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Introdução do autor:

João Luís é oceanólogo, escritor, entusiasta e aquarista desde sempre.

Grupo Sarlo – Setembro de 2017

 

“O cliente chega na loja: Bom dia, queria levar um daquele Acará-Disco ali…”

“O atendente, querendo mostrar seu conhecimento, antecipa-se: qual o pH da sua água? Mediu os níveis de amônia? Neutralizou o cloro? Conferiu o KH? O GH tá quanto? Pra você ter um peixe desses precisa ter todos os parâmetros tinindo! Eu tenho aqui umas marcas excelentes…”

 

Certamente se eu fosse atendido assim, sem nem um bom dia, eu sairia correndo. Infelizmente, muitos lojistas ainda “testam” seus clientes…e é por isso que os perdem. Somos pedras preciosas, brutas ou já lapidadas, e quem ainda não viu isso está perdendo. Por outro lado, existem lojistas dedicados e menos afoitos para enfiar produtos goela abaixo, que depois do devido cumprimento, explicariam tudo calmamente para seu cliente. Mas o texto não é sobre testes em aquaristas e sim em água de aquário.

Após ter lido neste blog tantos textos sobre aquarismo, o que você acha? Vale a pena investir em testes ou é apenas gasto desnecessário? Vamos ao que penso.

Testes de aquário não deveriam ser considerados gastos desnecessários, mas sim parte do investimento feito pelo aquarista ao planejar seu projeto. Por que?

Bem, eu parto de um princípio simples: apenas olhando para a água não é possível se definir nenhum parâmetro. Eu já vi águas cristalinas, mortalmente preenchidas por altos níveis de amônia e água marrons sem nenhuma marca desse composto. Testes são ferramentas valiosas para munir o aquarista com informação que virá embasar ações certeiras, caso necessário. Como assim?

Se você monitora regularmente o aquário, quando um problema começar a surgir você poderá combatê-lo desde o início, preservando a integridade dos seres ali. Se algo for descoberto repentinamente, você terá a informação crucial que lhe fará tomar a melhor decisão. Por exemplo, ao verificar um pico no nível de amônia, você constata a necessidade de realizar Troca Parcial de água e assim por diante. Mesmo se não é você quem faz a manutenção do aquário, pois há quem terceirize o serviço, ter um teste em casa pode ajudar-lhe a relatar o problema aos responsáveis pela manutenção, os quais usarão sua informação para saber se a ação precisa ser imediata ou não.

Enfim, são tantas benesses em se ter um bom teste à mão que fica difícil argumentar em sentido oposto.

 

Como funciona um teste químico?

Uma assertiva: se você pegar um frasco transparente e nele coletar a água transparente do seu aquário, tentando visualizar íons invisíveis, os resultados serão inconclusivos…Foi nesta vereda que os testes foram pensados…Cada um dos compostos químicos diluídos na água pode ser o alvo de um respectivo teste. Sabendo de antemão o que se quer ver, separamos determinada quantidade de água e adicionamos um produto químico específico, o qual reagirá com nosso íon-alvo. Essa reação adquire alguma coloração, variando de intensidade conforme a concentração de nosso íon-alvo, presente na amostra de água que separamos. A cor final é comparada com um padrão, normalmente uma tabelinha impressa e encaminhada com o produto comprado, ou apenas diz sim ou não para a presença ou ausência de determinado composto.

Este seria o princípio básico dos testes, todavia, considerando o universo de sutilezas entre organismos, no que tange às tolerâncias aos inúmeros parâmetros, os quais muitas vezes fazem toda a diferença entre o “sucesso” e a “falha”, as grandes empresas partiram para a precisão. É certo que no mercado existe uma infinidade de opções, no entanto, apenas uma pequena parcela de marcas pode ser dita confiável e quando se tem peixes, corais e outros animais que requerem medidas mais precisas, bons produtos tornam-se ainda mais cruciais. Por isso, além de dizer que é importante ter testes químicos em casa, eu ainda acrescentaria o fato de que eles devessem ser de boa qualidade.

 

1, 2, 3…testando

Alguns já devem estar se perguntando: “Devo parar de assistir as séries do NetFlix para ficar na frente do aquário fazendo testes a cada 15 minutos?”. Não é pra tanto. A medição de parâmetros no aquário pode ser quinzenal, a cada 3 dias, diária…tudo depende do que estamos falando. Se falamos de um aquário repleto de filhotes, buscando evitar uma catástrofe em indivíduos tão frágeis, eu optaria por um acompanhamento diário, pelo menos até começar a entender o comportamento daquele tanque. Se fosse um aquário com peixes adultos e de espécies mais robustas, em densidade controlada, poderíamos até mesmo pensar em medidas mais espaçadas, uma vez a cada 20 ou 30 dias.

Na verdade, é difícil demais tentar criar uma fórmula geral para dizer como realizar os testes, cada um tem uma função e um porquê…por falar nisso, você aí, lembra o que faz cada teste? Pra que servem? Vou dar uma mãozinha, tentando elencar alguns como mais importantes.

