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Julho de 2018
  
Ah se ter um aquário fosse apenas colocar água e peixes…seriam menos preocupações, menos problemas, menos produtos a comprar, menos textos do Johnny, tudo isso. Todavia, nós, aquaristas dedicados, sabemos que para a correta manutenção de espécies em aquários a água vai muito além do “insípida, inodora e incolor”…se formos mesmo pensar a respeito ela terá, muitas vezes, cor e sabor…o cheirinho a gente tenta controlar e pode dispensar. Carvão ativado nela!
  
A água é o ambiente primordial para a vida dos peixes e deve ser cuidada com impecável dedicação, tal como fazemos com nossa saúde, nosso lazer ou o cumprimento das promessas de Réveillon…bem, neste caso, é melhor subir uns degraus de compromisso.
  
A preocupação com a água começa na fonte, ou seja, de onde a captamos, algo que, na maioria das vezes, implica em fazermos algo com ela antes de habitarmos o aquário com peixes e outros organismos vivos.
  
E por onde começaríamos a falar sobre o preparo da água? Na minha opinião, do mais elementar dos detalhes…

  

O Cloro

  
Claro que o cloro deveria aparecer aqui! Parece bobagem, não? Falar de cloro na água, num hobby que tem isso como a base dos cuidados com o aquário. Porém, a verdade é que muita gente desconhece os efeitos da ação do cloro ou não se importa com isso.
  
“Por que há cloro na minha água? Quem mandou botar?” Ok, vamos por partes. Especialmente para as pessoas que vivem em cidades com saneamento básico, o processo mais comum para a desinfecção de água é chamado cloração. Adivinha por que? Porque usa-se cloro para tornar a água potável.
  
O cloro (cuja sigla do elemento químico é “Cl”) compõe o método de tratamento e desinfecção mais comum de efluentes sanitários. Uma das formas mais eficientes e baratas de controlar as doenças de veiculação hídrica (como, por exemplo, amebíase, hepatite infecciosa, cólera, dentre as mais comuns), o desenvolvimento e proliferação de algas aquáticas e a retirada de odores. Assim, por desinfecção, entenda literalmente “acabar/refrear as populações de bactérias” (índices ligados normalmente aos coliformes totais e fecais.
  
O uso do cloro, assim como de outros químicos na água, é determinado de acordo com a finalidade daquela água (limites estabelecidos pela Resolução CONAMA nº 357/05, que dispõe sobre a classificação dos corpos de água, entre outros). Abastecimento de residências? Descarte num rio? Na maioria dos casos, a presença de microrganismos é admissível, em algum nível, mas para água potável, a tolerância é baixíssima e por isso sempre haverá cloro na água da sua torneira.
  
Em resumo, o cloro é adicionado à água, formando o ácido hipocloroso (HOCl), o qual após uns 30 minutos já agiu sobre as bactérias e demais microrganismos. Outros compostos também podem ser formados no contato com a água, tal como o íon hipoclorito (que nos soa familiar, pois conhecemos a água sanitária = hipoclorito de sódio). Estas duas formas citadas (hipoclorito e ácido hipocloroso) são definidas como cloro residual livre.
  
A questão do cloro ainda vai mais além, uma vez que os compostos formados dependerão, entre outros, da concentração de cloro, pureza da água, tempo de reação, pH e temperatura. Dessa forma, quando existem na água amônia ou combinados amoniacais, são formados compostos clorados ativos, denominados cloraminas (NH2Cl). O cloro presente sob a forma de cloramina – seja ela monocloramina, dicloramina (com maior efeito bactericida do que a mono), tricloramina (sem efeito desinfetante…vai entender) – é denominado cloro residual combinado.
  
…e essa história toda é para você ter certeza que a venda de produtos que neutralizam o cloro e suas formas livres ou combinadas, não é apenas invenção. O cloro é muito mais que uma palavrinha perdida no aquarismo, ao contrário, carrega consigo muitos significados e combinações. E mais, quem usa água encanada da torneira, vinda de alguma unidade de tratamento, vai ter que lidar com ele.
  
