber, inclusive, estruturas como cordões umbilicais ligando a mãe e os filhotes – aí dá pra chamar de vivíparo.

 

On topic: Dicas para o sucesso

Em termos gerais de layout para aquário de reprodução de poecilídeos, “vegetação” e “uso de uma criadeira” serão ótimas opções. A vegetação é para preservar fêmeas do assédio constante de machos e também servirá para ocultar alevinos que eventualmente nasçam, uma vez que tais espécies não respeitam suas próprias crias, podendo comê-las. A criadeira, normalmente uma caixinha de acrílico posta no próprio aquário, é o meio mais seguro para separar a prole dos progenitores. Como funciona? Uma vez que a fêmea se encontra em estágio mais avançado de gestação, ela é separada neste recipiente. A medida que os alevinos vão sendo liberados, eles caem no fundo, que é inclinado, deslizando até uma câmara abaixo, ficando separados dos adultos. Simples assim. Devido à fêmea se encontrar na mesma água, evitam-se choques de parâmetros.

Lembro que se o intuito for procriar os peixes, será preciso ler mais sobre a espécie-alvo, ter aquários só para filhotes, instalar neles filtros de espuma para não sugá-los e se esmerar pela qualidade de água – filtros como os UV auxiliam na eliminação de agentes patogênicos.

 

Obviamente me excedi de novo, escrevendo mais do que precisava…agradeço por mais esta leitura, espero que tenham gostado! Até a próxima!

Sobre o Autor

João Luís (Johnny Bravo) é brasiliense, daqueles que não se conformou só com o lago Paranoá e foi estudar Oceanologia pela FURG/RS, ingressou no mundo do aquarismo como palestrante e autor de textos há 10 anos, onde cambou para o lado dos Ciclídeos Africanos. Articulista das melhores revistas do ramo, escreveu matérias de capa para a Revista AquaMagazine e Aqualon. Nascido em 1975, é aquarista há 40 anos, pois da água veio e nela gosta de estar. E, hoje integra o time de escritores especializados do Grupo Sarlo.