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Há muito tempo, quando o homem das cavernas utilizava apenas o Filtro Biológico de Fundo (FBF) em seus aquários, era comum o desmonte completo de todo sistema, removendo água, peixes, plantas e até mesmo o substrato. Isso porque toda sujeira captada era acondicionada sob a placa do filtro, a qual ficava oculta abaixo do substrato e a única forma era retirar o que havia no aquário e executar a manutenção. Tudo era levado para a torneira, escovado e lavado até não haver mais resquícios de sujeira.
  
Porém, os tempos mudaram. Como pensar hoje em desmontar um aqua plantado para fazer uma manutenção dessas a cada 15 dias ou mês? E um marinho? Não dá né? As últimas décadas do aquarismo trouxeram inúmeras inovações e facilidades, associadas à eficiência e qualidade, sendo que hoje métodos de manutenção assim já se tornaram obsoletos.
  
O que se faz hoje são manutenções periódicas com a troca de algum percentual (10, 15, 20%) da água, retirando os excessos de sujeira e limpeza dos filtros, rotinas que manterão o aquário por longos períodos.

  

O que há de ruim em se lavar o aquário completamente?

  
Já falamos tanto nos artigos deste blog sobre “bactérias do bem” que acredito que a maioria já saiba a resposta. O fato é que quando se pega tudo que existe no aquário para lavar, a luz, a fricção, a água nova e especialmente o cloro contido nela acabam com as colônias que amadureceram no aquário e que realizavam a ciclagem de compostos nitrogenados, tornando-os não-tóxicos.
  
Uma vez que o aquário receba esta espécie de esterilização microbiana, há um “boot” no ciclo, ou seja, tudo começa de novo e os subprodutos da decomposição da matéria orgânica (excretas dos peixes, ração, folhas mortas etc.) virá ameaçar a vida dos habitantes. É praticamente a mesma coisa de se começar com um aquário novo, recém-comprado, um momento também conhecido como “a síndrome do aquário novo”, que para os leigos é um momento místico em que os peixes são ceifados por Netuno, e que para nós aquaristas é certeza da ausência de uma colônia madura dessas bactérias boas.
  
“Ok, mas existem regras para se limpar um aquário?” Bem, se você preferir, pode chamar de dicas….e essa é a ideia do artigo, trazer algumas dicas e lembretes para aumentar as chances de tudo dar certo na hora da manutenção.

  

1º passo: separar o material

  
“Pegue o balde que é sempre usado para limpar a casa, onde se usa todo tipo de produto químico de limpeza.” Parece correto para você? Não né? Recomenda-se o uso de material próprio para o aquário, desde a escovinha que é usada para limpar troncos e pedras (normalmente novos ou com excesso de algas), até o(s) balde(s) que traz(em) a água nova. Identifique, ponha cerca elétrica ou o que for…é importante que haja garantia que você é o único a manusear esse material e que ele esteja isento de contaminantes químicos impróprios.
  
De itens de limpeza importantes para se ter eu diria que o essencial é: balde (ou no plural), canecão/jarra plástica, limpador de vidro magnético (pode parecer supérfluo, mas ao longo de sua vida aquarística você irá reconsiderar), sifão, escovão, escova de dente macia e bucha/espuma.

  

2º passo: salvaguarda do que é importante

  
Imaginando que você esteja fazendo uma manutenção periódica, este 2º passo é crucial: manter a mídia biológica (cerâmica, bioball etc.) a salvo. Se fôssemos comparar a uma cirurgia delicada, como transplante de coração, a mídia a ser retirada do aquário “sujo” precisaria de um local adequado para aguardar até estar apta a ser colocada no aqua “limpo”.
  
Tal qual a maleta térmica mantém o coração, o uso de um recipiente com a própria água do aquário é o desejável. É bom reforçar que o tempo de permanência da mídia não deve ser por demais longo. Assim, já planeje onde ela ficará. Com o sifão, antes de começar a limpeza, tire água do aquário suficiente para que a mídia a ser preservada possa permanecer completamente submersa.