“E o que o cloro faz no peixe?” O cloro é abrasivo! Nunca ouviu os avisos para não entrar na piscina porque acabou de colocar cloro? Então, o princípio é o mesmo. As regiões expostas dos peixes são atacadas pela ação corrosiva do cloro (queima mesmo), o que implica dizer que as mucosas e as guelras são as primeiras a serem afetadas.
  
Em casos de maior presença de cloro é possível visualizar o corpo do peixe ficar esbranquiçado (cobrindo os olhos também), começando pela película de muco que envolve o peixe e o ajuda contra infestação de parasitas, e as guelras ficarem vermelhas (veremos mais adiante como as guelras são importantes e influenciam todo resto do funcionamento do peixe).
  
O mundo do cloro ainda ficará por muito tempo. Como se trata de uma tecnologia dominada pela humanidade, utilizada em todo mundo há praticamente dois séculos (primeiro registro foi em 1893, em Hamburgo, Alemanha) para tratar esgoto, sendo ainda de baixo custo de implantação e manutenção – comparado às demais opções – e de indiscutível eficiência, é bom se acostumar. Adquira produto que atue sobre o cloro livre e a cloramina e passe para a próxima fase de preparação da água do aquário.

  

Reconhecendo a água do aquário

  
Novamente, nos deparamos com mais uma prova de que “água” não é uma coisa só por definição. Se você tira água de poço artesiano, se coleta de um rio, se recebe ela encanada na torneira etc., saiba que ela pode ter características próprias que mudam tudo.
  
Se ela já sai dura, quer dizer que os sais para ciclídeos serão menos exigidos ou que você terá um trabalhinho extra, no caso de querer montar um aqua de Apistos. Isso me lembra algo. Dentro do aquarismo de água doce temos dois estremos: água ácida e mole e alcalina e dura.
  
Pensando da mesma forma como foi feito para o cloro, você já imaginou ou refletiu sobre os significados desses tipos de água, os impactos e as características para a vida no aquário?

  

Água dura (mineralizada)

  
A dureza de uma água é majoritariamente medida a partir da presença de dois metais dissolvidos: cálcio e magnésio. Coadjuvantemente outros entram na conta, normalmente com valência +2, tal qual o ferro, manganês, estrôncio, bário, zinco, mas também outros como alumínio (+3), etc. Uma água com altas concentrações desses metais é chamada “água dura”.
  
“Sim, isso eu já sabia…mas e daí? Qual o problema de colocar um Acará-Bandeira (amazônico) em água dura?” Osmorregulação (processo passivo) é um, regulação/homeostase iônica (processo ativo, com gasto energético, normalmente promovido por enzimas) outra.
  
Muitas vezes os íons desses metais são requeridos em quantidades específicas nos fluidos intra e intercelulares, para promover diversas funções. No caso do cálcio, em geral, os vertebrados dependem dele para a formação do esqueleto, entre outras atividades celulares.
  
As brânquias têm papel central nesses processos que envolvem entrada e saída de íons, apresentando respostas diretas às alterações na água. Isso porque são altamente vascularizadas e também por serem o principal acesso/contato do animal com o meio circundante. Tanto é verdade, que o correto funcionamento dos outros órgãos do peixe, sobretudo rim, fígado e intestino, depende da integridade das guelras. Se elas ficarem danificadas (inchadas, machucadas ou estressadas de alguma forma), um encadeamento degradativo de eventos é iniciado.
  
O processo se alia ao fato dos níveis de cortisol no peixe (um indicador de estresse no animal), uma vez que se trata de hormônio multifuncional, ligado às respostas fisiológicas, ao metabolismo, à osmorregulação, crescimento, reprodução e sistema imunológico, ou seja, TUDO; além disso, está intrinsecamente ligado aos órgãos mencionados, afetando-os diretamente.
  
