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João Luís é oceanólogo, escritor, entusiasta e aquarista desde sempre.
Grupo Sarlo – 09 de Novembro de 2015

 

Filtros, o que eles fazem além de filtrar meu dinheiro para o lojista? 

 

A boa notícia é que temos muitos lojistas a fim de fazer clientes felizes, que sabem oferecer as melhores marcas e produtos adequados ao seu bolso e interesse. Mas a melhor notícia é que investir em sistemas de filtragem eficientes e confiáveis é o mesmo que investir na qualidade da água do aquário, mantendo os peixes saudáveis, os quais viverão por longos anos. Águas cristalinas, sem ‘cheiro de peixe’ no ambiente, mantendo em desenvolvimento apenas as bactérias que nos interessam e removendo todos os dejetos não desejados. É isso que os aquaristas buscam e isso só é possível se você entender e executar ela (a filtragem) de forma eficiente, o que significa dizer que em seu aquário seria recomendável que houvesse, ao mesmo tempo, as filtragens biológica, química e física. ‘What a hell is…?’ Calma, vamos lá!

Sou das antigas, muitos dos meus amigos me lembram disso todos os dias quando querem falar comigo no Whatsapp e não conseguem, porque eu não tenho (sem comentários, por favor). Mas não é por isso que eu diria pra vocês usarem os antigos filtros biológicos, aquelas placas que enterrávamos sob o substrato e que puxava toda sujeira pra lá. Biologia (no aquário) hoje é melhor entendida como ‘manter colônias de microrganismos trabalhando compostos químicos de formas mais agressivas para formas que podem coexistir com o resto do ambiente (plantas, peixes, crustáceos etc.)’. Tais microrganismos ‘amigos’ são bactérias. E onde as mantemos?  Principalmente nos filtros. Dentre os diversos tipos de mídias filtrantes disponíveis (aquilo que colocamos dentro dos filtros) encontramos bio-balls e rolos/anéis de cerâmica, os quais cito apenas como exemplo por serem realmente diversos em tamanhos, qualidades e marcas; e mesmo a função. O que itens como esses têm de especial? Poros. Sim, poros, como sua pele. O fato de ter poros é que aumenta efetivamente a área superficial ou, de maneira simples, a quantidade de espaço em que as bactérias podem se estabelecer. Uma vez ali elas começam trabalhar por nós. Dentre as bactérias desejáveis estão aquelas que agem sobre a amônia (NH3) e o amônio (NH4+), que em altas concentrações podem matar os seres no aquário (lembrando que existem espécies mais e menos sensíveis aos níveis desses compostos). Elas nada mais fazem que transformar tais substâncias em outros compostos químicos, como os nitratos, que são formas que as plantas adoram (inclusive algas).

Por isso não seria estranho se você ouvisse algum aquarista dizer que os lugares onde estão essas mídias são como o coração ou pulmão do aquário. Nós não mexemos ali toda hora nem lavamos com água da torneira sem piedade, tampouco deixamos expostos ao ar enquanto fazemos uma manutenção do aquário. Tal como um coração (e nós os cirurgiões) fazemos uma limpeza cuidadosa, com a própria água do aquário que iremos descartar em breve, removendo apenas o excesso de resíduos se ali houver. Devolvemos as mídias para o filtro e logo para o aquário.

‘Mas o Johnny deve ter um daquele filtros profissionais que faz Troca Parcial de Água-TPA automaticamente, cappuccino e torradas e fica aí tirando uma com a nossa cara!’ Nem é, longe disso inclusive. Sabe um filtro que tenho e adoro, mas que muitos não gostam porque é feio? O Filtro Biológico Modular ou FBM – aquele em formato de ¼ de círculo, que encostamos no fundo do aquário e colocamos uma Sarlo Better pra rodar. Sim esse mesmo! Você pode dimensionar ele de todas as formas, pois uma vez que os módulos são removíveis você decide a altura e o que coloca de mídia em cada lugar; e o dimensionamento do poder de filtragem, como faço? Hehehe…fácil…tem Sarlo Better de tudo que é jeito. Eu sempre calculo a vazão por hora em 4 ou 6 vezes o volume real do aquário. Como faz? Se meu aquário tem 100 litros de volume real (desconsiderando o volume ocupado por rochas, substrato etc.) eu uso 3 bombinhas Sarlo 180 (que roda 180 litros/hora), em 3 distintos FBMs, ou seja, tenho 3 filtros (3×180) que em 1 hora filtram 540 litros de água. E isso initerruptamente, pois não devem ser deligados para preservar as preciosas colônias de bactérias.

E sobre filtragem física? 

