Não, não se trata de uma mais uma “piaba” sem graça do Johnny, iremos mesmo falar de piabas neste artigo….e se você resistir aos trocadilhos até o final, verá que algumas piabas estarão, inclusive, nas lojas de aquário, esperando um aquarista cuidadoso e interessado como você para levá-las para casa e dar-lhes toda merecida dedicação que um peixe ornamental tem direito.
  
As piabas estão para os caracídeos, como os carás estão para os ciclídeos. O que eu quero dizer com isso? Que piaba é um nome popular que engloba trilhões de espécies (ôôô exagero) de pequenos caracídeos, os quais, dependendo da região do país, reúnem sob tal nome diferentes (bem diferentes) denominações científicas. “Piorou. Como assim?” Se pegarmos o exemplo do “cará”, que também é um nome vernacular, e formos analisar, veremos que temos esse peixe em todo país praticamente. Soa um pouco estranho pensar que num país de tamanho continental, como é o Brasil, haja um peixe não-invasor que esteja presente em todos os ambientes. Só que, ao fazermos isso com base científica, veremos que falamos de peixes tão distintos quanto suas formas, cores e gêneros; por falar nisso, um “cará” pode ser Australoheros, Geophagus, Aequidens, Satanoperca, Laetacara e outros.
  
O mesmo acontece para as piabas…e é sobre elas que falaremos, tomando como exemplos peixes que estão em gêneros que, embora sejam diferentes entre si, conservam, cada um, um status “cabide”, ou seja, contêm peixes que precisam urgentemente de revisão taxonômica, uma vez que não deveriam estar agrupados assim – o mesmo ocorreu para o gênero Cichlasoma dos ciclídeos, distribuídos em novos gêneros como Mayaheros, Archocentrus ou Amphilophus, entre outros, após a revisão. Com relação às piabas, refiro-me aos gêneros da família Characidae Astyanax e Moenkhausia, tecnicamente ditos Incertae Sedis.
  
Pode ser que, ao ver um dos peixes pertencentes a um desses gêneros, você mesmo diga: “Ah, mas esse peixe aí é um lambari, não uma piaba! Siminino Johnny não sabe de nada!” Sim, pode ser mesmo, porém, lembro que a nomenclatura popular quem dá são as pessoas e, dependendo da região onde se vive, um chama de piaba e no município vizinho, rio abaixo, chama-se o mesmo peixe de lambari.
  
Entretanto, para desatar nós de confusão, você pode substituir piaba por lambari, ou vice-versa, em todas as passagens neste artigo, pois dá na mesma, sem prejuízos de compreensão. Digo isso, pois quando falar de um peixe específico usarei os nomes científicos ao invés dos populares, o que impede de confundir os lambaris, ou seja, um Astyanax fasciatus será, ao mesmo tempo, a Piaba-rabo-vermelho, o Lambari-rabo-vermelho, a Piaba da Bahia e a Piaba Alto Amazonas.
  
Embora as piabas (lambaris) mais emblemáticas sejam as representantes dos gêneros Astyanax e Moenkhausia, diversos outros gêneros podem ser achados quando algum compatriota denomina o peixinho de seu rio com o nome de seu conhecimento; dentre as dezenas de gêneros encontrados, os mais familiares aos aquaristas seriam: Hasemania, Hyphessobrycon e Hemigrammus (outros menos comuns: Serrapinnus, Cheirodon, Deuterodon, Bryconamericus, Diapoma, Jupiaba e por aí vai…).
  
Imagina que confusão lidar com a diferenciação de tantos peixes (centenas deles) com apenas dois nomes populares, designadores de significado próximo a “pequeno caracídeo que vi no rio”. Salve a taxonomia!
  
Chegou a hora de transformarmos nossas piabas em peixes ornamentais.
  

Moenkhausia sanctaefilomenae (Tetra Olho-de-Fogo)

  

  
Este belo exemplar da família Characidae é originário do Pantanal, o que se traduz ao aquarismo como um ambiente composto por vegetação densa, tanto submersa quanto de superfície, criando inúmeras zonas de sombreamento, águas mais quentinhas (em torno de 22ºC a 26ºC) e pH que pode variar entre o levemente ácido e levemente alcalino (6,0 a 8,0).
  
Não ultrapassa os 7 cm, porém, os aquários recomendados são os acima de 100 litros. Muito adaptável ao cativeiro, alimentam-se de tudo (ração em flocos ou pequenos bits), sendo que é importante fornecer também ração a base vegetal.
  
Trata-se de um peixe de cardume (quantidade ideal: 6 a 8 indivíduos) muito ativo, podendo até mesmo serem considerados como “beliscadores de nadadeiras”, comportamento que pode intimidar peixes de nado lento. Bons colegas seriam peixes de tamanho similar dentre os demais tetras, barbos e ciclídeos não-agressivos; corydoras e cascudos também se fazem boas escolhas.
  
Muito prolíficos, as fêmeas podem ser reconhecidas por serem mais roliças na época de reprodução. Costumam desovar sobre moitas de vegetação, em águas moles e mais ácidas (pH 6,0), como a maioria dos tetras, sem apresentar qualquer cuidado parental.