  

3º passo: a limpeza

  
Se eu fosse criar passos para limpar…tá bom, já criei (sou metódico sim)…faria assim:

  

Desligar equipamentos elétricos
  
Não há o que dizer além de “eletricidade e água não combinam”. Para evitar qualquer trapalhada ou esquecimento, antes de mais nada, desligue tudo que fica submerso no lugar que você vai meter a mão.

  

Limpeza do vidro
  
Nada de esponjas verde-amarelo (ou qualquer outra cor), especialmente se estiver tentado a usar a parte verde e ainda mais especialmente se seu aquário não for de vidro e sim acrílico. Você pode até não se importar com um ou dois arranhões (eu me importo muito), mas ao longo do tempo será possível observar o efeito abrasivo, que deixará o vidro/acrílico muito menos transparente, com aquele aspecto de embaçado – na verdade, uma nuvem de arranhões.
  
Não invente muito aqui. Espátulas plásticas, para remoção de certas qualidades de alga, ou o uso rotineiro de um limpador magnético, PRÓPRIO para aquário e para o tipo de superfície (acrílico ou vidro), manterão a clareza necessária para que você continue a ver o interior do aqua.
  
A sugestão é limpar sempre debaixo para cima, trazendo tudo até a superfície até sair da água, retire o item usado e limpe-o sob água corrente – você que pensava o porquê da escova de dentes, que eu elenquei ali em cima, agora já percebe um dos usos para ela.

  

Limpeza do fundo/substrato
  
Alguns minutos após ter limpado o vidro, alguma poeirinha daquela limpeza já assentou. Pegue o sifão de novo. Esta é a hora em que faz diferença aquela escolha que você fez ao montar o aquário, deixando uma inclinação na disposição do substrato: maior atrás e mais baixo na frente. Durante todos os dias desde a última manutenção a grande maioria da sujeira, não coletada pelos filtros, agremiou-se na frente. Agora ficou mole!
  
O sifão ajuda, inclusive, se o seu caso for um carpete de plantas rasteiras cobrindo o fundo. Delicadamente posicionado sobre certa região, o instrumento retirará os acúmulos de matéria orgânica que são retidos pela folhagem; realmente não é fácil fazer limpeza por zonas densamente plantadas.

  

Limpeza do filtro
  
Ligue os holofotes, ponha música de suspense e vamos à cirurgia! Comece pelos filtros que não tenham mídias biológicas, como um filtro que contenha somente perlon, por exemplo (o perlon sim vai para debaixo da torneira ou mesmo pro lixo, pois ele precisa ser substituído constantemente).
  
Para os filtros que contenham outros tipos de mídias filtrantes, seja ele canister, hang on ou interno , retire as mídias biológicas, enxague-as com água do próprio aquário até perceber que não há nada de sujeira acumulado nelas. Acomode-as naquele recipiente que você já preparou antes (2º Passo) para recebê-las e cubra-as com água do aquário.
  
Agora vai outra utilidade para a escova de dente, as bombas submersas, seus rotores, o cano do hang on ou canister, podem ser limpos, retirando as algas que se acumulam neles (o uso de buchas macias para esses canos também está ok).

  

4º passo: reposição da água

  
Eu poderia ter iniciado com esse subtópico, pois o certo seria você ter tudo pronto antes de começar a mexer, mas assim serve também. Neste ponto você já sifonou bastante e uma certa quantidade de água já se foi – planeje isso também, evitando tirar mais que 15% (que já é uma quantidade boa para trocas parciais rotineiras). Agora é hora de repor a água adequada para o sistema.
  
Se seu aquário é do Malawi, por exemplo, você já deve ter adicionado os sais próprios para CAs e feito todas as medidas de parâmetros, antes de começar a limpeza propriamente dita (por isso disse que poderia ter começado por esse tópico). Eu sempre mantive baldões de 70-80 litros com água descansada, já prontinha para uso. Nestes recipientes eu já cuidava de todos os parâmetros – até porque sou contra a adição do sal diretamente no aquário – e também da desclorificação.
  
