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Introdução do autor:

João Luís é oceanólogo, escritor, entusiasta e aquarista desde sempre.

Grupo Sarlo – Janeiro de 2018

 

Este peixe é macho ou fêmea? Esta dúvida certamente passou pela sua cabeça em algum momento da vida aquarística, uma vez que nem todas as espécies de peixe apresentam gritantes diferenças entre os sexos dos indivíduos.

De forma geral (mas com pegadinhas pelo caminho) é fácil identificar machos de guppy, de betta, de espada ou de acará-bandeira…opa, este aí não é tão simples assim. Para hobbystas experientes ou criadores, concordo que muitos consigam desenvolver um “sexto sentido” para essa identificação. Seus olhos ficam tão acostumados que eles chegam a dizer que “a fêmea se move de tal modo” e que o macho “tem um formato tal”. Para nós, mortais, no entanto, o lance não é tão mágico assim e muitas vezes precisamos nos concentrar para ver diferenças.

Agora, quando o assunto é diferenciar macho e fêmea, o que podemos começar dizendo, com certeza, é que temos espécies nas quais os peixes são diferentes e outras em que são muito parecidas (quando não idênticas aos olhos). Bora complicar para descomplicar.

 

Dimorfismo Sexual

É claro, para você, o termo “Dimorfismo Sexual”? Se não for, me acompanhe, por favor. Dimorfismo, no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, é “qualidade do que tem ou pode tomar duas formas diferentes”. O prefixo “di” (origem grega) significa dois/duas (se você quiser traduzir como diferente, não tem problema algum, pois nos servirá igualmente) e o sufixo “morfismo” é forma, ou seja, dimorfismo é “duas formas” ou “dois formatos” (ou macho e fêmea diferentes). Já matou a charada para Dimorfismo Sexual então, certo? “Conjunto de características secundárias que distinguem o macho da fêmea, na mesma espécie” (também no Priberam).

Se você agora se pergunta sobre “o que são características secundárias?”, informo que não ficará desamparado, pois é justamente isso que nos interessa em toda essa história.

 

Características (Sexuais) Secundárias

O que são? Toda e qualquer diferença que apareça e se destaque num dos sexos, o que pode ser: cor, formas de nadadeiras, tamanho etc. No entanto, os itens de adorno trazidos aqui não são, por si só, indicativos de diferenciação, precisam de um contexto. Cada caso é um caso, assim, dentro de uma espécie que você queira descobrir quem é o macho e quem é a fêmea, é conveniente saber antes como se faz a diferenciação para o peixe investigado, ou seja, o que é importante notar ali.

Não entendeu bem? Deixa eu tentar explicar. Se fôssemos diretos ao assunto, diria que as características sexuais mais comuns e fáceis de identificar estão nos machos, e que elas seriam: cores mais vibrantes, nadadeiras pélvicas e anais mais alongadas e pontiagudas, calo na cabeça e tamanho maior. Porém, o mundo é cheio de pegadinhas e exceções, fazendo essas “regras” variarem.

Se eu pegar como exemplo o Pelvicachromis pulcher, o nosso querido Kribensis, eu quebro a regra das cores vibrantes pertencerem aos machos. Nesta espécie a fêmea é belíssima e quando está no período reprodutivo exacerba suas cores vermelhas e púrpuras.

A gritante diferença de cores é vista em peixes como nos “pavões” (Peacocks, peixes do gênero Aulonocara) do lago Malawi, onde, indubitavelmente o peixe colorido é o macho.

Vamos para um exemplo mais comum: espadinha (Xiphophorus hellerii), aquele peixinho resistente, saltador, ideal para um aquário comunitário de água neutra . Quem não sabe que o macho é quem possui a “espada” na cauda? Pois é, você quase sempre acertará ao identificar o casal por esse adorno na cauda. Sim, eu disse “quase”. Perceba que sequer entrei no nível das variedades dentro da espécie, uma vez que ela traria um grau a mais de dificuldade para entendermos. Por exemplo, a variação “Lira”, do espadinha traz uma espada dupla (na parte de cima e na debaixo da cauda) tanto nas fêmeas quanto nos machos. Num caso como este, precisaríamos encontrar outras designações, sendo que uma das mais fiéis seria o “gonopódio” (uma estrutura formada pela modificação da nadadeira anal, presente apenas nos machos).

“E tamanho?” Lembra do guppy (Poecilia reticulata)? Então, nesta espécie elas são maiores que eles! E não é só isso, em certas variações de guppies, os criadores conseguem fêmeas de caudas coloridas que podem confundir olhos desavisados.

Por isso que uma só característica, isolada e sem contexto, pode não lhe dar a resposta. Há ainda que se considerar no contexto que muitas das características sexuais secundárias não ficam explícitas de uma hora pra outra. Além de depender do desenvolvimento da espécie em questão, precisamos entender que elas também estão ligadas a fatores como submissão, estresse ou nutrição, dentre outros. Ou você acha que qualquer machinho vai lá, começa a dizer “olha aqui minhas nadadeiras que lindas!” e fica impune? Exibir e manter uma característica sexual secundária envolve, muitas vezes, dizer “sou lindão mesmo, por que, vai encarar?”. Num ambiente destes, de provações múltiplas e ininterruptas, muitos indivíduos preferem se manter “anônimos”, com suas características ocultas ou camufladas (parecidos com fêmeas) até que possam exibi-las.

“E quando tais características secundárias não estão evidentes e nem a magia dos aquaristas experientes consegue identificar?”

 

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Espécies Monomórficas.