  

Moenkhausia pittieri (Tetra Diamante)

  

  
Endêmico dos arredores do lago Valência, na Venezuela, um ambiente que não deve ser reproduzido em seu aquário, se considerar sua situação atual: poluído e eutrofizado, já não conserva tantas áreas saudáveis como se gostaria. Ainda assim, o tetra diamante localiza-se preferencialmente em zonas bem vegetadas e de baixo fluxo de água.
  
Peixe pequeno, com cerca de 6cm, são recomendados para aquário a partir de 70 litros, com águas quentes (24ºC a 26ºC) e pH de neutro para ácido (5,5 a 7,0) – dependendo das características de sua água, pode ser requerido algum condicionador para deixá-la mais ácida.
  
Embora esteja registrado que prefere aquários densamente plantados, este singular peixe é do tipo adaptável, podendo compor aquários comunitários diversos, assemelhando-se ao que foi colocado para o Tetra Olho-de-Fogo no que se refere a números de indivíduos, tipos de companheiros e também sobre a questão de “mordiscar caudas alheias”.
  
De comportamento reprodutivo similar ao seu congênere, distingue-se os machos por serem maiores e por apresentarem mais das destacadas escamas brilhantes (que é o que dá nome ao peixe), estes também têm nadadeiras (ventral, caudal e dorsal) maiores, as quais ganham colorações azuladas e violetas.

  

Astyanax jordani (Tetra cego das cavernas)

  

  
E você que pensava que piabas eram todas sem graça, hein? Eis aqui outro memorável representante da classe. Segundo o Fishbase.org, recentemente (2009) esta espécie foi entendida como derivada de outra espécie: Astyanax mexicanus, um peixe normal, que vive em rios mexicanos. Embora encontremos ainda informações que Astyanax jordani se trata apenas do troglomorfismo de Astyanax mexicanus, ou seja, que o peixe que aqui trago é apenas uma versão cega de A. mexicanus, eu fui atrás para saber mais e vi no Check List feito por Reis, Kullander e Ferraris em 2003, que Astyanax jordani é uma espécie válida e distinta de A. mexicanus. É possível encontrar relatos de que é incorreto, mas optarei pelo seguro, deixando-os separados.
  
“Peraí Johnny, o que é troglomorfismo?” Ah sim, vale a pena a explanação. Você já deve ter associado o termo à expressão “ele é um troglodita!”…então, tem mesmo a ver, pois faz jus às cavernas, isto é, diz-se do ser que adquire qualidades para habitar cavernas ou locais de escuridão plena, tais como perda de pigmento, atenuação de apêndices, perda ou redução extrema dos olhos.
  
No tetra cego das cavernas, a ausência dos olhos lhe permitiu desenvolver sentidos mais acurados, com maior número de receptores localizados na cabeça e sensibilidade da linha lateral, onde ele sente leves movimentações na água para poder se alimentar, locomover ou encontrar parceiros para reproduzir. Não é porque ele seja cego que seja considerado desprovido de meios efetivos de sobrevivência. Ele é um guerreiro! Não é para menos, pois a etimologia de Astyanax se desdobra para o significado modesto de “filho de Heitor”, o mitológico herói de Tróia, filho de Príamo e de Hécuba. Astyanax jordani peixe é um honorável representante do gênero.
  
Este lambari-guerreiro, muito comum no hobby em nível mundial, é pacífico e tímido, podendo ser incluído em aquas onde os companheiros sejam também bem-comportados. Não se importa com a decoração, embora os aquaristas recomendem um layout que envolva cavernas.
  
Não se torna grande, ficando em torno dos 10cm, e prefere águas com pH entre 6,0 e 8,0 e temperatura de 20°C a 25°C. É bem capaz que você precise tanto de um regulador de pH, para deixá-lo neutro (ótima faixa), quanto de um aquecedor (com termostato).
  
É um peixe com reais condições de reproduzir em aquário. Para tal, além do fato de ser interessante ter um pequeno grupo (4 a 6 indivíduos), é legal que as rochas de sua “caverna” tenham reentrâncias; esta é uma maneira que desenvolveu de proteger seus ovos (adesivos) da predação, tanto dos peixes (incluindo os próprios pais) como de outros seres – já que não cresce musgo de java na escuridão completa, vai rocha mesmo!
  
Viu? Não é porque lambari pareça “piada” no aquarismo que não mereça nossa atenção…é só mais uma pincelada no vasto universo dos peixes ornamentais.

E assim finalizamos mais um capítulo de nosso encontro quinzenal. Espero, ao menos, que a partir de hoje, ao ouvir alguém dizer “ali no rio tem umas piabas” ou “até que na represa tem um monte de lambari colorido” você não considere a questão tão simples…hehehehe. Desejo que surjam questionamentos do tipo: “Serão Astyanax? Serão do gênero Moenkhausia?” E que a provocação lhe sirva de ímpeto para saciar curiosidade e que a curiosidade seja isca para você buscar sempre mais conhecimento.
  
Agradeço a leitura! Até o próximo artigo!