Neste último texto de 2018, a ideia foi relembrar a evolução do aquarismo, que se reflete não somente no quesito beleza e praticidade, mas também naquilo que concerne à qualidade de vida dada aos peixes e demais organismos aquáticos mantidos nos aquários. Nada melhor que um pouco de nostalgia e reflexão para alimentar este período natalino.
  
Quem começou com “O Aquário Ornamental”, de Gastão Botelho, da década de 80 (sim, estou falando de mim), e umas poucas revistas para se informar, hoje, quando olha para trás, visualiza o imenso salto de inovações, que vão desde a facilidade de acessar informação (tanto boa como ruim) até a modernização top de linha dos equipamentos, que seria inimaginável naquela época; e claro, a troca de experiências, fundamental ao aquarismo desde sempre, facilitada zilhões de vezes com os tempos modernos.
  
Lembro-me bem quando, no início deste século (agora pareceu arcaico), eu e outros entusiastas iniciamos um período profícuo de organização de encontros de aquaristas em Brasília. Participávamos de fóruns clássicos da internet, como o Aquahobby ou o Aquarismo Online, e sentíamos a necessidade de aprimorar ainda mais, com a troca de experiências – este é um dos lados benditos desse hobby, pois somos amigos até hoje. Obviamente que não fomos nós os inventores dos encontros, quero apenas dizer que esses eventos, que reúnem todos os interessados do ramo, lojistas e hobbistas, são tendências que ficaram cada vez maiores e mais sérias ao longo dos anos.
  

Eventos Aquarísticos Mundo Afora

  
O ramo dos pets (animais de estimação), que inclui o aquarismo cada vez com mais força, não vê limites. Começando pelo Brasil, para você que pensa que tudo se resume aos encontros de bairro organizados pelo Johnny, começo dizendo que a realidade é completamente diferente. Hoje, alguns eventos feitos no país acompanham os moldes do que é feito no exterior. Cito a “Feira Internacional de Aquarismo”, promovida dentro do VIII AQUACIÊNCIA, realizado entre os dias 19 e 23 de setembro de 2018, em Natal-RN, a qual teve o Grupo Sarlo como um dos patrocinadores. Dentro da programação da feira, estavam elencadas palestras como “O futuro do aquarismo no Brasil” e “The ornamental world Market: situation and trends”, competições, minicursos e oficinas (não especificados na programação). Num evento com este tipo de programação, podemos perceber como o hobby ainda tem espaço para crescer, pois tem abertura para capturar e entreter não só aqueles que já sabem o que buscam, mas também os que apenas têm curiosidade de saber do que se trata, os com pouca experiência, os comerciantes e, claro, a academia, já que o evento é desenvolvido dentro de um congresso científico amplo, sobre aquicultura e biodiversidade aquática.
  
A mais famosa reunião dessa natureza, em termos globais, é a INTERZOO, que reúne expositores e visitantes de todo o planeta a cada 2 anos. Não se trata de uma feira apenas de aquarismo, mas sim para todos os tipos de pets, a qual, segundo o site do evento, teve este ano cerca de 39 mil profissionais fornecendo informação sobre as novidades, em termos de produtos e técnicas, no setor de aquarismo (aquários, lagoas e terrários) – eram 1.990 expositores de 66 países. Este ano, ela ocorreu entre 8 e 11 de maio, em Nuremberg, Alemanha. Além de poder babar com as centenas de stands de venda, exposições diversas e novidades nunca vistas, existem eventos para se aprender algo, como as palestras sobre a “abordagem adequada e planejamento de um aquário biótopo” e outra sobre “manutenção técnica”, ministrada pelo renomado aquapaisagista Oliver Knott – demais! Cabe também destacar as palestras com grandes nomes do ramo das lojas de aquário (só por curiosidade a Seachem Laboratories Inc. esteve entre os expositores do evento). Vá juntando dinheiro e renove o passaporte, a próxima INTERZOO ocorrerá em 2020, de 19 a 22 de maio, em Nuremberg, Alemanha (ah, o site deles tem todas as dicas sobre hospedagem, maneiras de chegar ao evento, passagens etc.).
  
Não há como deixar de lado a MACNA 2018 (Marine Aquarium Conference of North America), a maior conferência sobre aquarismo marinho do mundo, envolvendo empresas, cientistas e hobbistas num só lugar. A última foi realizada entre 7 e 9 de setembro de 2018 em Las Vegas, com exposições, palestras e workshops. Sem me estender muito mais, discriminando os eventos, caberia ainda falar da AQUARAMA, outra exposição internacional voltada aos aquários (e terrários). A 17ª edição se deu entre os dias 22 e 25 de agosto de 2018, em Shangai, na China, no mesmo naipe das demais citadas aqui, e a próxima está prevista para 31 de maio e 2 de junho de 2019, em Guangzhou, China.
  
Dá pra perceber que, para os que gostam e podem viajar, há um grande hall de eventos internacionais que envolvem aquarismo, algo que pode tornar seu hobby ainda mais envolvente.
  

