João Luís é oceanólogo, escritor, entusiasta e aquarista desde sempre.

Grupo Sarlo – 24 de Agosto de 2015

 

Cozinhar peixes para preparar o almoço é diferente de mantê-los em temperatura apropriada no aquário. Conservar o peixe fresco na geladeira é saudável para você comê-lo mais tarde como sashimi, mas poucos deles vivem bem em geladeiras. Veja bem, a ideia original para o artigo era falar da influência da temperatura do aquário sobre o metabolismo dos peixes e não da temperatura que eles devem ser servidos à mesa para ser compatível com o seu metabolismo. Aquarismo. Cozinha. Vamos separar as coisas. Primeiro leiamos um pouco sobre o bem-estar dos peixes e depois você sai pra almoçar ou jantar com a família, certo? Sim, pode ser na frente do aquário também apreciando seus peixes.

Você sabe por que o peixe sempre está com fome? Resposta: porque está sempre com água na boca! Depois do infame trocadilho é melhor ir direto ao texto para diminuir o número de e-mails ao site querendo a execução sumária do responsável pelo texto.

Comecemos pelo começo. Primeira assertiva: metabolismo tem a ver com alimento. Tem sim, a grosso modo isso é correto. Segunda: tudo que preciso é comprar a melhor ração. Embora essa seja uma ótima decisão, infelizmente, não é tudo que importa. Vamos continuar o raciocínio.

Não é de todo certo dizer, quando você está numa loja, ‘eu tenho um peixe e quero uma ração pra ele’. O bom lojista vai querer saber de qual peixe se trata para lhe aconselhar a melhor ração. Por que? Sei que você sabe. Experimente dar alfafa pro leão, BigMac pro cavalo e carne pro periquito. É um completo disparate isso! E nós sabemos. Mas o que muitos não sabem é que isso também é válido para os peixes. Cada espécie ou, ao menos, cada grupo de espécies, tem distintos tratos digestivos, adaptados ao longo dos milhões de anos de evolução a comer certos tipos de alimentos. Isso os leva a ter preferências alimentares, não pelo simples fato de ‘gosto ou não gosto’, mas sim por questões de sobrevivência.

Por outro lado, as adaptações não estão apenas restritas ao formato ou tipo de trato digestivo e suas preferências alimentares, existem fatores externos que influenciam a digestão (o metabolismo). Para falar sobre metabolismo é preciso que você também visualize que peixes, com seu ‘sangue frio’, estão sujeitos às condições ambientais e que interferem na maneira como o peixe viverá.

O que é metabolismo?

Metabolismo é uma palavra usada para se referir ao processo bioquímico num ser vivo responsável por mantê-lo não só vivo, mas sim ‘pronto pra briga’ (a luta pela vida). O que quero dizer com isso? Para um peixe, significaria dizer que ele precisa de energia para alimentar os processos que o mantêm em seu nicho (seu espaço na natureza), considerando desde as funções básicas até as mais específicas de sua espécie. Quais funções? Destacaria 3 grandes grupos: 1) Respiração e nutrição que suprem o corpo com os ‘metabólitos’ (subprodutos da comida em formas mais apropriadas para absorção); 2) Osmorregulação (controle de sais nas células do corpo); e 3) Excreção (que expele os metabólitos que não interessam, o que do contrário poderiam ser considerado veneno ao organismo).

O metabolismo em si, por sua vez e aqui pra nós, poderia ser dividido em dois principais processos: 1) o catabolismo (que é a quebra das moléculas nutritivas com a com liberação de energia, ou seja, torna simples aquilo que era complexo – em termos de moléculas); e 2) o anabolismo (que incorpora as substâncias obtidas pela quebra das substâncias ingeridas, na verdade, trabalha no modo construtivo, criando estruturas complexas como os tecidos: ossos, músculos etc.). Através deles é que os peixes vão crescer, nadar, reproduzir, brigar e manter seu corpo funcionando.

E para entender os efeitos ou o que isso importa pra você, é interessante pensar em metabolismo associando questões como os requerimentos energéticos para atividades fundamentais para o peixe existir, incluindo temas mais amplos como as inter-relações sociais e interespecíficas, migração e reprodução. Assim, um peixe com pleno metabolismo consegue desenvolver seu máximo como espécime, sem maiores entraves. Já um peixe doente, convalescente ou mesmo estressado estará gastando importantes quantidades de energia para curar-se ou reestabelecer-se. Pensando desta maneira, podemos imaginar que se o peixe está usando sua energia metabólica para isso, outras coisas estarão recebendo menos energia, tornando-a menos efetiva ou producente.

Por que temperatura?

Como dito, as condições do ambiente em que o peixe se encontra podem afetar profundamente sua fisiologia, normalmente manifestas no metabolismo. Dentre muitos fatores que podemos destacar, como salinidade, oxigênio dissolvido, pH, toxinas, entre outros, tomamos a temperatura como exemplo. Por que só a temperatura? Primeiro porque não é possível esgotar todas as possibilidades num só artigo, então, precisamos ir aos poucos. Segundo, porque é comum encontrarmos pessoas que não se importam com a temperatura do aquário, dizendo apenas ‘eles aguentam’! Explique ao seu vizinho que não é pelo peixe não ter pego ictio que tudo está bem, a temperatura inadequada pode estar afetando os peixes de uma maneira invisível aos olhos num primeiro momento.

Todavia, é importante frisar que a temperatura não é o fator que comanda o metabolismo, é apenas um dos fatores externos que o influencia e que não deve ser negligenciada, por ser ela muito importante.