Destaque para os rins, os quais também são ultra irrigados de vasos sanguíneos e essenciais aos processos osmorregulatórios. Por isso, é um dos primeiros a ser afetado em caso de desbalanços e agressões iônicas, alterando tanto sua estrutura como o funcionamento. Seu descompasso causa prejuízo no transporte de íons, especialmente os de valência +2, que começamos o artigo falando.
  
Com o sistema comprometido, ou em mau funcionamento, os danos continuam, pois são afetadas as concentrações corpóreas de cloreto de sódio (NaCl), açúcares e aminoácidos.

  

Água mole

  
No outro polo, encontramos a água desmineralizada, isenta de íons, a qual se torna mole e ácida. Na esmagadora maioria dos casos, para se obter uma água assim, é necessário fazê-la passar por um processo denominado deionização. Como opção, pode-se passar a água por: 1) uma resina que retira os íons por troca iônica, reduzindo a condutividade elétrica (quanto menor, maior a deionização ocorrida), ou seja, as cargas elétricas da água são neutralizadas (com adição ou remoção de elétrons) ou 2) por um filtro de osmose reversa, que consiste de um sistema com uma membrana filtrante ultrafina semipermeável, capaz de reter os sais dissolvidos; sob pressão a água é forçada a passar pela membrana, deixando nela um rejeito – o processo feito corretamente é capaz de remover grande parte dos componentes orgânicos e a quase totalidade dos sais dissolvidos.
  
Essa água é muito utilizada por criadores de Apistogramma, cujas espécies advenham de Black Water (ou água negra, aquela com aspecto de chá mate). Suas características se dão pela presença de ácidos húmicos e fúlvicos e um composto chamado tanino, oriundos da decomposição vegetal; fatores que fazem o pH despencar para a acidez. Cursos d’água com esta denominação são, normalmente, pobres em nutrientes (minerais dissolvidos) e com boa transparência. A água deionizada já traz consigo todas as características desejáveis por esses hobbystas.
  
Por outro lado, organismos aquáticos que necessitam de íons dissolvidos, como o cálcio, sofrem muito com esse tipo de água. Um exemplo são os gastrópodes, que precisam disso para construir suas próprias conchas. A água deionizada, além de não possuir material para a construção, corrói a concha por meio da acidez.

  
Visto isso, dá pra entender o quão séria é a questão dos íons na água e porque não é aconselhável expor peixes que evoluíram para determinados tipos de água noutra qualidade, completamente diferente. Se de um lado é compreensível a importância da adição de sais em aquários como o de CAs, para obtenção tanto dos elementos mais comuns, quanto os elementos-traço (aqueles raríssimos no ambiente), a outra via é avaliada da mesma forma, peixes que vivem em águas desmineralizadas, não deveriam ser inseridos em águas duras.
  
Captou como é essencial avaliar a água antes de tudo? Nesse sentido, é até melhor falar “águas” (no plural), levando em conta a variedade de tipos iniciais de água. A base de todo o sucesso deve ser sondada antes, tratada e condicionada previamente ao recebimento dos habitantes.
  
Espero que este texto tenha trazido alguma reflexão…agradeço demais a leitura e aguardo vocês no próximo artigo, até lá!

  

Sobre o Autor

João Luís (Johnny Bravo) é brasiliense, daqueles que não se conformou só com o lago Paranoá e foi estudar Oceanologia pela FURG/RS, ingressou no mundo do aquarismo como palestrante e autor de textos há 10 anos, onde cambou para o lado dos Ciclídeos Africanos. Articulista das melhores revistas do ramo, escreveu matérias de capa para a Revista AquaMagazine e Aqualon. Nascido em 1975, é aquarista há 40 anos, pois da água veio e nela gosta de estar. E, hoje integra o time de escritores especializados do Grupo Sarlo.