Dentre os principais testes disponíveis no mercado e que, na minha opinião, o aquarista deveria ter consigo em casa, eu destacaria:

Teste de Amônia (NH3)

amônia é tão invisível ao olho humano quanto é perigosa. E foi pensando nisso que preferi começar por este parâmetro, como um dos mais importantes para se saber como está concentrado. Isso porque a amônia livre é extremamente tóxica aos peixes e está presente especialmente nos tanques recém-montados, quando o ciclo do nitrogênio está no começo e as bactérias do bem  ainda se organizam; e também quando existem peixes mortos, entre outros. É provavelmente o parâmetro mais importante para se ter sob controle.

 

Teste de pH

O pH é o Potencial de Hidrogênio ionizado na água. Este teste analisa os níveis de Hidrogênio livre, o H+. Na água neutra você tem equivalência entre H+ e OH–, se houver mais hidrogênio, consequente você terá a água mais ácida e, se for ao contrário (com mais OH–), ela será alcalina. Este parâmetro está suscetível a inúmeras influências, como temperatura, presença de gases dissolvidos e também de outros compostos na água; inclusive se relaciona com a amônia, uma vez que o pH alto incrementa a toxicidade desta.

A importância destes dois primeiros parâmetros destaca-se dos demais, tanto que vemos no mercado dispositivos de alerta justamente para tais características, como é o caso do One Year Alert Combo da Seachem. Trata-se de um dispositivo (uma mão na roda) que, durante um ano, fica te informando como andam esses parâmetros. Poupa um tempinho seu, não é mesmo? Espero que façam mais desses.

 

Teste de Nitrito (NO2–) e Nitrato (NO3–)

Para mim, tudo que está relacionado com o ciclo do nitrogênio tem muita importância. O nitrito, por sua vez, é mais notório no início do aquário, quando o ciclo ainda está imaturo, ele é tóxico e deve ser evitado. Já o seu irmão, o nitrato, embora seja amado pelas algas e seja muito menos tóxico que a amônia ou o nitrito, não pode ser considerado inofensivo. Peixes mantidos em patamares crescentes deste composto podem vir a ser intoxicados em níveis que podem ir desde um estresse reversível como a morte; tudo isso dependendo dos teores, do tempo de exposição e também da espécie em questão.

 

Além dos testes mencionados, mas não menos importantes (talvez menos divulgados), eu poderia discriminar alguns que se deveria ter em casa, já relacionando-os a tipos específicos de aquário.

 

Teste de KH

KH vem de Karbonate Hardness, ou dureza de carbonato. Para que você entenda esta tosquíssima tradução literal, o KH é a capacidade de neutralizar ácidos (o H+, já visto quando falamos de pH) ou “alcalinidade”; também encontramos neste conceito, o termo “efeito tampão”. Por que carbonato? Os testes de KH buscam avaliar íons que costumam se relacionar com o H+ e retê-lo em sua fórmula e eles são especialmente o bicarbonato (HCO3–) e o carbonato (CO3–2). O KH tem papel importante em aquário plantados e para peixes que não toleram alteração bruscas de pH.

 

Teste de GH

O GH ou General Hardness (dureza geral), é a famosa “dureza”, que tantos aquaristas, especialmente os criadores de CAs, falam. Em seu bojo o significado é a presença de metais bivalentes (+2 na carga), como o cálcio (Ca+2) e o magnésio (Mg+2). Assim como o bicarbonato e o carbonato atraem para si o sentido maior do significado dos testes de KH, o cálcio e o magnésio fazem o mesmo na avaliação do GH, deixando outros elementos, que também contam, em segundo plano.

 

Teste de Fosfato (PO4)

Tanto no aquário marinho quanto nos plantados de água doce, o fosfato representa um importante parâmetro a ser controlado. Este composto é a base para a proliferação de algas, assim, deixa de ser nutriente e passa a ser um problema se não estiver na dosagem correta. Uma das principais fontes de entrada é via comida.

 

Obviamente os testes não param por aí, existem muitos outros, alguns ainda com significativa importância para certos tipos de aquário. Ao se aprofundar nos estudos aquarísticos você verá que testes como o de silicatosferrocobreou iodopodem vir a ser necessários. Basta você se munir de informação e procurar lojistas preparados.

Acredito que planejando com calma, adquirindo os principais testes e mantendo algum método ou disciplina no cuidado com o aquário, não haverá erro. Tais ferramentas são formas de se prevenir danos e catástrofes, assim como prover uma vida de alta qualidade aos seres do aquário. Espero que o artigo possa ter trazido algo de útil no quesito “testes, comprar ou não comprar?” e que não tenham tantas dúvidas remanescentes…encontro vocês no próximo artigo! Obrigado e até lá!

Sobre o Autor

João Luís (Johnny Bravo) é brasiliense, daqueles que não se conformou só com o lago Paranoá e foi estudar Oceanologia pela FURG/RS, ingressou no mundo do aquarismo como palestrante e autor de textos há 10 anos, onde cambou para o lado dos Ciclídeos Africanos. Articulista das melhores revistas do ramo, escreveu matérias de capa para a Revista AquaMagazine e Aqualon. Nascido em 1975, é aquarista há 40 anos, pois da água veio e nela gosta de estar. E, hoje integra o time de escritores especializados do Grupo Sarlo.