Usando outro exemplo, se seu aquário é de apistos, black water, você já deveria ter prontinha a água deionizada, fazendo o chá de folhas mortas, além de ter iniciado o aquecimento dela no local onde ela se encontra.
  
A chegada da água nova deve ser o menos impactante possível, o que significa dizer que os parâmetros químicos (sais, pH e tudo mais) e a temperatura já devem ser iguais ou estar próximos ao do aqua. A reposição deve ser lenta, sendo que, caso você não tenha nenhum sistema automático, o uso de uma jarra ou, melhor, de uma mangueira (o mesmo sifão que você usou para tirar a água) ajudaria nessa tentativa de diminuir o impacto da água nova.

  

“Deu Ruim”

  
Claro que precisamos abordar isso aqui, pois pode acontecer de tudo dar errado. Não se trata de um 5º passo neste resumo, mas sim de um destaque tratando de quando as coisas não dão certo e algo urgente precisa ser feito. O pote de ração virou? Uma doença acabou com todo o significado de aquarismo? Seu Van Gogh desprendeu da parede e caiu no aquário, soltando tinta? (Era falso!)
  
Se a situação não é remediável, o Plano B precisa ser posto em prática: lavar tudo como se fosse a primeira vez! Literalmente retirar tudo para limpar, como nos primórdios do aquarismo.
  
Aqui precisaríamos ampliar o sentido de “salvaguardar o que é importante”, pensando onde deixaríamos os peixes (e outros organismos) e plantas, além de resguardar a mídia biológica.
  
A acomodação de peixes deveria ser em aquários, baldes ou recipientes que não tiveram contato com produtos de limpeza. Detalhe importante: visto que agora, nessa condição, não há mais layout com cavernas e moitas de plantas, misturar peixes maiores e menores, assim como peixes e pequenos camarões, pode não ser uma boa. Organize de forma segura, deixando os mais “parecidos” no mesmo recipiente. Isso é para que o “ruim” não se torne “ruim2”.
  
Ah, dois lembretes: 1) sempre utilize tampa, seja para balde, seja para qualquer outro recipiente e 2) se vir que o procedimento vai ser longo, providencie aeração para os baldes/recipientes, os peixes estarão estressados, consumindo mais oxigênio que o normal, e se eles forem grandes, o consumo é ainda mais acelerado.
  
Como este tipo de limpeza, traduzida como uma limpeza “esterilizadora”, sua preocupação mais imediata será com a ação da amônia e com a recuperação da colônia de “bactérias do bem”. “E o que fazer agora? Todos meus peixes morrerão?” Se você não agir rápido, há essa possibilidade sim.
  
Entretanto, para evitar o pânico, cabe dizer que esta válida apreensão pode ser assistida por produtos disponíveis no mercado; produtos estes que fornecem diretamente ao aquário misturas apropriadas (em tipos e quantidades) de bactérias que auxiliam na estabilização, as quais não sofrem com as condições adversas de temperatura ou pH – observação: não esqueça de desligar filtros do tipo UV ou de ozônio neste momento, para evitar que eles eliminem tais ajudantes. Elas lhe darão o tempo que você precisa para a comunidade bacteriana se recompor, enquanto seus peixes nadam no aquário. Este tipo de produto também serve para os mais apressadinhos, que não querem esperar a formação e estabilização natural das bactérias.
  
Aliado a isso, para receber as novas bactérias, tenha à disposição (ou adquira) produtos para remover o cloro e a cloramina, assim como um que converta a amônia numa forma não-tóxica. Não é porque você está com pressa ou em apuros que a água da torneira virá com menos cloro e se tornará menos agressiva aos peixes.
  

Como vimos, limpar o aquário não é uma arte destinada aos mestres, mas sim apenas uma sequência de observações e procedimentos, os quais, caso você reúna os instrumentos certos, serão tirados de letra. São procedimentos simples, mas necessários, os quais refletirão no bem-estar geral, seu e do seu aquário.
  
Espero que estas palavras tenham lhe sido úteis, trazendo ao menos, alguma reflexão. Agradeço a leitura e os aguardo no próximo texto, inté mais!