Isso nada mais é do que você remover a sujeira do aquário, como folhas, dejetos, restos de comida (que espero que não haja muito no seu aquário) etc. Essas coisas aqui não devem ficar nas mídias de filtragem biológica não, viu? Elas devem ser retidas pelas mídias de ‘filtragem física’, sendo a mais comum o Perlon (aquela lãzinha branca). Esse perlon podemos até lavar algumas poucas vezes, mas normalmente trocamos por um novo. Na minha época de ciclídeos do Malawi, onde o FBM tinha uns 5 andares, eu mantinha perlon no superior e cascalho (de granulometria média e uniforme) no segundo, ambos para realizar filtragem física. Alguém arrisca qual Sarlo eu usava? O aqua tinha 250 litros. Façam suas apostas! Provavelmente vão errar, era a 2000. Exagero? De certa forma, mas o motivo era que devido à quantidade de peixes ser maior, assim como seus tamanhos e sua própria atividade fisiológica, na saída do filtro eu havia ligado com um sistema caseiro de circulação de água chamado UGJ Undergravel Jat. Esse sistema nada mais é que um circuito de canos que corre sob o substrato e dele saem pequena ‘torres’ ao longo do caminho, as quais eu furo ao redor para criar os ‘jatos’ de água. Sua função se resume a melhorar a circulação e evitar as zonas mortas, algo que coopera com a otimização do sistema de filtragem, pois não deixa acumular sujeira entre as rochas – e os aquários de Ciclídeos Africanos-CAs são pura rocha.

E filtragem química? 

Esse tipo utiliza-se de propriedades e reações químicas para remover substâncias não quistas em nossas águas, sendo que algumas já citei. É comum encontrarmos removedores de amônia, de nitrito, de silicato etc. que são adicionados diretamente na água ou mesmo sob a forma de mídias filtrantes, como as resinas. Porém, o produto mais comum e que possivelmente todos já ouviram falar é o carvão ativado. Sua efetividade e larga aplicabilidade são devidos a um processo chamado adsorção. Adsorção? Não sabe? Não, não tem nada a ver com alienígenas (desculpe-me Giorgio Tsoukalos!), isso seria abdução. Adsorção é relacionada uma superfície porosa interna, capaz de reagir ou se combinar com substâncias dissolvidas na água, sejam elas gasosas ou líquidas, retendo-as. É justamente parte do processo, amplamente utilizado, para remoção odores ou gosto no tratamento de água (o filtro da sua casa deve ter). É tão eficiente que normalmente essa mídia é removida ou o filtro que a contém é desligado quando usamos remédios ou fertilizantes no aquário, tamanha é a capacidade de adsorver substâncias que ele tem. Ele é bem ‘ativo’ em substâncias como cloro, cloramina, alguns compostos orgânicos como os que dão o ‘cheiro de peixe’ na água, mas é pouco reagente com elementos como ferro ou manganês e substâncias como a amônia, nitritos e nitratos. Lembro que é pertinente você entender que uma vez que os espaços (poros) são preenchidos convém substituir o elemento, visto que ele passa a não mais colaborar.

Mais um detalhe sobre o carvão, na maioria das vezes os aquaristas buscam por carvões com baixa quantidade de fosfato ou ausência dele, pois tal substância é um nutriente, podendo facilmente desequilibrar as condições da água. É bom você conhecer boas marcas e muitas vezes isso está associado a empresas com tradição no mercado, uma vez que para zelar pelo nome conquistado elas produzem com mais responsabilidade. Agora, sem mesmo assim você não gostar do carvão ativado no seu aquário, não precisa jogar fora, você pode usar ele na sua geladeira pra remover aqueles cheiros ruins (ah! Diz aí, se amarrou nessa hein?).

E por fim, é importante ressaltar que por melhor que seja seu filtro, por mais cuidadoso que você seja na limpeza dele, por mais sorte que você tenha, além das manutenções periódicas você deve primar pelas salvadoras TPAs, que citei lá em cima. Feitas na medida e da forma correta elas concluirão o processo iniciado pelos filtros.

Agradeço aos bravos leitores que vieram até aqui e também aos que pularam diretamente para o fim. Espero reencontrá-los nos próximos textos, onde continuaremos a falar sobre aspectos relacionados à qualidade da água.

 
 
Sobre o Autor

João Luís (Johnny Bravo) é brasiliense, daqueles que não se conformou só com o lago Paranoá e foi estudar Oceanologia pela FURG/RS, ingressou no mundo do aquarismo como palestrante e autor de textos há 10 anos, onde cambou para o lado dos Ciclídeos Africanos. Articulista das melhores revistas do ramo, escreveu matérias de capa para a Revista AquaMagazine e Aqualon. Nascido em 1975, é aquarista há 40 anos, pois da água veio e nela gosta de estar. E, hoje integra o time de escritores especializados do Grupo Sarlo.