A Qualidade dos Produtos

  
Você se pergunta o que mais existe além de bolhas de ar, navios afundados de porcelana e luminária de calha? Que tipos de produtos legais são mostrados e vendidos nesses eventos mega produzidos? Você há de convir comigo, especialmente se for um aquaristas das antigas, que muita (muita) coisa mudou. Eu lembro quando adquiri meu primeiro termostato + aquecedor num mesmo aparelho. “Nossa que tecnologia fantástica!”, pensei. Por anos a fio eu usei Filtro Biológico de Fundo e precisava limpar o aquário inteirinho de tempos em tempos…quase chorei quando comprei meu primeiro Hang On. Os tempos, no entanto, são outros…
  
Vultosas quantias de recursos são investidas anualmente em pesquisa para o aprimoramento de produtos. Vide as inúmeras e distintas rações de peixe, balanceadas e capazes de atender grupos específicos de animais; o mesmo vale para os sais, condicionadores e medicamentos. Hoje você vai à loja especializada e compra uma mistura de sais que permite transformar a água do seu aquário em algo próximo ao que existe no lago Malawi, por exemplo; pode contar com a precisão e eficiência dos condicionadores, como os que removem a amônia mortal ou o cloro abrasivo ; adquire carvão ativado com baixíssimos níveis de fosfato; sem falar das maravilhas tecnológicas da filtragem, que não exigem mais do aquarista fazer uma limpeza completa no aquário a cada mês e destruir suas bactérias do bem. E iluminação? Com o avanço do uso de lâmpadas de LED, você consegue conciliar a redução do consumo de energia com a capacidade de manter organismos delicados (superior ao uso das fluorescentes T5), como os exigentes corais duros SPS (Short Polyps Solid).
  
Tais melhorias, além do benefício trazido aos organismos que cuidamos, preservam algo que mais temos de precioso em nossas vidas: o tempo.
  

Praticidade

  
Profundamente associada ao avanço tecnológico, a praticidade permite ao aquarismo ganhar espaço na vida moderna. Especialmente para aqueles que moram em apartamentos, em prédios residenciais, com regras restritas para manutenção de pets, muitas vezes um aquário leva vantagem ou é a única opção.
  
Silencioso, sem produção de odores fortes e praticamente um item da decoração do ambiente (especialmente se ele for montado sob técnicas de aquapaisagismo, outra importante tendência), o aquário ganha, nos dias de hoje, elementos que o tornam fácil de manter. Dispositivos WiFi, compatíveis com sistemas iOS e Android dos celulares, dão ao aquarista desde a simples possibilidade de controlar as cores e intensidade da iluminação até a segurança de acompanhar em tempo real a situação dos parâmetros de seu aquário.
  
A praticidade chega em níveis que permitem ao interessado adquirir o aquário em, praticamente, uma peça única. Refiro-me aos aquários fechados, cuja tampa não é meramente uma peça de vidro, mas sim o local onde estão embutidos os sistemas de filtragem (Top Filter) e iluminação, ou àqueles produtos que embora não tenham uma tampa assim, possuem acoplados (na parte traseira e dentro do móvel que o acompanha) todos os sistemas necessários: iluminação, filtragem (incluindo o Skimmer para retirada de proteínas e Sump), bombas de circulação e até Chiller para esfriar o sistema. Esses são os tipos de aquário categorizados como Plug & Play, ou seja, conecte ele na tomada, aperta o botão de ligar e veja-o funcionando completamente. O tamanho também não é problema, pois são vendidos de nano (20 litros) até aquários de 650 litros (quiçá mais).
  
E quando falo de um aquário, numa residência urbana, onde as pessoas têm pouco contato com a natureza, especialmente quando é um ambiente com crianças, ainda vejo mais valor. É a chance de passarmos algo aos pequenos, mostrar o cuidado, repassar o valor da vida que hoje damos tão pouco valor devido ao imediatismo do mundo e a noção de falta de tempo. Parar na frente de um aquário não é perder tempo, é ganhar algo precioso, pois dá ao observador a chance de apreciar a manifestação da vida em outros lugares que não o próprio corpo e a roda de amigos. Emerge de tal atitude uma sensibilidade que é válida tanto para a própria saúde (dar tempo a si mesmo) quanto para reparar na importância que o meio ambiente tem para o ser humano. Sei, porém, que existem linhas ambientalistas que reprovariam o ato de se manter peixes presos em cubículos de água; de certo ponto de vista está correto, no que concerne aos maus tratos, mas, e se o aquário possuir dimensões e parâmetros de água apropriados? Se conferir ao peixe (organismo criado) longevidade e pleno desenvolvimento?
  
Sabemos que, ao ritmo que anda a dita evolução, muitos ambientes naturais se perdem e com eles se vão (para sempre) as espécies. É factível que certas espécies, um dia, estarão presentes apenas em ambientes artificiais (quanto maior o grau de endemismo, mais provável). Será que o aquarismo não pode se qualificar como um meio de garantia de existência de tais espécies? Aprimorar o conhecimento disseminado no hobby não seria uma prioridade, para que todos tenham a oportunidade de fazer o melhor? O mundo não espera, está indo a passos rápidos e passando por cima de tudo e de todos. Como os rebentos humanos, esperança da sociedade, comprarão esse discurso de proteção da natureza se não tiverem contato com ela, em algum grau? A sensibilidade a isso deveria ser plantada e alimentada…e eu só estou divagando nisso com base em exemplos que aconteceram comigo ou perto de mim, os quais pude presenciar…mas acredito nisso.
  
Este é um hobby cujas tendências são crescer, aprimorar e, quem sabe, servir à natureza de alguma forma e não só retirar dela. Conhecimento, avanços tecnológicos e novas almas despertas pela proximidade do mundo natural com o dia a dia…isso é o que nos espera no mundo dos aquários!

  
Então é isso, fico por aqui…um dingle bells e um feliz ano novo para todos! Neste fim de ano, não desligue os aparelhos do aquário para ligar a árvore de natal! Abraços!