Normalmente os aquaristas têm dificuldade real de identificação quando se trata de uma espécie monomórfica (mono = um, único), ou seja, quando macho e fêmea não terão, nem hoje nem amanhã, detalhes evidentes que facilitem sua identificação.

Exemplificando: Pseudotropheus demasoni POMBO, um ciclídeo africano do lago Malawi. Como eu poderia dizer que o macho tem cores mais vibrantes que a fêmea, se ambos possuem o mesmo padrão de coloração? Na verdade, tudo é similar considerando o P. demasoni. A espécie é tida como uma espécie monomórfica – ainda assim, concordaria com quem me dissesse que sabe diferenciar (eu mesmo arrisco dizer que machos têm a nadadeiras pélvicas mais alongadas que as fêmeas).

Como podemos perceber, especialmente nestes últimos comentários, é que a observação requer um pouco de familiaridade. Todavia, é nesse “achismo especializado” que mora o perigo e onde já vi muitos erros, cometidos até mesmo por pessoas que entendem (ou julgam entender). Especialmente quando se fala de CAs, há muitas pegadinhas. Já vi fêmeas com inúmeros egg spots (aquelas bolas amarelas localizadas na nadadeira anal”, que há quem acredite que pertençam apenas aos meninos) ou fêmeas, da espécie dimórfica Melanochromis auratus, que escureceram como os machos (acontecimento natural que indica senilidade)…mas e aí? “Ah meu Deus, nenhum peixe neste planeta pode ser identificado corretamente?” Pode sim…só dá mais trabalho…já ouviu falar do venting?

 

Venting

Termo do inglês que nada mais é do que localizar o vent no animal examinado. Pra você que ainda ficou boiando com o nome vent, não se sinta mal, foi de propósito. O que procuramos quando estamos fazendo um venting é a papila genital, virando o peixe de “ventre” para cima; no caso da fêmea, o ovopositor (o caninho por onde saem os ovos).

Quando fazemos um venting, procuramos a região localizada entre o ânus e a nadadeira anal, nesse espaço é que se encontra a papila ou poro genital. Na maioria dos casos, a da fêmea é comparativamente maior que a dos machos (“comparativamente” porque é bom considerar que os peixes sejam de tamanho aproximado, maturidade similar etc.) – o procedimento será facilitado em 5 milhões de vezes quando os indivíduos analisados forem adultos maduros.

Outra coisa que é bom saber é que peixes que desovam no substrato costumam ter ovos menores do que aqueles que, por exemplo, fazem incubação bucal, ou seja, os canais por onde esses ovos passam são de dimensões diferentes de espécie para espécie. Assim, os poros genitais dos primeiros (desova no substrato) são muito menos evidentes que os segundos (incubadores bucais).

Não é incomum, tampouco, o aquarista se valer de sinais adicionais – imperceptíveis ao olhar comum – para auxiliar na “certeza” do resultado de um venting. Explico. É bom mantermos a modéstia quando tentamos identificar um peixe, pois nem sempre será possível ter 100% de acurácia. Pois é, nem aqui…tem pessoas, normalmente criadores, que no desespero do desespero precisam identificar o bicho novinho e não pode esperar…Em casos assim, aquaristas apelam para detalhes como formato de boca (ex: Tropheus spp.), ou considerar de que, no geral, fêmeas tendem a ser mais roliças na região do abdômen, ou saber que existem diferenças de pigmentação na papila genital e por aí vai.

A técnica do venting não é (não mesmo) recomendada para aquaristas iniciantes. Se você não está pretendendo separar reprodutores aos pares ou machos e fêmeas para crescimento em aquários separados, sequer é indicado para você. Você vai fazer assim mesmo? Bem, então vão algumas observações sobre os procedimentos mais adequados:

  1. Mãos molhadas;
  2. Não apertar o peixe – para não escorregar, muitos mantêm a rede (puçá) entre o peixe e a mão;
  3. Fazer a observação logo acima de um recipiente com água (caso o bicho pule da sua mão, ele cairá de volta na água e não no chão);
  4. Não ultrapassar de 30 segundos e não fazer mais de 3 vezes seguidas com o mesmo animal;
  5. Está enxergando mal? Use lupas ou óculos de joalheiros (que já vêm com luz), diminui o tempo de exposição do animal e aumenta a precisão.

 

Viu? Existem soluções para saber se o peixe é macho ou fêmea. Por vezes você precisará esperar um pouquinho para que ele cresça e desenvolva certas características corpóreas que lhe darão essa informação. Por outro lado, se a espécie for monomórfica e pelas nuances de comportamento não der para identificar, e ainda assim você quiser saber, leia mais sobre as técnicas de ventinge faça um procedimento seguro…entendo que na maioria das vezes, não será necessário saber, mas também reconheço que por vezes você não desejará inserir muitos machos de uma espécie, para que eles não briguem. Para evitar isso, além de virar um mestre no venting, leia bastante, converse, tire dúvidas e procure entender bem as espécies que você pretende adquirir…

No mais é isso aí…agradeço pela leitura e espero vocês no próximo artigo. Até lá!

Sobre o Autor

João Luís (Johnny Bravo) é brasiliense, daqueles que não se conformou só com o lago Paranoá e foi estudar Oceanologia pela FURG/RS, ingressou no mundo do aquarismo como palestrante e autor de textos há 10 anos, onde cambou para o lado dos Ciclídeos Africanos. Articulista das melhores revistas do ramo, escreveu matérias de capa para a Revista AquaMagazine e Aqualon. Nascido em 1975, é aquarista há 40 anos, pois da água veio e nela gosta de estar. E, hoje integra o time de escritores especializados do Grupo Sarlo.