Como metabolismo se relaciona com temperatura?

Oxigênio. Próximo ponto. Brincadeira, vamos explicar um pouquinho, até porque não é unânime entre os estudiosos o grau de interferência da temperatura sobre o metabolismo. A verdade gira apenas em dizer que influencia sim, mas que cada espécie tem um comportamento e mesmo uma resposta diferente para tal influência.

Por que falei oxigênio? A quantidade de oxigênio disponível afeta as taxas de metabolismo, pois muita coisa está envolvida a esse elemento. Osmorregulação é umas das atividades ligadas e que requer energia advinda de processos aeróbicos (consumo de oxigênio). Digestão também requer oxigênio e muita energia advinda desse processo. Se está tudo normal no ambiente, a energia que o peixe precisa é produzida por oxidação, o que requer fornecimento constante de oxigênio. Se não houver suficiente, os peixes produzirão energia nos músculos, por meio da quebra da glicose (glicólise), estimulada por adrenalina, convertendo em glucose e energia sem precisar de oxigênio, resultando em lactato (venenoso se mantido no organismo, só pode ser tolerado por curtos períodos; cabe ressaltar que a quebra do lactato utiliza energia e oxigênio).

E sobre temperatura, o que sabemos? Nós sabemos que altas temperaturas diminuem a disponibilidade de oxigênio dissolvido na água, agora, é importante incluir aqui que quando a temperatura aumenta, o consumo de oxigênio e a própria taxa de metabolismo sobem também. O aumento da temperatura implica no aumento da respiração celular, o que reflete no real aumento de consumo de oxigênio utilizado pelo peixe em todo seu corpo (custos metabólicos).

E o que significaria temperatura alta? Relativo isso, não? Para responder a tal questão é necessário entrar no mundo das espécies que temos em nosso aquário, pois o sistema metabólico de cada espécie (ou grupo de espécies) evoluiu por incontáveis anos para chegar ao que é hoje. Cada sistema funciona de forma ideal sob determinadas circunstâncias, assim, se as mudanças são constantes, fortes demais ou se estão completamente diferentes do que o peixe precisa, o metabolismo será influenciado. Por isso, a partir de agora, quando você estiver lendo aquele bom livro ou revista de aquário, você prestará muita atenção à temperatura que o autor coloca ao lado das informações sobre o peixe, pois ela não é só uma informação banal. Como vemos aqui ela tem repercussões maiores no bem-estar de nossos amigos escamosos.

O que mais afeta o metabolismo?

Realmente, como já dito, a temperatura não é o fator regente. Metabolismo funciona conforme condições externas (ambientais) ou ‘internas’ (tamanho, idade, comportamento natural e condições corpóreas), sendo sua aceleração ou desaceleração acionada por hormônios.

Dessa forma, muito há que se considerar, como por exemplo: é normal que peixes mais jovens cresçam mais rápido, o que exige desses estágios metabolismo mais acelerado; o mesmo seria verdadeiro para aquelas espécies mais espevitadas, que não param quietas; e o oposto, metabolismo lento, para peixes com elevada massa corpórea. Peixes em convalescência precisam manter seus órgãos e mesmo repor seus tecidos, o que altera as taxas normais de metabolismo.

O tema ‘metabolismo’ não é um tema estático, ele está sempre se relacionando com outras coisas, mas não é complicado de entender suas bases e importância. A energia para as funções vitais é necessária, se não vier da comida e de sua correta ‘quebra’, virá das reservas que o peixe mantém. Apenas o excesso dessa energia será aplicado à reprodução e ao crescimento, e isso se dá quando o peixe está livre de doenças ou estresse, há estabilidade nas condições ambientais e suprimento de nutrientes é adequado. Por isso ver os peixes tendo filhotes e crescendo é um dos indicativos de bom desenvolvimento metabólico.

Por fim, ainda falando de metabolismo, cabe mencionar que o processo inclui a excreta de tudo que não foi utilizado pelo organismo. Isso implica em compostos que se mantidos dentro do organismo funcionarão como veneno a ele, alguns muito conhecidos pelos aquaristas: dióxido de carbono, amônia e ureia. No meio natural existem formas de recolocá-los no sistema, evitando que apenas acumulem e façam mal aos seres que lá vivem. Para nós, resta ficarmos atentos para as Trocas Parciais de Água e a filtragem, para eliminarmos o que não irá colaborar com nossos aquários.

Lembrem-se que não basta colocar o aquecedor e deixá-lo lá ligado. A circulação da água, por meio de bombas submersas, auxiliará a manter a temperatura da água homogênea.

A partir de hoje, quando você vir que o guppy precisa de águas com temperatura 28°C, saberá que mantê-lo em temperaturas inadequadas certamente estará fazendo com que ele sofra, ao não poder se desenvolver plenamente. Se ele ‘aguenta’ é porque se trata de um guerreiro, lutando pra viver, devendo ser bonificado e não penalizado. Aquecedor mais termostato ‘mode on’! Vamos lá!

 

Sobre o Autor

João Luís (Johnny Bravo) é brasiliense, daqueles que não se conformou só com o lago Paranoá e foi estudar Oceanologia pela FURG/RS, ingressou no mundo do aquarismo como palestrante e autor de textos há 10 anos, onde cambou para o lado dos Ciclídeos Africanos. Articulista das melhores revistas do ramo, escreveu matérias de capa para a Revista AquaMagazine e Aqualon. Nascido em 1975, é aquarista há 40 anos, pois da água veio e nela gosta de estar. E, hoje integra o time de escritores especializados do Grupo Sarlo.